{"id":22597,"date":"2020-06-09T10:35:43","date_gmt":"2020-06-09T13:35:43","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=22597"},"modified":"2024-01-26T09:48:50","modified_gmt":"2024-01-26T12:48:50","slug":"medicos-da-regiao-relatam-os-dramas-na-linha-de-frente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2020\/06\/09\/medicos-da-regiao-relatam-os-dramas-na-linha-de-frente\/","title":{"rendered":"M\u00e9dicos da regi\u00e3o relatam os dramas na linha de frente"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_22600\" aria-describedby=\"caption-attachment-22600\" style=\"width: 239px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-22600\" src=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/1-769x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"239\" height=\"318\" data-id=\"22600\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/1-769x1024.jpeg 769w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/1-225x300.jpeg 225w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/1-113x150.jpeg 113w\" sizes=\"(max-width: 239px) 100vw, 239px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-22600\" class=\"wp-caption-text\">Adriano Vendimiatti, m\u00e9dico emergencista em Indaiatuba e Campinas<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Eles s\u00e3o os verdadeiros her\u00f3is do nosso tempo. Revista Regional conversou com tr\u00eas profissionais que est\u00e3o diariamente no combate \u00e0 covid-19, vivenciado de perto a comovente situa\u00e7\u00e3o de pacientes e equipes de Sa\u00fade em hospitais de Indaiatuba, Campinas e S\u00e3o Paulo.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEstou cansado de dizer aos pacientes que n\u00e3o podemos test\u00e1-los. Que eles ter\u00e3o de conviver com o medo e a inseguran\u00e7a por mais duas semanas at\u00e9 os sintomas cessarem, sendo bombardeados todos os dias com not\u00edcias de mortes e sequelas, sempre se perguntando \u2018eu sou o pr\u00f3ximo?\u2019\u201d. Esse desabafo foi postado nas redes sociais pelo m\u00e9dico de emerg\u00eancia Adriano Vendimiatti, que atende em hospitais de Indaiatuba e Campinas, convivendo diariamente com v\u00edtimas da covid-19. A postagem foi feita no \u00faltimo dia 28 de abril e comoveu milhares de internautas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O texto do m\u00e9dico, que foi compartilhado por milhares de pessoas da regi\u00e3o, \u00e9 um desabafo sobre o cansa\u00e7o que enfrenta diariamente na chamada linha de frente dos hospitais. Ele escreveu na noite do dia 28 de abril, ap\u00f3s sair de um dia exaustivo de atendimento no Hospital M\u00e1rio Gatti, em Campinas, a caminho do Haoc (Hospital Augusto de Oliveira Camargo), em Indaiatuba, onde tamb\u00e9m atende na emerg\u00eancia casos de covid-19.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cHoje eu estou cansado. Atendi no setor pr\u00f3prio para gripe\/covid o dia todo. Devo ter mandado para casa pelo menos 20 pacientes que, com certeza, est\u00e3o com coronav\u00edrus, cinco deles colegas da Sa\u00fade. O servi\u00e7o n\u00e3o \u00e9 pesado, mas estou mo\u00eddo, com dores nas costas que n\u00e3o passam. Sabe por que? Estou cansado de dizer aos pacientes que n\u00e3o podemos test\u00e1-los. Que eles ter\u00e3o de conviver com o medo e a inseguran\u00e7a por mais duas semanas at\u00e9 os sintomas cessarem, sendo bombardeados todos os dias com not\u00edcias de mortes e sequelas, sempre se perguntando \u2018eu sou o pr\u00f3ximo?\u2019. Cansado de n\u00e3o ter o que prescrever, de ter de responder perguntas e mais perguntas sobre cloroquina, annita e anticoagulantes, perguntas essas que nem eu nem ningu\u00e9m tem a resposta ainda. E para cada paciente que eu prescrevo algo sempre fica o medo ou o remorso de n\u00e3o saber se pequei por excesso ou por falta.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E continua: \u201cCansado de ver os n\u00fameros aumentarem. De a cada dia mais e mais leitos \u2018normais\u2019 serem convertidos em leitos covid, sabendo que um dia n\u00e3o vai ter onde colocar esses pacientes. Cansado da descren\u00e7a de pacientes e colegas, que ainda hoje dizem que exageramos nas medidas, que a m\u00eddia aumenta, que governador infla estat\u00edstica para derrubar o presidente, que est\u00e3o falsificando atestado de \u00f3bito, que no final n\u00e3o vai ser t\u00e3o ruim assim.\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cE cansado de dizer que se tiv\u00e9ssemos em dias \u2018normais\u2019 a sa\u00fade j\u00e1 teria colapsado. Cansado de combater fake news, aqui (no Facebook), nos grupos de WhatsApp, nas conversas, at\u00e9 mesmo nas consultas, repetindo inutilmente o mantra \u2018pesquise antes de postar\u2019. Cansado de ter de me paramentar inteiro como se fosse para guerra (na verdade, estou indo) tendo que passar sede ou segurar para ir no banheiro porque quando tiramos o EPI \u00e9 que corremos o maior risco de se contaminar. Cansado tamb\u00e9m de n\u00e3o saber at\u00e9 quando vamos ter os EPIs. E, por \u00faltimo, cansado de n\u00e3o saber quando eu vou pegar (porque eu vou) nem de como vai ser, se vai ser grave, se vou ser entubado, se vou sobreviver. Pior do que tudo, se vou passar isso para a minha fam\u00edlia, que eu tanto amo.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desde que fez o desabafo e o alerta nas redes sociais, Adriano j\u00e1 foi chamado para diversas lives e entrevistas explicando a verdadeira situa\u00e7\u00e3o da pandemia na regi\u00e3o. Ele foi, inclusive, entrevistado pelo site e aplicativo da Revista Regional em 1\u00ba de maio (mat\u00e9ria que pode ser conferida nessas plataformas digitais da revista). Passado um m\u00eas, nossa reportagem voltou a falar com o m\u00e9dico emergencista. Segundo ele, desde abril, a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 piorou, com o avan\u00e7o da covid-19 na regi\u00e3o durante o m\u00eas de maio, quando a curva de casos come\u00e7ou a subir. \u201cA pandemia est\u00e1 t\u00e3o avan\u00e7ada (entrevista concedida em meados de maio) que praticamente todo mundo tem algum amigo de rede social j\u00e1 com uma hist\u00f3ria para contar, mesmo que seja \u2018tive diarr\u00e9ia por tr\u00eas dias\u2019. Mas, principalmente, procure aqueles que foram internados e viveram a realidade da doen\u00e7a e dos hospitais ou de quem perdeu algu\u00e9m para a covid. Conversem com elas, ou\u00e7am suas vozes, dialoguem de cora\u00e7\u00e3o para cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o deixe sua opini\u00e3o ser formada por quem est\u00e1 longe de voc\u00ea, da sua realidade, e quando a tempestade chegar n\u00e3o estar\u00e1 no mesmo barco. Se voc\u00ea desconfia da m\u00eddia tradicional, da Globo, dos especialistas, da ci\u00eancia como um todo, acredite ent\u00e3o no relato de quem j\u00e1 sofreu com as garras da doen\u00e7a na pr\u00f3pria carne\u201d, aconselha Adriano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre milhares de hist\u00f3rias j\u00e1 vivenciadas em quase tr\u00eas meses de pandemia, o m\u00e9dico conta que a mais comovente foi a do Seu Manoel e da Dona Jadilce, que relatou, inclusive em suas redes sociais. \u201cSeu Manoel foi ao posto com sintomas da covid. Cabisbaixo, abatido, com o olhar de quem a dor n\u00e3o \u00e9 do corpo. \u2018\u00c9 que a esposa est\u00e1 na UTI\u2019, disse a atendente. \u2018Ela foi entubada.\u2019 Eu me aproximei com um sorriso, tentando parecer amig\u00e1vel na roupa de astronauta, e a enfermeira que o atendia arregalou os olhos: \u2018Doutor, ele est\u00e1 saturando 85%!\u2019 A satura\u00e7\u00e3o \u00e9 a oxigena\u00e7\u00e3o do sangue. Qualquer coisa abaixo de 90 \u00e9 grave. Mas o Seu Manoel respirava normalmente. Mais uma armadilha da covid: ela ataca o sistema auton\u00f4mico, diminuindo nossa capacidade de sentir falta de ar. Por isso, os pacientes pioram t\u00e3o r\u00e1pido. Avisei-o de que teria de ir ao pronto socorro. Trocamos uma d\u00fazia de palavras, a maioria sobre sintomas. Ele s\u00f3 fez uma pergunta: \u2018Eu vou para onde minha mulher est\u00e1?\u2019. Naquele mesmo dia, atendi um outro casal, que chamarei de casal A., pessoas simples, com dificuldade de entender a doen\u00e7a. A maior queixa era diarr\u00e9ia. Eles pararam de tomar os antibi\u00f3ticos por causa dela. \u2018A diarr\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 por causa do rem\u00e9dio, senhor, \u00e9 da doen\u00e7a mesmo\u2019, tentei explicar. Estavam bem naquele dia. Sa\u00edram de m\u00e3os dadas, e eu pensei \u2018um casal que a covid n\u00e3o separou.\u2019 Dois dias depois, o senhor A. voltou, de bicicleta. Saiu de l\u00e1 numa ambul\u00e2ncia \u2018Arruinei, doutor. A diarr\u00e9ia n\u00e3o passa.\u2019 Estava com a satura\u00e7\u00e3o baixa e cansado. Seu RX era horr\u00edvel, coisa rara na covid. A tomografia v\u00ea melhor as les\u00f5es da doen\u00e7a, o chamado \u2018vidro fosco\u2019, mas a maioria das cidades do Brasil n\u00e3o tem acesso a ela. Tivemos de intern\u00e1-lo. Ele tamb\u00e9m s\u00f3 pensava na esposa, presa em casa com mais cinco familiares rec\u00e9m chegados da Bahia. O isolamento \u00e9 fundamental, mas sem orienta\u00e7\u00e3o uma pessoa infecta outras tr\u00eas. Onde falta espa\u00e7o e recurso tem de sobrar m\u00e1scara e informa\u00e7\u00e3o. Liguei no hospital para transferir o senhor A. e recebi a informa\u00e7\u00e3o: \u2018Espera um pouco!\u2019, disse a m\u00e9dica na emerg\u00eancia. \u2018Estou entubando um paciente.\u2019 \u2018Quem?\u2019, perguntei. \u2018O Seu Manoel (marido da Dona Jadilce que j\u00e1 estava na UTI). Ele piorou demais.\u2019 Desliguei, com um sorriso amargo no rosto. Imaginei as \u00faltimas palavras do Seu Manoel ao ser entubado: \u2018Eu vou para onde minha mulher est\u00e1?\u2019. Na sa\u00fade e na doen\u00e7a. At\u00e9 a que a morte os separe. Ou os una. A covid n\u00e3o \u00e9 mais forte que o amor\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Questionado sobre quais hist\u00f3rias contar\u00e1 futuramente aos filhos e netos, Adriano diz que absolutamente todas. \u201cDas perdas, da dor da separa\u00e7\u00e3o, do desespero de pacientes ao sentirem falta de ar, dos profissionais de Sa\u00fade de verem pessoas morrerem sem ter o que fazer, das ruas vazias e lojas fechadas, e das ruas cheias e lojas abertas antes da hora. E de esperan\u00e7a tamb\u00e9m, de quem se levantou e fez tudo o que podia e bem mais do que devia. As hist\u00f3rias de quem fez certo, de quem fez errado, de quem fez o que dava para fazer. Quero juntar todas elas e n\u00e3o deixar nenhuma morrer. Acho que \u00e9 nossa miss\u00e3o mostrar \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras o que foi esse momento de verdade, antes que o deturpem, omitam ou romanceiem\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Adriano \u00e9 casado e pai de dois filhos. Assim como todos os profissionais de Sa\u00fade que est\u00e3o na linha de frente, sua rotina tamb\u00e9m mudou drasticamente. \u201c\u00c9 casa\/trabalho e trabalho\/casa. Nada de academia, nada de sair, nada de nada. Sapatos eu tiro na porta de casa e fico pelado ainda no corredor. \u00c9 roupa para a m\u00e1quina e corro para o banho. M\u00e1scara fora de casa \u00e9 o tempo todo. S\u00f3 tiro para comer e, geralmente, me sento longe de todos. Isso foi algo que mudou: ficamos mais \u2018frios\u2019. Italianos, como eu, s\u00f3 sabem dizer bom dia abra\u00e7ando e beijando, e agora \u00e9 s\u00f3 um t\u00edmido aceno de m\u00e3o. N\u00e3o sinto falta de bar, de cinema, nem de shopping, mas sinto falta dos abra\u00e7os. Principalmente da minha filha: ela sempre corria para os meus bra\u00e7os quando eu chegava em casa. Agora ela aprendeu que n\u00e3o pode mais. D\u00f3i.\u201d A maior li\u00e7\u00e3o que tira de toda a pandemia? \u201cNingu\u00e9m sai igual de uma crise. Ou voc\u00ea sai melhor ou pior. Cabe a cada um de n\u00f3s escolher\u201d, sentencia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_22599\" aria-describedby=\"caption-attachment-22599\" style=\"width: 183px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-22599\" src=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/2-1-770x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"183\" height=\"243\" data-id=\"22599\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/2-1.jpeg 770w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/2-1-226x300.jpeg 226w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/2-1-113x150.jpeg 113w\" sizes=\"(max-width: 183px) 100vw, 183px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-22599\" class=\"wp-caption-text\">Thatiana Guerrieri, de Salto, \u00e9 especialista em Cirurgia Geral e Cirurgia de Cabe\u00e7a e Pesco\u00e7o, e est\u00e1 atuando nos hospitais de campanha em S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n<p>NO HOSPITAL DE CAMPANHA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Thatiana Guerrieri \u00e9 de Salto, atua em hospitais de S\u00e3o Paulo, na Unimed Salto\/Itu e na Neo Onco Especialidades, em Itu, mas nos \u00faltimos meses \u00e9 uma das milhares de profissionais que convivem diariamente com os dramas da covid-19 num hospital de campanha na capital paulista, epicentro da pandemia no Brasil. A escolha de ir para a \u201cguerra\u201d foi da pr\u00f3pria m\u00e9dica: \u201cQuero poder ajudar o outro com o conhecimento e amor que me foi dado\u201d, justifica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desde que chegou \u00e0 frente, na luta contra o v\u00edrus, sua rotina mudou drasticamente, tendo de conviver diariamente com os dramas e as hist\u00f3rias comoventes que uma pandemia produz. \u201cS\u00e3o in\u00fameras hist\u00f3rias e certamente as mais tocantes s\u00e3o as de pacientes internados, que perderam entes queridos. Alguns perderam esposas, filhos, irm\u00e3os e permanecem no hospital longe dos demais membros da fam\u00edlia, solit\u00e1rios. Esta n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma doen\u00e7a do corpo, mas tamb\u00e9m uma doen\u00e7a da solid\u00e3o\u201d, relata.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os profissionais de Sa\u00fade t\u00eam de conviver com o medo de tamb\u00e9m serem contaminados pelo v\u00edrus. \u201cEu n\u00e3o fui infectada, mas o risco \u00e9 di\u00e1rio e, apesar de todos os equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual dispon\u00edveis, n\u00e3o estamos 100% seguros. Isto gera um estresse emocional porque h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o com a infec\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pelo motivo do adoecimento, mas sim para n\u00e3o transmitir para as outras pessoas, principalmente para nossa fam\u00edlia\u201d, explica Thatiana, lembrando que tem muitos colegas que j\u00e1 foram contaminados, \u201cdesde casos leves at\u00e9 graves com necessidade de UTI\u201d. \u201cO medo existe, mas tenho certeza de que h\u00e1 um Deus que cuida de n\u00f3s\u201d, acredita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim como dr. Adriano e os demais profissionais de Sa\u00fade, os dias se tornaram diferentes para a m\u00e9dica saltense, principalmente no retorno do hospital para sua casa. \u201cAp\u00f3s cada turno, h\u00e1 uma \u00e1rea do carro reservada para guardar a m\u00e1scara, \u00e1lcool l\u00edquido e em gel para higienizar a bolsa pl\u00e1stica e cal\u00e7ados, que permanecem no carro. No apartamento, h\u00e1 uma \u00e1rea dita \u2018suja\u2019, na qual toda roupa que foi exposta \u00e9 reservada para ent\u00e3o tomar banho, antes mesmo de cumprimentar as pessoas da casa. Quando vou para o Interior, costumava almo\u00e7ar sempre com meus pais, mas agora o almo\u00e7o \u00e9 em uma mesa na garagem, sozinha, e eles me observando da porta de entrada. Temos o poder de adapta\u00e7\u00e3o e esta \u00e9 mais uma fase da nossa exist\u00eancia que passaremos\u201d, pontua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre os conselhos e orienta\u00e7\u00f5es que d\u00e1 \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, a m\u00e9dica saltense destaca a import\u00e2ncia de as pessoas n\u00e3o negarem a crise: \u201cO v\u00edrus \u00e9 real e exp\u00f5e um sistema de sa\u00fade que j\u00e1 era saturado antes da pandemia. A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que doen\u00e7as continuam a existir, por\u00e9m, quando somadas a alta transmissibilidade do v\u00edrus e interna\u00e7\u00e3o prolongada destes doentes o cen\u00e1rio fica obscuro. N\u00e3o sabemos se manteremos um ambiente controlado como o atual ou se ir\u00e1 piorar, mas o que podemos fazer \u00e9 juntos adotarmos medidas para diminuir a transmiss\u00e3o. Manter uma boa higiene das m\u00e3os com uso de \u00e1lcool gel ou \u00e1gua e sabonete, utilizar de forma correta a m\u00e1scara, ou seja, sempre proteger nariz e boca, evitar tocar na parte externa da m\u00e1scara e lav\u00e1-la ap\u00f3s cada uso.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar de tanto sofrimento, Thatiana tem esperan\u00e7a e acredita que sairemos melhores disso tudo. Questionada sobre como v\u00ea o futuro e o que contar\u00e1 \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es sobre esse momento em que esteve numa batalha mundial pela vida, ela esperanceia: \u201cContarei que um v\u00edrus invis\u00edvel causou medo e proporcionou um momento de reflex\u00e3o em todos os seres humanos. Tenho certeza de que a humanidade ser\u00e1 diferente ap\u00f3s esta pandemia. Pessoas est\u00e3o aprendendo a viver o momento presente, valorizando pessoas em vez de coisas e sendo mais solid\u00e1rias. Espero que tudo isso se perpetue, para que possamos viver melhor no futuro.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para ela, a maior li\u00e7\u00e3o da pandemia \u00e9 que \u201csomos todos iguais\u201d. \u201cEste v\u00edrus nos mostrou que n\u00e3o importa nossa classe social, etnia ou ra\u00e7a, quando somos acometidos com uma doen\u00e7a potencialmente grave o sofrimento \u00e9 o mesmo. Espero que esta fase nos fortale\u00e7a como indiv\u00edduos e possamos sempre nos lembrar da gratid\u00e3o e do amor ao pr\u00f3ximo\u201d, observa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_22598\" aria-describedby=\"caption-attachment-22598\" style=\"width: 227px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-22598\" src=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/3-691x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"227\" height=\"336\" data-id=\"22598\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/3-691x1024.jpg 691w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/3-202x300.jpg 202w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/3-101x150.jpg 101w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/3.jpg 1960w\" sizes=\"(max-width: 227px) 100vw, 227px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-22598\" class=\"wp-caption-text\">Camila Vitelli Molinari, de Itu, \u00e9 fisioterapeuta cardiopulmonar e atua na UTI da Santa Casa de S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n<p>OS DRAMAS DA UTI<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ituana Camila Vitelli Molinari \u00e9 fisioterapeuta cardiopulmonar, especialista em Pneumologia, Fisioterapia Respirat\u00f3ria e Terapia Intensiva, e vivencia os dramas da pandemia na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) da Santa Casa da maior metr\u00f3pole do pa\u00eds, S\u00e3o Paulo. Camila reside na capital, onde atua como m\u00e9dica, docente e preceptora da p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Santa Casa de S\u00e3o Paulo, mas seus pais continuam morando em Itu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Camila est\u00e1 atuando na linha de frente \u00e0 covid-19 desde a segunda quinzena de mar\u00e7o, ainda no in\u00edcio da pandemia. \u201cEstou na capital, contudo, recebemos pacientes do Interior e de toda a Grande S\u00e3o Paulo\u201d, ressalta. Por\u00e9m, desde 2002, a ituana j\u00e1 trabalha na UTI e na Emerg\u00eancia. \u201cFoi a \u00e1rea que escolhi de cora\u00e7\u00e3o!\u201d, se orgulha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A fisioterapeuta lembra que logo no come\u00e7o n\u00e3o achou que a situa\u00e7\u00e3o da covid-19 pudesse ser \u201ct\u00e3o grave\u201d. \u201cMas desde o final de mar\u00e7o me assusto com a evolu\u00e7\u00e3o de muitos casos. A maioria evolui bem e, apesar de uma gripe forte, n\u00e3o precisa de interna\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, independentemente dos antecedentes m\u00e9dicos e da idade, existe um n\u00famero muito grande de casos que v\u00e3o para a UTI, com necessidade de ventila\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica (respira\u00e7\u00e3o artificial), que evoluem com importante gravidade. A taxa de \u00f3bito \u00e9 alta e, por isso, recomendo o isolamento social, e todos os cuidados excessivos de higiene pessoal, aos pertences e domic\u00edlio. N\u00e3o sabemos quem evoluir\u00e1 mais grave\u201d, alerta a profissional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Camila conta que ainda n\u00e3o fez o teste para o novo coronav\u00edrus, mas tem muitos colegas infectados. \u201cN\u00e3o sei se estou imune porque ainda n\u00e3o fiz o exame de anticorpos, mas n\u00e3o tive sintomas at\u00e9 o momento (a entrevista foi concedida em meados de maio). Tenho muitos colegas infectados e, infelizmente, um grande amigo faleceu. O que n\u00e3o d\u00e1 pra acreditar at\u00e9 o momento. Ainda parece mentira! Todos os dias fico sabendo de algu\u00e9m infectado, mas nem todos do mesmo local de trabalho. Tanto de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas como privadas, de todas as classes, do funcion\u00e1rio da limpeza ao m\u00e9dico chefe. Sem distin\u00e7\u00e3o!\u201d, observa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em sua casa, como os demais profissionais da \u00e1rea, os cuidados est\u00e3o redobrados. \u201cMeus sapatos nem entram em casa! N\u00e3o tenho contato f\u00edsico com ningu\u00e9m! Minhas roupas s\u00e3o descartadas na lavanderia antes de entrar em casa e j\u00e1 vou direto para o banho. Lavo tudo! Todos os dias! No hospital, uso todos os EPIs e me lavo constantemente! M\u00e1scaras o tempo todo, rua e hospital. Lavo as m\u00e3os toda vez que vou tocar o rosto e, se manipular a m\u00e1scara, tamb\u00e9m! E n\u00e3o divido qualquer pertence pessoal (talheres e copos). Lavo todas as compras e tudo o que entra em casa! Enfim, muitas coisas j\u00e1 eram assim, como a quest\u00e3o de n\u00e3o usar o sapato da rua em casa. Mas tudo muito mais intenso agora!\u201d, explica Camila.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A exemplo dos outros entrevistados, a fisioterapeuta acredita numa mudan\u00e7a positiva na sociedade p\u00f3s-pandemia. O que ela contar\u00e1 \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es? \u201cDevo contar que o mundo passou por uma transforma\u00e7\u00e3o depois de uma pandemia grave e que esta mudou muitos h\u00e1bitos de vida e sociais. Acredito que o mundo mudar\u00e1 suas prioridades e as pessoas entender\u00e3o que sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a s\u00e3o a real prioridade. Que um abra\u00e7o e estar com quem amamos vale mais que tudo!\u201d. Camila, por sinal, n\u00e3o v\u00ea a hora de poder abra\u00e7ar os pais que est\u00e3o em Itu: \u201cQuero, finalmente, abra\u00e7ar meus pais depois que isso passar! Desde 14 de mar\u00e7o isso n\u00e3o acontece!\u201d.<\/p>\n<p>Questionada sobre os momentos mais marcantes que t\u00eam vivenciado na UTI, ela \u00e9 objetiva: \u201cO que mais me impressiona s\u00e3o os pacientes que recebem alta, e o olhar de agradecimento de cada um deles. \u00c9 algo que n\u00e3o tem pre\u00e7o!\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>reportagem de Renato Lima<\/em><\/p>\n<p><em>fotos: Arquivos pessoais<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eles s\u00e3o os verdadeiros her\u00f3is do nosso tempo. Revista Regional conversou com tr\u00eas profissionais que est\u00e3o diariamente no combate \u00e0 covid-19, vivenciado de perto a comovente situa\u00e7\u00e3o de pacientes e equipes de Sa\u00fade em hospitais de Indaiatuba, Campinas e S\u00e3o Paulo. &nbsp; \u201cEstou cansado de dizer aos pacientes que n\u00e3o podemos test\u00e1-los. 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