{"id":26958,"date":"2022-01-11T15:17:05","date_gmt":"2022-01-11T18:17:05","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=26958"},"modified":"2024-01-26T09:48:11","modified_gmt":"2024-01-26T12:48:11","slug":"um-monge-saltense-no-alto-do-copan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2022\/01\/11\/um-monge-saltense-no-alto-do-copan\/","title":{"rendered":"Monge saltense leva medita\u00e7\u00e3o ao alto do Copan"},"content":{"rendered":"<ul>\n<li><strong><em>Conhecido nacionalmente por levar a medita\u00e7\u00e3o ao topo do ic\u00f4nico Edif\u00edcio Copan, no Centro velho paulistano, o monge Jish\u00f4 Handa conta sobre a sua vida no Budismo e como a pandemia nos fez dar valor \u00e0 vida<\/em><\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<figure id=\"attachment_26959\" aria-describedby=\"caption-attachment-26959\" style=\"width: 549px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26959\" src=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/1-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"549\" height=\"309\" data-id=\"26959\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/1-300x169.jpg 300w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/1-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/1-2048x1152.jpg 2048w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/1-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 549px) 100vw, 549px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26959\" class=\"wp-caption-text\">Monge Handa, h\u00e1 40 anos fora de Salto, tornou-se monge budista em S\u00e3o Paulo (Arquivo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Francisco Handa nasceu em Salto. Em 1989, mesmo sem nunca ter pensado em um dia se dedicar totalmente \u00e0 atividade religiosa, foi ordenado monge budista pela tradi\u00e7\u00e3o Soto Zen e recebeu o nome de Jish\u00f4 Handa. Jish\u00f4 significa <em>\u201cirradiar da compaix\u00e3o\u201d<\/em>. <em>\u201cSeria aquele raio compassivo que a todos ajuda. Um nome bastante inspirador, que quando recebi me fez questionar quem seria eu para ajudar os outros. E a mim, quem me ajudaria? Uma argumenta\u00e7\u00e3o nada pertinente para aquele momento\u201d, <\/em>afirma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seu primeiro contato com o Budismo foi por meio da leitura do livro \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o ao Zen Budismo\u201d, o qual, segundo Jish\u00f4 Handa, foi marcante e diferente de tudo o que j\u00e1 tinha lido, exatamente por colocar o mundo de ponta cabe\u00e7a. <em>\u201cEra algo mais ousado, mais revolucion\u00e1rio, uma forma de antirreligi\u00e3o\u201d,<\/em> ressalta. Quando chegou a S\u00e3o Paulo para cursar a faculdade de Turismo encontrou no bairro da Liberdade o templo Busshinji, do qual faz parte at\u00e9 hoje. Com alguns amigos, come\u00e7ou a frequentar as sess\u00f5es da medita\u00e7\u00e3o Zazen. Jish\u00f4, na \u00e9poca ainda Francisco, foi uma vez realizar a pr\u00e1tica de ficar sentado com as pernas cruzadas, voltado para a parede, quieto por meia hora. Era isso que se fazia l\u00e1. Havia um mestre monge, que falava japon\u00eas, traduzido em seguida por um monge brasileiro. <em>\u201cDaquilo que ouvia, nada entendia. Entretanto, houve um fasc\u00ednio por tudo aquilo. Ficar sentado, quieto, diante de uma parede branca era a mais perfeita irracionalidade. Era perturbador, mas tamb\u00e9m atraente\u201d<\/em>, relembra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1986, como uma forma de quebrar a rotina exaustiva, ele voltou a meditar, por\u00e9m sozinho. At\u00e9 que o monge que dirigia a medita\u00e7\u00e3o, vendo sua assiduidade, perguntou a ele o que o motivava a manter aquele ritmo, e a resposta foi: <em>\u201cquerer penetrar fundo no zen <\/em>(zen \u00e9 como o Budismo chama o estado meditativo profundo e sutil)<em>\u201d<\/em>. Na sequ\u00eancia, Jish\u00f4 recebeu a afirmativa de que deveria se tornar monge. E assim, no s\u00e1bado seguinte, participou da ordena\u00e7\u00e3o, sem saber muito do que aconteceria. Na \u00e9poca, cursando Hist\u00f3ria, todos os seus esfor\u00e7os se voltavam para os estudos acad\u00eamicos, sendo o Budismo o \u00e1pice dos seus prop\u00f3sitos. Quando finalizou o doutorado em Hist\u00f3ria, em 2001, assumiu totalmente o posto de monge regular do Templo Busshinji e, em 2004, foi ao Jap\u00e3o treinar em um mosteiro e, desde ent\u00e3o, abandonou suas roupas leigas.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cSe me perguntarem quais os motivos que me levaram a ser monge, posso dizer que n\u00e3o foi unicamente a realiza\u00e7\u00e3o de minha vontade. Tinha vontade, claro! Mas tinha vontade de fazer outras coisas, como me tornar professor universit\u00e1rio concursado numa institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Abandonei este projeto. N\u00e3o me arrependo. Acho que somos aquilo que as condi\u00e7\u00f5es do universo nos prop\u00f5em. Isso aconteceu comigo\u201d<\/em>, destaca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Abra\u00e7ar a cidade e acolher as dores<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_26960\" aria-describedby=\"caption-attachment-26960\" style=\"width: 438px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-26960\" src=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/2-300x229.jpg\" alt=\"\" width=\"438\" height=\"334\" data-id=\"26960\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/2-300x229.jpg 300w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/2-1024x783.jpg 1024w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/2-150x115.jpg 150w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/2.jpg 1134w\" sizes=\"(max-width: 438px) 100vw, 438px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26960\" class=\"wp-caption-text\">Handa \u00e9 respons\u00e1vel pela famosa medita\u00e7\u00e3o no alto do ic\u00f4nico edif\u00edcio Copan (Arquivo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Jish\u00f4 Handa ficou nacionalmente conhecido em 2008, quando a revista Veja noticiou o fato inusitado de ele meditar no topo do Copan, o ic\u00f4nico edif\u00edcio do Centro velho paulistano. De acordo com o monge, a ideia surgiu da necessidade de levar o Zazen (pr\u00e1tica Zen Budista), por meio de um espa\u00e7o p\u00fablico, para a regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo. De in\u00edcio, foi pensado em uma torre na avenida Paulista, mas o Copan acabou virando op\u00e7\u00e3o por meio de seus contatos.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO objetivo era abra\u00e7ar a cidade, que daquele ponto nos parecia uma bolha, como posto numa redoma de vidro. Alguns podem pensar que com a medita\u00e7\u00e3o levamos tranquilidade aos habitantes. Nem sei se a medita\u00e7\u00e3o tem a capacidade de promover tal fato. N\u00e3o era isso. O que nos movia a ir meditar no Copan era acolher todas as dores produzidas pela cidade, de seus habitantes sonhadores, dos imigrantes, dos desvalidos, mendigos e sofredores. No momento da medita\u00e7\u00e3o, a cidade toda meditava conosco, esquecendo-se das mazelas de uma cidade grande e violenta. Mas, ao mesmo tempo, era a S\u00e3o Paulo que am\u00e1vamos. Esta tinha sido a cidade que me acolheu, deu oportunidades, conheci muita gente, sofri decep\u00e7\u00f5es e fui feliz. Aceitar S\u00e3o Paulo como ela \u00e9, em todas as suas contradi\u00e7\u00f5es. Seria isto tamb\u00e9m um dos ensinamentos do Budismo, da compaix\u00e3o e desapego\u201d,<\/em> explica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A nossa mente<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Jish\u00f4 Handa, a mente \u00e9 o tema principal do Budismo. \u00c9 o campo de todas as ilus\u00f5es e tamb\u00e9m da ilumina\u00e7\u00e3o. Ele explica que a cultura ocidental ensina que a mente deve ser preenchida por informa\u00e7\u00f5es, por isso se frequenta escola e nos inserem informa\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o consumidas, pensadas, comportadas e valorizadas. <em>\u201cNo Budismo, temos que chegar a uma mente mais isenta de informa\u00e7\u00f5es, uma mente mais pura. No caso, ainda que a mente seja parte do mundo da informa\u00e7\u00e3o, temos que aprofundarmo-nos at\u00e9 uma mente mais genu\u00edna. Esta mente genu\u00edna \u00e9 a mente\/Buda. Todos t\u00eam a mente\/Buda. N\u00e3o depende de religi\u00e3o e de cultura. A alegoria a respeito deste tema \u00e9 o seguinte: Buda est\u00e1 sentado numa flor de l\u00f3tus, o l\u00f3tus nasce no p\u00e2ntano, mas em hip\u00f3tese alguma a flor de l\u00f3tus se deixar sujar pela \u00e1gua p\u00fatrida do p\u00e2ntano. Se perguntarmos o que \u00e9 Buda, posso dizer: \u00e9 a mente!\u201d,<\/em> defende.<\/p>\n<figure id=\"attachment_26961\" aria-describedby=\"caption-attachment-26961\" style=\"width: 377px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-26961\" src=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Monge-Handa-2-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"377\" height=\"503\" data-id=\"26961\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Monge-Handa-2-225x300.jpg 225w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Monge-Handa-2-768x1024.jpg 768w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Monge-Handa-2-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Monge-Handa-2-113x150.jpg 113w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Monge-Handa-2.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 377px) 100vw, 377px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26961\" class=\"wp-caption-text\">Monge Handa no templo budista (Arquivo Pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele conta que a pandemia trouxe uma nova experi\u00eancia aos grupos de Zen, a medita\u00e7\u00e3o online, afinal os templos ficaram fechados. Por conta disso, Jish\u00f4 n\u00e3o sabe dizer se a procura pela medita\u00e7\u00e3o aumentou ou n\u00e3o, mas reconhece que, em seu templo, o interesse segue grande, como sempre foi! A quest\u00e3o \u00e9 que todo esse momento mundial trouxe sofrimento, indaga\u00e7\u00f5es, medo e inseguran\u00e7a. Saber lidar com tudo isso foi complicado para grande parte da popula\u00e7\u00e3o e, at\u00e9 nesse contexto negativo, o Budismo traz um olhar diferente e reflexivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o monge, o sofrimento, conforme os ensinamentos, difere de dor. A dor n\u00e3o pode ser negada, ela existe! <em>\u201cQuando se coloca a quest\u00e3o do sofrimento, a dor multiplica de tamanho, pois trata de uma condi\u00e7\u00e3o mental. O sofrimento \u00e9 um dado da mente em sua abstra\u00e7\u00e3o. A felicidade tamb\u00e9m pode ser uma abstra\u00e7\u00e3o. O sofrimento me parece uma forma de apego, uma lamenta\u00e7\u00e3o pelo que se perdeu. O sofrimento pode perder intensidade quando percebemos que se trata de uma ilus\u00e3o. N\u00e3o temos que sofrer por uma cria\u00e7\u00e3o mental, sem uma subst\u00e2ncia concreta. Ainda assim, sabedor disso, sofremos. \u00c9 o ego que n\u00e3o quer ceder, resiste em diminuir de intensidade. O ego \u00e9 o causador de todo sofrimento. Quando assumimos um papel compassivo, ajudamos algu\u00e9m sem exigir retorno, o ego \u00e9 deixado de lado, assim o sofrimento perde relev\u00e2ncia. De qualquer forma, o sofrimento n\u00e3o perdura para sempre. Nem mesmo o apego ao sofrimento n\u00e3o dura para sempre\u201d,<\/em> ensina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jish\u00f4 Handa assegura que at\u00e9 o sofrimento tem algo a nos ensinar; afinal, com ele, podemos nos tornar mais fortes. Para o monge, se tem algo que vamos levar desta pandemia \u00e9 o valor da vida, que at\u00e9 ent\u00e3o era desprezado. <em>\u201cAgora sabemos que a vida \u00e9 fr\u00e1gil, que podemos perd\u00ea-la na pr\u00f3xima esquina. Quem sabe, de agora em diante, possamos dar um sentido mais valorizado da pr\u00f3pria vida. Se posso perd\u00ea-la, n\u00e3o sei quando, fa\u00e7o da minha vida agora uma eternidade. Eu pr\u00f3prio entendi que n\u00e3o posso mais perder minutos de minha vida odiando, pois ser\u00e3o minutos que poderia amar mais. Mas isso \u00e9 uma quest\u00e3o de escolha. A vida \u00e9 mais importante do que dedicar \u00e0s futilidades. Cada um que tenha o seu entendimento. O Budismo n\u00e3o diz o que devemos fazer, apenas aponta possibilidades. Prefiro a alegria ao ressentimento\u201d, <\/em>pontua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fora de Salto h\u00e1 40 anos, o Monge Handa conta que tem uma liga\u00e7\u00e3o profunda com a cidade, mas as visitas s\u00f3 eram rotineiras quando seus pais ainda eram vivos. <em>\u201cDaquilo que tenho de lembran\u00e7a, nada mais existe. \u00c9 estranho. A cidade que visito, existe apenas em minha mente. Em frente da Matriz <\/em>(igreja Nossa Senhora do Monte Serrat)<em>, aquelas escadarias pareciam mais altas, bem mais altas. Fiquei decepcionado, eram baixas, com poucos degraus. N\u00e3o importa. Visitar Salto \u00e9 como nunca ter sa\u00eddo de l\u00e1, mas est\u00e1 t\u00e3o diferente\u201d<\/em>, conclui.<\/p>\n<p><em><strong>reportagem de Aline Queiroz<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>fotos: Arquivo pessoal<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhecido nacionalmente por levar a medita\u00e7\u00e3o ao topo do ic\u00f4nico Edif\u00edcio Copan, no Centro velho paulistano, o monge Jish\u00f4 Handa conta sobre a sua vida no Budismo e como a pandemia nos fez dar valor \u00e0 vida Francisco Handa nasceu em Salto. 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