{"id":27682,"date":"2022-05-24T11:05:51","date_gmt":"2022-05-24T14:05:51","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=27682"},"modified":"2024-01-26T11:37:54","modified_gmt":"2024-01-26T14:37:54","slug":"zeze-um-icone-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2022\/05\/24\/zeze-um-icone-do-brasil\/","title":{"rendered":"Zez\u00e9, um \u00edcone do Brasil!"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_27689\" aria-describedby=\"caption-attachment-27689\" style=\"width: 223px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-27689\" src=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/A-200x300.jpg\" alt=\"cr\u00e9dito: Thiago Bruno\" width=\"223\" height=\"335\" data-id=\"27689\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/A-200x300.jpg 200w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/A-684x1024.jpg 684w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/A-1026x1536.jpg 1026w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/A-1368x2048.jpg 1368w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/A-100x150.jpg 100w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/A-scaled.jpg 1710w\" sizes=\"(max-width: 223px) 100vw, 223px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-27689\" class=\"wp-caption-text\">Zez\u00e9 Motta, aos 77 anos, se destaca na TV, no cinema, no streaming e no mercado publicit\u00e1rio<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong><em>Um dos maiores \u00edcones da TV e do cinema nacional, Zez\u00e9 Motta, aos 77 anos, fala \u00e0 Regional sobre carreira, sua luta contra o preconceito e a maternidade<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Admirada e aplaudida, Zez\u00e9 Motta \u00e9 um \u00edcone da cultura nacional, com carreira consagrada no cinema, no teatro, na TV e na m\u00fasica. Importante para o movimento negro no Brasil, aos 77 anos, ela segue trilhando seu caminho contra o machismo e o preconceito, pela liberdade e igualdade, e tem consci\u00eancia da import\u00e2ncia de preservar a cultura negra no pa\u00eds. Nesta entrevista exclusiva, Zez\u00e9 fala sobre os projetos em que est\u00e1 envolvida; recorda uma das personagens mais emblem\u00e1ticas do cinema brasileiro, a Xica da Silva; reflete sobre sua inf\u00e2ncia ao lado de sua fam\u00edlia; e, consequentemente, sobre a maternidade. Aqui, voc\u00ea conhece n\u00e3o s\u00f3 essa mulher incr\u00edvel, mas aprende com ela o que \u00e9 ter resili\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>REVISTA REGIONAL: Zez\u00e9, vamos come\u00e7ar abordando o \u201cFalas da Vida\u201d. A senhora diria que apresentar este programa mudou sua forma de enxergar a vida? O que aprendeu acompanhando as v\u00e1rias hist\u00f3rias e experi\u00eancias que foram apresentadas ao longo do programa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>ZEZ\u00c9 MOTTA: Ter recebido este convite para apresentar um projeto t\u00e3o especial como o \u201cFalas da Vida\u201d, na TV Globo, foi uma honra e uma alegria. N\u00e3o necessariamente me fez enxergar a vida de outra maneira, pois quando voc\u00ea possui certa idade, que \u00e9 o meu caso, de tudo um pouco voc\u00ea j\u00e1 vivenciou, claro que as hist\u00f3rias mostradas ali foram inspiradoras, pessoas com 80, 90 anos, de bem com a vida, ativas e com sede de viver mais. Ter participado deste programa s\u00f3 me confirmou que viver \u00e9 bom demais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00c9 inevit\u00e1vel n\u00e3o falar sobre Xica da Silva (1976), uma personagem hist\u00f3rica que ser\u00e1 lembrada daqui a um ou dois s\u00e9culos. Ap\u00f3s todos esses anos quais s\u00e3o os reflexos que essa personagem ainda tem na sua vida? De que maneira ela te influencia a viver o dia de hoje? Xica era uma mulher \u00e0 frente do seu tempo, revolucion\u00e1ria, eu diria, mas qual o seu olhar para essa figura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Fazer Xica da Silva foi um divisor de \u00e1guas na minha vida, eu conhecia apenas tr\u00eas pa\u00edses, tinha ido com o teatro Arena, do Augusto Boal, viajamos com ele para os EUA, M\u00e9xico e Peru, fazendo Arena Conta Zumbi e Arena Conta Bol\u00edvar. Depois de Xica da Silva, conheci 16 pa\u00edses e os que eu conheci com o Boal eu tive que voltar para divulgar o filme. O que ela ainda tem na minha vida? Olha, na \u00e9poca quando me chamavam de Xica na rua, eu pensava: \u201cMeu Deus! Quando v\u00e3o me reconhecer como a Zez\u00e9 Motta?\u201d Depois, comecei a pensar: \u201cQuer saber? Essa mulher mudou minha vida, foi minha fada madrinha. Por que estou reclamando?\u201d Eu sinto que tenho a for\u00e7a da mulher Xica, a coragem que ela tinha. Viver de arte no Brasil \u00e9 para quem tem for\u00e7a e coragem. Quando fui apontada como s\u00edmbolo sexual, confesso que me senti de alma lavada. Na \u00e9poca, saiu numa revista que a atriz que havia passado no teste era \u201cfeia, por\u00e9m exuberante\u201d. Eu me olhava na foto e me sentia t\u00e3o linda, sabe? Mas, infelizmente, \u00e9 assim que a banda toca\u2026 O meu olhar para essa mulher \u00e9 de admira\u00e7\u00e3o, respeito e gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>M\u00eas das m\u00e3es, vamos falar sobre maternidade. Mesmo n\u00e3o gerando a senhora encontrou uma maneira de realizar o sonho de ser m\u00e3e. No que a maternidade contribuiu para o seu crescimento como mulher e ser humano? Quais foram os lugares e sentimentos que visitou depois da chegada dos seus filhos e agora netos?<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente eu n\u00e3o consegui gerar, mas tive quatro filhos, e me orgulho bastante. Luciana, Carla, Cintia e Robson. Eu nem lembro que n\u00e3o gerei, sabe? S\u00e3o meus filhos. A conviv\u00eancia com essas meninas e o menino, com pessoas, te ensina muita coisa, principalmente a se doar, a ceder, a cuidar&#8230; A chegada dos filhos e dos netos me trouxe uma nova fam\u00edlia, este \u00e9 o melhor lugar&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em que tipo de mundo a senhora gostaria que os seus netos crescessem? A senhora acha que daqui a uns 20, 30 anos, o racismo deixar\u00e1 de existir?<\/strong><\/p>\n<p>Eu vivia nos anos 1980 (quando fundamos o Movimento Negro) sonhando que estava preparando um mundo melhor para minhas filhas e netos.&nbsp;S\u00f3 que n\u00e3o foi bem assim que aconteceu, n\u00e9? A diferen\u00e7a \u00e9 que antigamente o racismo era velado, hoje ele est\u00e1 a\u00ed, escancarado para todo mundo ver. Algumas coisas mudaram, evolu\u00edram, mas ainda temos muita luta pela frente. Enquanto houver uma Maria, um Jos\u00e9, um Matheus sofrendo alguma discrimina\u00e7\u00e3o eu carregarei a bandeira de combate \u00e0 intoler\u00e2ncia racial. Infelizmente, o nosso amado Brasil \u00e9 o pa\u00eds da discrimina\u00e7\u00e3o. Aqui temos preconceito contra tudo: ra\u00e7a, religi\u00e3o, orienta\u00e7\u00e3o sexual. Infelizmente, nos \u00faltimos dois anos, o racismo no Brasil se agravou muito. \u00c9 muito triste ver esse retrocesso. N\u00e3o consigo imaginar daqui a uns 20, 30 anos, mas quem sabe 50 anos&#8230; Ao longo da minha vida passei por muitas situa\u00e7\u00f5es de racismo declarado, hoje, Gra\u00e7as a Deus, sou uma pessoa muito amada por meus f\u00e3s que valorizam o meu trabalho e n\u00e3o h\u00e1 mais, diretamente a mim, a\u00e7\u00f5es declaradas de racismo. Nos anos 1970, ainda no in\u00edcio da carreira, eu que sou claustrof\u00f3bica, fui visitar um amigo que morava no andar alto de um pr\u00e9dio. Ao chegar ao edif\u00edcio e ter minha entrada autorizada, o porteiro disse que eu s\u00f3 poderia subir pelo elevador de servi\u00e7os. Comentei que estava visitando e entrei no elevador social. Ap\u00f3s alguns andares, o porteiro travou o elevador, de prop\u00f3sito como uma puni\u00e7\u00e3o e preconceito. S\u00e3o coisas que n\u00e3o se esquece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quando a senhora pensa em fam\u00edlia, o que vem \u00e0 mente? De que maneira se conecta com as lembran\u00e7as que fizeram parte da sua inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e hoje uma mulher independente, dona de si, que sabe o que quer e o que n\u00e3o quer? Como a sua fam\u00edlia moldou a sua vida para ser quem \u00e9 hoje?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Morei no \u201cAsylo Esp\u00edrita Jo\u00e3o Evangelista\u201d dos seis aos 12 anos. Vivi num col\u00e9gio interno, longe da minha fam\u00edlia. Sou muito grata por tudo que vivi l\u00e1, mas, sim, me senti muito rejeitada. N\u00e3o consegui entender porque fui para o col\u00e9gio interno, enquanto meu irm\u00e3o ficou com a vov\u00f3, em Campos. Isso para a cabe\u00e7a de uma crian\u00e7a \u00e9 meio louco, n\u00e9? Cheguei a pensar que era filha adotiva. Mas o internato foi muito importante. Aprendi a bordar, a fazer tric\u00f4, croch\u00ea, a cozinhar e, sobretudo, a viver em comunidade. \u00c9ramos 60 meninas. Conviver \u00e9 dif\u00edcil. Aprendi a fazer isso em harmonia e, mais importante, a ser solid\u00e1ria, afinal, voc\u00ea n\u00e3o pode passar a vida inteira olhando apenas para o pr\u00f3prio umbigo. Era para eu ter ficado l\u00e1 at\u00e9 os 16 anos, mas meus pais melhoraram de vida, sa\u00edram do Cantagalo para morar num apartamento no Leblon e me levaram com eles. Minha m\u00e3e tinha montado um ateli\u00ea de costura no apartamento, que \u00e0 noite virava resid\u00eancia. Isso tudo me moldou para eu ser quem sou hoje. Quando penso em fam\u00edlia, penso em amor, em fazer pelo outro, em simplicidade&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Zez\u00e9, a senhora \u00e9 uma mulher que sempre trabalhou, se dedicou muito \u00e0 arte, e a gente sabe a rotina intensa que \u00e9 a vida de um artista, mas ainda assim decidiu ser m\u00e3e. H\u00e1 alguns anos ainda n\u00e3o havia toda essa conscientiza\u00e7\u00e3o de que a obriga\u00e7\u00e3o de cuidar dos filhos fosse do casal. Como foi esse per\u00edodo para a senhora? Como foi dividir as dores e as del\u00edcias de criar os filhos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Olha, eu nunca parei para pensar nisso porque eu tive muitos casamentos e eles quase sempre duravam cinco anos. Eu sempre fui meio que a respons\u00e1vel pela casa, pelas meninas, por quase tudo&#8230; Viaja muito, n\u00e3o parava e a vida foi passando e a gente se virava, no final dava tudo certo. N\u00e3o foi f\u00e1cil cuidar de tr\u00eas meninas adolescentes e um menino. Tinha momentos que era bem puxado, mas dei conta&#8230; Tem a parte boa tamb\u00e9m, o amor, o carinho, acompanhar o crescimento, isso \u00e9 o que importa.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_27686\" aria-describedby=\"caption-attachment-27686\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-27686 size-medium\" src=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/d-200x300.jpg\" alt=\"cr\u00e9dito: Alexandros\" width=\"200\" height=\"300\" data-id=\"27686\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/d-200x300.jpg 200w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/d-683x1024.jpg 683w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/d-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/d-100x150.jpg 100w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/d.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-27686\" class=\"wp-caption-text\">Zez\u00e9 em ensaio especial<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Eu gostaria que a senhora falasse um pouco sobre o Cidan (Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Artista Negro). Qual a import\u00e2ncia deste projeto na sua vida? E qual a situa\u00e7\u00e3o atual dele?<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Foi em 1984, eu criei um banco de dados listando os artistas negros. Criei esse projeto com outras pessoas do movimento negro, o Centro de Informa\u00e7\u00e3o e Documenta\u00e7\u00e3o do Artista Negro (Cidan), para dizer quem somos, quantos somos e onde estamos. O banco tem mais de 500 atores negros. J\u00e1 conseguimos, por exemplo, ter um curso de teatro nas comunidades carentes, patrocinado pela dona Ruth Cardoso&nbsp;[saudosa antrop\u00f3loga e ex-primeira-dama do Brasil, 1930-2008], de quem me aproximei quando fui conselheira de Direitos Humanos, entre 1995 e 1998, durante o primeiro governo do presidente Fernando Henrique&nbsp;Cardoso [marido de Ruth]. Na \u00e9poca, uma amiga promoveu um curso de cabeleireira para comunidades carentes e fui madrinha da primeira turma. Percebi a transforma\u00e7\u00e3o que iniciativas como essa geram no modo de vestir e de falar. N\u00f3s temos a autoestima no subsolo. Neste momento, nossa ideia \u00e9 reativar o Cidan. Tinha revezamento na presid\u00eancia. O primeiro foi Jaques Jacques D\u2019Adesky, um dos fundadores,&nbsp;depois eu e depois o Ant\u00f4nio Pomp\u00eau [morto em 05 de janeiro de 2016]. Por todas essas quest\u00f5es, e, sobretudo, por causa do desemprego, ele teve que priorizar a sobreviv\u00eancia dele e, como n\u00e3o conseguia trabalho, ele entrou em depress\u00e3o e o Cidan ficou parado. Pomp\u00eau era muito fechado, ele n\u00e3o abria muito pra gente o que estava acontecendo, ele ficava muito constrangido porque as coisas n\u00e3o iam bem, e a gente tentava uma reuni\u00e3o, ele ficava protelando, protelando, porque ele queria resolver primeiro as quest\u00f5es do Cidan, as d\u00edvidas, enfim, os problemas de um modo geral, para depois marcar uma reuni\u00e3o e anunciar: tivemos esse problema mas est\u00e1 resolvido. Mas, infelizmente, n\u00e3o teve tempo para isso. Ent\u00e3o, nossa p\u00e1gina hoje est\u00e1 parada, mas tenho uma meta de em 2022 retornar. Tem que deixar passar este momento cruel e perverso que o pa\u00eds est\u00e1 atravessando para ver se consigo patroc\u00ednio para reativar o Cidan. Um dos problemas do Cidan \u00e9 uma d\u00edvida que tem que ser resolvida para que a p\u00e1gina volte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Num post no Instagram a senhora faz um relato sobre vaidade, ditadura da aceita\u00e7\u00e3o, ficar velha, se gostar, se amar. Essa \u00e9 uma maneira de mostrar \u00e0s pessoas que a senhora \u00e9 quem tem o desejo de ser, independentemente das cobran\u00e7as alheias? Em algum momento da vida a senhora deixou de fazer alguma coisa em fun\u00e7\u00e3o do outro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Todo mundo nessa vida j\u00e1 tentou ser algu\u00e9m para agradar o outro ou ent\u00e3o se deixou levar por algum padr\u00e3o, mas tamb\u00e9m est\u00e1 muito ligado \u00e0 maturidade da pessoa, entende? Depois que voc\u00ea passa dos 60 anos, tudo muda, sua cabe\u00e7a muda muito, voc\u00ea cansa das coisas e sente pregui\u00e7a. Pregui\u00e7a de querer se moldar a algum padr\u00e3o, por exemplo. Estou muito bem resolvida com quem sou, o que me tornei. Hoje me cuido muito sim, fa\u00e7o gin\u00e1stica, fa\u00e7o dieta, n\u00e3o por um padr\u00e3o, apenas por sa\u00fade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Zez\u00e9, falando sobre sua carreira musical, quais s\u00e3o os lugares que a m\u00fasica te emociona, te leva? Claro que \u00e9 diferente de atuar, mas o que a senhora sente quando canta e o que gostaria que as pessoas sentissem quando elas escutam sua m\u00fasica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Se&nbsp;voc\u00ea me colocar contra a&nbsp;parede, acho que fico com a m\u00fasica. Isso porque empresto a&nbsp;atriz&nbsp;para a&nbsp;cantora.&nbsp;A m\u00fasica sempre fez parte da minha vida. A ideia de ser cantora veio do meu pai, com toda certeza. Ele trabalhava como motorista durante o dia, para ganhar dinheiro, mas era m\u00fasico erudito. Tamb\u00e9m dava aulas de viol\u00e3o e tocava m\u00fasica popular na noite para sobreviver. Sou do tempo do r\u00e1dio. Minha m\u00e3e e eu pass\u00e1vamos o dia inteiro costurando e ouvindo a programa\u00e7\u00e3o. Quando meu pai chegava em casa, eu falava: \u201cOlha que m\u00fasica linda que a Dalva de Oliveira gravou\u201d, e cantava para ele. Um dia, quando eu tinha uns 16 anos, a Ellen de Lima gravou uma muito dif\u00edcil. Assim que terminei de cantar, meu pai perguntou: \u201cQuantas vezes voc\u00ea ouviu essa m\u00fasica?\u201d. Ela tinha acabado de lan\u00e7ar o LP, tinha escutado umas tr\u00eas vezes. Ent\u00e3o, ele disse: \u201cVoc\u00ea aprendeu a melodia, decorou a letra, que \u00e9 enorme, e n\u00e3o desafinou. Tem que ser cantora\u201d. Era engra\u00e7ado porque minha m\u00e3e torcia para que eu seguisse a profiss\u00e3o dela e, meu pai, a dele. Fiquei muito dividida, at\u00e9 porque ela era uma modista bem-sucedida e sempre me dizia que meu pai n\u00e3o tinha conseguido fazer carreira nem como m\u00fasico erudito, nem como m\u00fasico popular. Acho que misturar a atriz com a cantora d\u00e1 certo, porque interpreto no palco, cada m\u00fasica cantada eu crio uma personagem, vou l\u00e1 e me jogo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m do filme \u201cAlem\u00e3o 2\u201d, que acabou de ser lan\u00e7ado, quais seus pr\u00f3ximos projetos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Nossa \u00e9 tanta coisa! Agrade\u00e7o a Deus todos os dias por estar com 77 anos e em plena atividade. Esse ano tenho sete filmes para rodar. Acabei de fazer uma s\u00e9rie para a Globo, a segunda temporada de \u201cArcanjo Renegado\u201d, e j\u00e1 vou come\u00e7ar a rodar outra, chama \u201cFim\u201d, de autoria da Fernanda Torres, tamb\u00e9m para a Globo. Em seguida, vou ao Piau\u00ed gravar um filme sobre a vida da Esperan\u00e7a Garcia, uma mulher negra escravizada brasileira, considerada a primeira mulher advogada do Piau\u00ed. Pretendo gravar um novo disco esse ano, em julho tenho a terceira edi\u00e7\u00e3o do Especial Mulher Negra, onde sou mentora, e tamb\u00e9m tenho shows confirmados no Rio, em S\u00e3o Paulo e em Salvador. Ufa!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>entrevista: Ester Jacopetti<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos maiores \u00edcones da TV e do cinema nacional, Zez\u00e9 Motta, aos 77 anos, fala \u00e0 Regional sobre carreira, sua luta contra o preconceito e a maternidade &nbsp; Admirada e aplaudida, Zez\u00e9 Motta \u00e9 um \u00edcone da cultura nacional, com carreira consagrada no cinema, no teatro, na TV e na m\u00fasica. 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