{"id":20351,"date":"2019-10-15T13:56:51","date_gmt":"2019-10-15T13:56:51","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=20351"},"modified":"2024-01-26T11:38:27","modified_gmt":"2024-01-26T14:38:27","slug":"professor-cesar-nunes-e-a-escola-acolhedora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2019\/10\/15\/professor-cesar-nunes-e-a-escola-acolhedora\/","title":{"rendered":"Professor C\u00e9sar Nunes e a escola acolhedora"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_20352\" aria-describedby=\"caption-attachment-20352\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20352 \" src=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_4557-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"410\" height=\"273\" data-id=\"20352\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_4557-300x200.jpg 300w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_4557-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_4557-150x100.jpg 150w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_4557-272x182.jpg 272w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_4557.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 410px) 100vw, 410px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-20352\" class=\"wp-caption-text\">C\u00e9sar Nunes, mestre em Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Mestre em Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o fala com exclusividade \u00e0 Revista Regional: \u201cA palavra humaniza\u00e7\u00e3o tem sido usada na educa\u00e7\u00e3o com muita frequ\u00eancia, como um conceito de fazer com que o processo educacional seja mais leve, acolhedor, carregado de dispositivo que n\u00f3s caracterizamos como humanos\u201d<\/p>\n<p>Com um extenso e admir\u00e1vel curr\u00edculo, o mestre e doutor C\u00e9sar Nunes \u00e9 titular da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Unicamp, na \u00e1rea de Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o e defende, junto com Miguel Arroyo, Celso Vasconcellos e Rubem Alves, a pedagogia da humaniza\u00e7\u00e3o e o conceito de que escola \u00e9 para acolher. O professor C\u00e9sar recebeu a Revista Regional no pr\u00e9dio Paulo Freire, na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Unicamp, em Campinas, e contou um pouco do processo hist\u00f3rico educacional do Brasil e de como a conjuntura pol\u00edtica impactou diretamente o desenvolvimento da educa\u00e7\u00e3o, transformando a escola autorit\u00e1ria e conservadora.<\/p>\n<p><strong>REVISTA REGIONAL: Qual o conceito de humaniza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>C\u00c9SAR NUNES: A palavra humaniza\u00e7\u00e3o tem sido usada na educa\u00e7\u00e3o com muita frequ\u00eancia, como um conceito de fazer com que o processo educacional seja mais leve, acolhedor, carregado de dispositivo que n\u00f3s caracterizamos como humanos. A ideia de fazer a crian\u00e7a ser sujeito da pr\u00f3pria aprendizagem, de ter paci\u00eancia, de levar em conta o protagonismo socioemocional. De trat\u00e1-la com carinho, disposi\u00e7\u00e3o, estimulando sua curiosidade. Orientando seus atuais erros de forma acolhedora e representativa e menos repressora. Humaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 tratar o ser humano com toda a grandeza e plenitude da dignidade do indiv\u00edduo. Humanizar as rela\u00e7\u00f5es nada mais \u00e9 do que considerar a dignidade humana de cada crian\u00e7a, como primeira causa.<\/p>\n<p><strong>Durante muitos anos o conceito de educa\u00e7\u00e3o foi baseado em formar profissionais conceituados e de sucesso. Atualmente atuar nas compet\u00eancias socioemocionais dos indiv\u00edduos \u00e9 t\u00e3o importante quanto focar apenas na garantia do sucesso profissional. Qual o papel da escola hoje?<\/strong><\/p>\n<p>As escolas s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es da sociedade. Ela reflete o que a sociedade pensa, de maneira mais ou menos densa e integrada. N\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a na escola se n\u00e3o houver na sociedade e vice-versa, porque s\u00e3o duas institui\u00e7\u00f5es integradas organicamente. A sociedade brasileira \u00e9 historicamente marcada por procedimentos pol\u00edticos e econ\u00f4micos muito r\u00edgidos. Tivemos 300 anos de coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, onde a metr\u00f3pole nos via como uma col\u00f4nia de explora\u00e7\u00e3o. Esta for\u00e7a do estado, quase que absolutista, criou uma for\u00e7a pol\u00edtica muito autorit\u00e1ria de uma maneira que parece que tudo tem que ser de cima para baixo, muito hierarquizado e controlado. Quando tivemos a nossa independ\u00eancia, em 1822, continuamos como um imp\u00e9rio. A estrutura de poder no Brasil sempre foi a mais conservadora e a mais autorit\u00e1ria de todas as outras das Am\u00e9ricas, fazendo com que a realeza seja a base do poder pol\u00edtico entre n\u00f3s. Isso fortaleceu uma estrutura autorit\u00e1ria e conservadora, n\u00e3o nos deixando viver uma experi\u00eancia democr\u00e1tica como viveu a Inglaterra e a Fran\u00e7a, pa\u00edses ber\u00e7os do capitalismo. Por outro lado,<\/p>\n<p>nossa economia tamb\u00e9m \u00e9 predat\u00f3ria. De latif\u00fandio, destr\u00f3i a terra, faz pasto, se planta caf\u00e9 e depois cana. M\u00e3o de obra quase que escrava, visando sempre o mercado externo e o lucro. Quero chegar ao seguinte ponto: a economia e a pol\u00edtica constitu\u00edram um perfil autorit\u00e1rio e explorat\u00f3rio, que foi refletido na escola, nunca pensada para todos. Durante quase 300 anos, a escola que os jesu\u00edtas fizeram era para a elite e a catequese para o povo. Em 1822, a escola no imp\u00e9rio brasileiro era para elite no Col\u00e9gio D. Pedro, no Rio de Janeiro. A escola republicana de 1889 tinha Benjamin Constant como grande ide\u00f3logo da Rep\u00fablica. Um general que usou uma frase de Auguste Comte: \u201co amor como princ\u00edpio, a ordem como meio e o progresso como o fim\u201d. Aqui no Brasil tiraram o amor e restou apenas Ordem e Progresso, que \u00e9, outra vez, uma disposi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria de manuten\u00e7\u00e3o do status quo. Temos matrizes pol\u00edticas e econ\u00f4micas que derivam matrizes culturais e escolares, autorit\u00e1rias, hierarquizadas e elitizadas. De 1930 para c\u00e1, tivemos a industrializa\u00e7\u00e3o brasileira. Somos uma economia rica para uma sociedade pobre. Temos um dos maiores \u00edndices de desigualdade social e enquanto isso prevalecer, teremos viol\u00eancia nas ruas, casas e tr\u00e2nsito. Foi em cima dessas matrizes econ\u00f4micas que a escola de Get\u00falio Vargas foi baseada &#8211; foi neste governo que se criou o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e teve como ministro Francisco Campos, que afirmava que a escola precisava ser como uma pir\u00e2mide, com uma base no ch\u00e3o de porta abertas para que todos entrem, mas seja t\u00e3o r\u00edgida que s\u00f3 os mais aptos cheguem ao topo. O Brasil criou uma escola meritocr\u00e1tica, que quer o primeiro, segundo e terceiro lugar e n\u00e3o tem nenhum sentimento de mandar 30 para casa, de reprovar mais da metade. A ideia \u00e9 sempre de escada e n\u00e3o de circularidade. O dia em que uma crian\u00e7a n\u00e3o for aprovada na escola, a sociedade inteira \u00e9 reprovada, porque todo mundo tem que se humanizar. Se educar \u00e9 humanizar. A escola de Get\u00falio vai at\u00e9 1970, totalmente darwinista social e autorit\u00e1ria. Em 1971, a ditadura militar faz uma escola com primeiro e segundo grau \u2013 oito e tr\u00eas anos, respectivamente \u2013 e a faculdade apenas para as classes m\u00e9dias altas. Pela Lei 5692, a ditadura militar tirou o curr\u00edculo da escola e acabou com aulas de latim, franc\u00eas, literatura, entre outras disciplinas. A classe m\u00e9dia sai da escola p\u00fablica e entra na particular para passar no vestibular. A ditadura militar construiu duas escolas: a p\u00fablica assistencialista e social e a particular meritocr\u00e1tica e vestibul\u00f3ide. E sair desta escola o Brasil est\u00e1 tentando at\u00e9 agora.<\/p>\n<p><strong>E agora, o atual governo acaba de apresentar o Programa Nacional de Escolas C\u00edvico-Militares (Pecim), que cria as escolas c\u00edvico-militares &#8211; que s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o militarizadas, inspiradas no modelo das escolas militares e com a participa\u00e7\u00e3o de oficiais da reserva como tutores. Essa nova proposta educacional \u00e9 totalmente contr\u00e1ria ao Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o e \u00e0s novas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) &#8211; que aposta em uma escola mais contempor\u00e2nea e humana. Qual \u00e9 o reflexo direto no ensino nacional?<\/strong><\/p>\n<p>Em 1988, o educador Moacir Gadotti fez um discurso que dizia que \u201ca educa\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 um pacto de mediocridade, onde o professor finge que ensina, o aluno finge que aprende, o estado finge que paga e a sociedade finge que tem escola\u201d. Quem destruiu a escola brasileira e tirou dela a qualidade de autoridade que ela tinha foi a reforma militar de 1971 e n\u00e3o o Paulo Freire. Quem fez a reforma tr\u00e1gica da educa\u00e7\u00e3o brasileira foi a Lei 5692. Depois de 1988 tivemos dois caminhos: a do governo do soci\u00f3logo e professor Fernando Henrique Cardoso que fez a reforma de 1996, com a Lei de Diretrizes e Bases, que at\u00e9 hoje vigorosa. Na \u00e9poca, o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o era o Paulo Renato Souza (atual reitor da Unicamp), um economista, que achava que a educa\u00e7\u00e3o brasileira tinha que se igualar \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do primeiro mundo, com medidas avan\u00e7adas. Ele tinha uma vis\u00e3o um pouco neoliberal, ent\u00e3o se exemplou nas reformas educacionais espanholas e teve a ideia das compet\u00eancias e habilidades. Mesmo tendo a iniciativa, a reforma do governo FHC ainda ficou muito avaliativista. J\u00e1 com os governos do<\/p>\n<p>Lula (Luiz In\u00e1cio Lula da Silva) e da Dilma (Rousseff), tivemos um segundo caminho: as ideias do direito de estar na escola e do direito de aprender na escola. Com Fernando Haddad como Ministro da Educa\u00e7\u00e3o abrem-se espa\u00e7os para os movimentos sociais, temos nove anos de educa\u00e7\u00e3o fundamental e n\u00e3o mais oito, ampliamos a escolaridade que antes era de sete a 17 anos para quatro a 17 anos, com uma emenda na Constitui\u00e7\u00e3o. Hoje, se uma crian\u00e7a dentro desta faixa et\u00e1ria estiver fora da escola est\u00e1 contra a lei. Temos uma s\u00e9rie de medidas feita por um governo democr\u00e1tico, na dire\u00e7\u00e3o de fazer o direito de estar na escola. O FHC j\u00e1 tinha falado de compet\u00eancias socioemocionais, que volta em destaque no governo Dilma, junto com repara\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica de cotas, prote\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher, direto \u00e0 liberdade do nome social, direito \u00e0 igualdade de g\u00eanero. Essas duas propostas avan\u00e7aram at\u00e9 certo ponto, mas tamb\u00e9m estacionaram. O Brasil teve um per\u00edodo, que nem as compet\u00eancias e habilidades tinham hegemonia, nem o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e estar na escola. No governo da Dilma isso chegou, por meio do Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (PNE), Lei 13005\/2014 &#8211; que demorou quatro anos para ser aprovado &#8211; do tanto que era contradit\u00f3ria. Ap\u00f3s o impeachment, o (Michel) Temer assume e se cessam as duas ideologias: a das compet\u00eancias e habilidades e do direito de estar na escola. A BNCC tem tr\u00eas vers\u00f5es, duas feitas no governo Dilma e a terceira no governo Temer, que cessa toda a parte do direito de estar na escola, congela os recursos por 20 anos, volta-se a falar de compet\u00eancias essenciais, travando a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O senhor est\u00e1 afirmando que a conjuntura pol\u00edtica influenciou a educa\u00e7\u00e3o brasileira?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. A conjuntura pol\u00edtica travou a conjuntura educacional. A BNCC tem tr\u00eas vers\u00f5es, sendo que a educa\u00e7\u00e3o infantil \u00e9 de uma vers\u00e3o do direito de estar na escola e o ensino fundamental de compet\u00eancias e habilidades, de avalia\u00e7\u00e3o e preparar as pessoas para o mercado de trabalho, que \u00e9 uma vis\u00e3o mais conservadora. Nossa BNCC \u00e9 mutilada, e abrange apenas a educa\u00e7\u00e3o infantil e o ensino fundamental, afinal o ensino m\u00e9dio ficou de fora na Reforma da Educa\u00e7\u00e3o do governo Temer. Foi um desastre as interven\u00e7\u00f5es do Estado de 2016 a 2018. H\u00e1 poucos dias, o governo atual fez a Pol\u00edtica Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o (PNA), que determina a alfabetiza\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as para o primeiro ano do ensino fundamental. O ideal era fazer uma jun\u00e7\u00e3o das propostas educacionais do FHC e dos governos do PT. Com a elei\u00e7\u00e3o do (Jair) Bolsonaro &#8211; e at\u00e9 agora os dois ministros que se apresentaram &#8211; voltamos \u00e0 escola da ditadura militar. Escola n\u00e3o anda para tr\u00e1s, n\u00e3o tem que ter organiza\u00e7\u00e3o militar, que \u00e9 um tipo pr\u00f3prio de quartel. A crian\u00e7a n\u00e3o precisa da disciplina militar, ela precisa de uma disciplina \u00e9tica, amorosa, est\u00e9tica, de dentro para fora e com autoridade afetiva. As escolas militares sup\u00f5em \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as pobres e s\u00e3o inseridas em bairros mais carentes. N\u00e3o tem escola militar para classe m\u00e9dia, m\u00e9dia alta, que t\u00eam os mesmos problemas de disciplina que a sociedade brasileira. A ideia de escola militar \u00e9 um atraso, \u00e9 um anacronismo que o Brasil j\u00e1 teve e voltou atr\u00e1s. \u00c9 uma tentativa para uma sociedade conservadora, que n\u00e3o tem uma vis\u00e3o cient\u00edfica de educa\u00e7\u00e3o e de escola, como uma medida paliativa e repressiva. Escola n\u00e3o pode ser quartel. Escola tem que ser um lugar de conviv\u00eancia, respeito e dignidade entre professores, gestores, alunos e fam\u00edlia, a partir do convencimento e n\u00e3o da hierarquia, do controle e da obedi\u00eancia, que no sentido atual n\u00e3o \u00e9 uma virtude democr\u00e1tica, afinal vem de cima para baixo. A melhor virtude hoje \u00e9 o respeito, que vem de dentro. Toda pessoa que mostrar respeito \u00e0s crian\u00e7as ser\u00e1 escutada e atendida. Temos 48 milh\u00f5es de crian\u00e7as na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica brasileira. O maior programa de inclus\u00e3o do mundo \u00e9 a escola p\u00fablica. A escola brasileira funciona corretamente, mas \u00e9 muito pobre &#8211; 37% n\u00e3o tem estrutura material e a base salarial de um professor \u00e9 de R$ 2.048. Diariamente s\u00e3o 3 milh\u00f5es de professores que<\/p>\n<p>mant\u00eam o ambiente escolar. O Brasil ainda n\u00e3o explodiu porque a escola brasileira, longe do que dizem as m\u00e1s l\u00ednguas, \u00e9 boa e acolhedora.<\/p>\n<p><strong>Essa desmotiva\u00e7\u00e3o dos professores muitas vezes impacta os alunos, que automaticamente reflete no profissional de amanh\u00e3. Podemos dizer que \u00e9 um dos grandes desafios de uma escola mais humana? Quais s\u00e3o os principais desafios para a forma\u00e7\u00e3o de um adulto mais humanizado?<\/strong><\/p>\n<p>Os fatores s\u00e3o todos articulados. T\u00ednhamos a possibilidade de juntar duas propostas educacionais progressistas, de dois governos diferentes e o que est\u00e1 sendo feito? Voltando \u00e0 escola de 1971 com pr\u00e1ticas militares, uma escola que brigamos 30 anos para sair dela. Demos dois passos para tr\u00e1s. Infelizmente, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a primeira a ser atacada quando os conservadores tomam o poder. Se o Brasil n\u00e3o fizer uma reforma, estancar a bobagem que foi feita e retomar o caminho de uma pol\u00edtica p\u00fablica em educa\u00e7\u00e3o progressista e dial\u00f3gica, n\u00f3s vamos cada vez mais ficar atr\u00e1s de pa\u00edses que t\u00eam uma economia muito menor do que a nossa. Sempre refor\u00e7o nas minhas palestras que tirar 25 milh\u00f5es da mis\u00e9ria material \u00e9 muito bonito, mas sem tirar da mis\u00e9ria cultural e escolar n\u00e3o adianta nada. Ele come, mas volta a perder a comida. Ele volta a perder. Ele mesmo vota nas pessoas que o trucidam. Sem uma reforma educacional e cultural, o Brasil vai fazer programas de assist\u00eancia social, mas na primeira crise sem discernimento, dar\u00e1 passos para tr\u00e1s. Precisamos tirar as pessoas da mis\u00e9ria cultural educacional escolar e isso \u00e9 projeto de 30, 40 ou mais anos. A Inglaterra levou 80 anos para erradicar o analfabetismo, a Fran\u00e7a 100 anos e o Brasil n\u00e3o consegue fazer desde 1822. Temos uma escola extremamente pobre sendo que ela precisa ser qualificada. O professor tem uma luta eterna por reivindica\u00e7\u00e3o salarial. \u00c9 importante lembrar que o nosso piso salarial \u00e9 uma conquista de 2008 e at\u00e9 ent\u00e3o o Brasil n\u00e3o tinha um m\u00ednimo para professores, fazendo com que os munic\u00edpios pagassem menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo para n\u00f3s, se quisessem. Para que a gente consiga ver uma escola melhor, precisamos primeiramente superar as contradi\u00e7\u00f5es do atual modelo de gest\u00e3o. Precisamos avan\u00e7ar na educa\u00e7\u00e3o e o primeiro passo pode ser cumprir o PNE, que tem vig\u00eancia por dez anos e vai at\u00e9 2024. Ele \u00e9 mais do que o per\u00edodo do atual governo e est\u00e1 na prateleira da hist\u00f3ria, ningu\u00e9m v\u00ea. Temos que avan\u00e7ar na BNCC, que apesar de ser contradit\u00f3ria, tem compet\u00eancias socioemocionais e refer\u00eancias para o protagonismo do professor, e est\u00e1 muito mais avan\u00e7ada do que tudo que o Brasil tinha na ditadura militar. N\u00e3o basta apenas motivar o professor. De nada vai adiantar ele chegar para trabalhar se sentindo o melhor do mundo e poderoso, se n\u00e3o h\u00e1 estrutura, se a escola estiver quebrada e sem condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e humanas. Quem est\u00e1 desmotivado hoje n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 professor e sim toda a sociedade brasileira. Existe sim um grau de amargura maior no professor devido ao discurso recente, que os culpou por todo o fracasso da sociedade e da escola. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que a \u00fanica forma de o Brasil sair da mis\u00e9ria cultural \u00e9 por meio da educa\u00e7\u00e3o. Estamos em 2019, o pen\u00faltimo ano da segunda d\u00e9cada do terceiro mil\u00eanio. N\u00e3o foi uma d\u00e9cada perdida na educa\u00e7\u00e3o. Houve muito debate PNE, diretrizes curriculares, piso nacional. Estamos em uma fase que est\u00e1 travada, mas precisamos encontrar um meio hist\u00f3rico democr\u00e1tico de retomar a caminhada. O pr\u00f3ximo governante que tivermos tem que superar o retorno da educa\u00e7\u00e3o militar e retomar as compet\u00eancias socioemocionais e o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Depois disso, talvez mais uns dez ou 20 anos, andando para frente, n\u00f3s consigamos produzir socialmente uma crian\u00e7a esclarecida, amorosa, preparada para o mercado de trabalho como consequ\u00eancia de ter cultura e vocabul\u00e1rio. S\u00f3 a escola vai nos tirar da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p><strong>As escolas no Brasil s\u00e3o diversas e m\u00faltiplas, com v\u00e1rias propostas pedag\u00f3gicas, principalmente na faixa da primeira inf\u00e2ncia e educa\u00e7\u00e3o infantil e est\u00e3o cada vez mais preocupadas em passar uma educa\u00e7\u00e3o mais humanizada \u00e0s crian\u00e7as, com a metodologia do brincar e acolhimento. Acontece que quando as crian\u00e7as finalizam esta fase e v\u00e3o para o ensino fundamental tudo muda e volta em cena o modelo conservador de escola, com foco no passar no vestibular. Como garantir uma transi\u00e7\u00e3o da escola do brincar humanizado para a escola mais tradicional?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 no Brasil uma rede \u00fanica. Hoje existem 350 mil escolas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica no Brasil, das quais 10% apenas s\u00e3o particulares. Na particular existe desde rede religiosa que come\u00e7a no ensino infantil e vai at\u00e9 o ensino m\u00e9dio, rede alternativa como a Waldorf e escolas que aprenderam em cima da lei de novas diretrizes humanizadas. A educa\u00e7\u00e3o infantil \u00e9 direito da crian\u00e7a de 2008 para c\u00e1, mas de cada quatro crian\u00e7as de zero a tr\u00eas anos, uma est\u00e1 na escola e o restante n\u00e3o. A ideia de humanizar a educa\u00e7\u00e3o infantil \u00e9 recente. Sou professor em uma universidade em que o futuro pedagogo estuda por quatro anos em per\u00edodo integral. Na Unicamp, ele aprende a contar hist\u00f3ria, t\u00e9cnica circense, hist\u00f3ria ind\u00edgena e tantos outros conceitos e m\u00e9todos n\u00e3o conservadores. A forma\u00e7\u00e3o dos professores \u00e9 um componente desafiador. N\u00e3o posso concordar que a escola brasileira n\u00e3o est\u00e1 preparada para um conceito mais humanizado. Hoje, ela est\u00e1 abalada por uma conjuntura pol\u00edtica. Sou hoje um representante da pedagogia da humaniza\u00e7\u00e3o junto com Miguel Arroyo, Celso Vasconcellos, Rubem Alves, que falam que a escola tem que acolher. A escola acolhedora. A sociologia nos ajuda a dizer que a causa de maior sucesso das crian\u00e7as na escola, na Europa, \u00e9 a escolaridade dos pais e aqui no Brasil \u00e9 o ambiente de acolhimento da escola.<\/p>\n<p><strong>A crian\u00e7a tem que gostar da escola para ter sucesso no aprendizado?<\/strong><\/p>\n<p>Crian\u00e7a que \u00e9 acolhida na escola \u00e9 crian\u00e7a que gosta da escola. Ela n\u00e3o liga para o pr\u00e9dio, estrutura, mas o que ela gosta \u00e9 das rela\u00e7\u00f5es humanas: a professora que chama pelo nome, o porteiro que pergunta se o time dela ganhou. A escola tem que ter um choque de humaniza\u00e7\u00e3o e na escola brasileira isto tem que acontecer por meio da forma\u00e7\u00e3o dos professores. Os outros elementos v\u00e3o ser alterados pelas pol\u00edticas p\u00fablicas, mas o que faz algu\u00e9m cuidar da crian\u00e7a \u00e9 o processo informativo humanizador. Quando a crian\u00e7a estiver em uma escola com um gestor humanizado, esclarecido e professores motivados, far\u00e1 diferen\u00e7a na vida dela. Temos que perder aquele pensamento que escola tem que preparar para o vestibular. Escola prepara para a autoestima, para o trava-l\u00edngua, para conceitua\u00e7\u00e3o, para gostar dos outros, para a massinha, para pedir desculpas. Depois que ela brincar com a palavra, vai brincar com os conceitos, e depois disso, se ainda existir vestibular, vai passar em todos, porque passou em outros anteriores: autoestima, humaniza\u00e7\u00e3o e acolhimento. Temos que desacreditar das escolas conservadoras. O momento agora \u00e9 o protagonismo da crian\u00e7a. Est\u00e1 no Plano Nacional, est\u00e1 na BNCC: aprender a ser, a conviver, a fazer os pilares da educa\u00e7\u00e3o. O processo de transforma\u00e7\u00e3o da escola por dentro \u00e9 o de forma\u00e7\u00e3o do professor, que est\u00e1 parado no governo atual, mas n\u00e3o est\u00e1 parado na sociedade civil. Universidades como Unicamp, Unesp, USP, Metodista e tantas outras est\u00e3o formando educadores da pedagogia da humaniza\u00e7\u00e3o. O processo de forma\u00e7\u00e3o faz com que as escolas de educa\u00e7\u00e3o infantil n\u00e3o tradicionais sejam a escola hegem\u00f4nica, porque \u00e9 exig\u00eancia das fam\u00edlias esclarecidas e dos professores em forma\u00e7\u00e3o e bem informados. A escola conservadora e autorit\u00e1ria cada dia mais perde lugar. Muitos fizeram da escola uma mercantiliza\u00e7\u00e3o para contemplar a consci\u00eancia dos pais meritocr\u00e1ticos que acham que seus filhos t\u00eam que passar<\/p>\n<p>em um vestibular. Filho tem que passar no vestibular da \u00e9tica, da autoestima, da felicidade, do abra\u00e7o, do acolhimento, do aprender com paci\u00eancia a tomar \u00e1gua e comer fruta. Isso \u00e9 na escola. Isso \u00e9 humaniza\u00e7\u00e3o. O dia em que ele passar por isso, pode at\u00e9 ir para uma escola autorit\u00e1ria, mas ele continuar\u00e1 fazendo exatamente o que ele aprendeu na primeira inf\u00e2ncia. Ele sai da escola, mas a escola n\u00e3o sai dele.<\/p>\n<p><strong>A discuss\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito focada na escola. Cobra-se muito da escola e menos dos pais.<\/strong><\/p>\n<p>A escola p\u00fablica, por raz\u00f5es hist\u00f3ricas, tem em rela\u00e7\u00e3o aos pais um comportamento muito autorit\u00e1rio e os pais, por sua vez, desenvolveram uma rela\u00e7\u00e3o clientelista. Tudo que ela falar, a fam\u00edlia acata. Recentemente come\u00e7ou uma nova atitude, que \u00e9 a patrulhadora, quando assuntos como sexualidade, identidade de g\u00eanero, religi\u00e3o ou qualquer outro tema pol\u00eamico, fazem os pais conservadores irem tirar satisfa\u00e7\u00e3o. A fam\u00edlia terceiriza a educa\u00e7\u00e3o do filho para a escola na educa\u00e7\u00e3o infantil e no ensino fundamental, enquanto no ensino m\u00e9dio a terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 a da cultura. Infelizmente em casa muitos alunos n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 cultura, porque os pais n\u00e3o costumam ler, frequentar teatros e mostras culturais. A estat\u00edstica de leitura do Brasil \u00e9 de 1,8 livro per capita. Como se quer que o estudante seja um leitor voraz se os pais n\u00e3o leem nada, nem jornal? Escola n\u00e3o \u00e9 mercadoria e sim um conv\u00eanio para te ajudar a ensinar o seu filho. Agora a fam\u00edlia que terceiriza para a escola o sucesso escolar sem ter cultura \u00e9 um equ\u00edvoco. N\u00f3s temos que ser para os nossos filhos. O pai tem que ler para a crian\u00e7a desde beb\u00ea, a primeira brincadeira tem que ser a leitura. Hoje os pais est\u00e3o mais focados em levar os filhos para a Disney e n\u00e3o lerem para a crian\u00e7a para dormir. Temos que colocar a leitura como motiva\u00e7\u00e3o de vida. Fiz isso com os meus filhos, que s\u00f3 foram \u00e0 escola, \u00e0 biblioteca e nunca fizeram cursinho, que na minha opini\u00e3o \u00e9 uma serenidade psicol\u00f3gica e n\u00e3o preenche lacunas de leitura. A humaniza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo que envolve escola e fam\u00edlia, ent\u00e3o quando a fam\u00edlia \u00e9 a primeira escola, a escola necessariamente \u00e9 a segunda fam\u00edlia. A fam\u00edlia tem que ser a primeira escola e tem que ter tempo de ir ao teatro, levar no parquinho, brincar, escutar a hist\u00f3ria que o filho contou, ver a massinha que ele fez. \u00c9 isso que vai fazer diferen\u00e7a na vida dele. A curiosidade infantil \u00e9 a capacidade de fazer perguntas. \u00c9 aqui que come\u00e7a. A ci\u00eancia e a humaniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o a resposta que a gente d\u00e1, mas sim a pergunta que a gente faz. A escola humanizadora n\u00e3o \u00e9 um produto. \u00c9 a que ensina para a vida, para o respeito, a toler\u00e2ncia, para a diversidade. Ensina a guardar o seu brinquedo depois de usar, a fazer o seu leitinho e n\u00e3o ser cuidado por uma rede de luxo de bab\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o da tecnologia com a educa\u00e7\u00e3o humanizada? H\u00e1 algum impasse?<\/strong><\/p>\n<p>A humanidade nunca faz perguntas para as quais ela j\u00e1 n\u00e3o tem embrionariamente as respostas. Todas as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas demoram tempos para serem assimiladas coletivamente. N\u00f3s estamos hoje em uma sociedade na qual o impacto da tecnologia \u00e9 muito grande, mas \u00e9 apenas o come\u00e7o. Precisamos criar mecanismos de limites \u00e9ticos, que ainda n\u00e3o temos. Existe um modelo de apropria\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que \u00e9 um modelo capitalista consumista, que \u00e9 voc\u00ea ter um celular de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, descartar o outro e se intoxicar disso. As pessoas compensam as emo\u00e7\u00f5es na internet. N\u00e3o precisamos ter medo das tecnologias. Precisamos ter coragem para criar crit\u00e9rios \u00e9ticos, est\u00e9ticos e pedag\u00f3gicos para as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. O que est\u00e1 faltando \u00e9 educa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. A tecnologia est\u00e1 dispon\u00edvel, mas o crit\u00e9rio do acesso e da quantidade, depende da cria\u00e7\u00e3o. As redes sociais est\u00e3o a\u00ed e as pessoas seguem se exibindo. Podemos dizer que \u00e9 um problema de autoestima e de educa\u00e7\u00e3o afetiva, que ela tem<\/p>\n<p>que se afirmar o tempo todo. Quem produz autoestima? Pai, m\u00e3e, professor e professora. A tecnologia n\u00e3o me assusta e uma escola boa precisa ter educa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Crian\u00e7a tem que ter rede social presencial. A coisa que a crian\u00e7a mais gosta \u00e9 o adulto com autoridade afetiva sobre ele. Elogie, brinque, coloque-a como protagonista que o dia em que voc\u00ea precisar chegar nela e falar algo que n\u00e3o gostou, tenha certeza de que ser\u00e1 muito bem assimilado e aceito por ela, porque foi criada uma admira\u00e7\u00e3o. Plat\u00e3o disse: \u201cningu\u00e9m ama nem respeita quem n\u00e3o admira, ningu\u00e9m admira quem n\u00e3o conhece. Ningu\u00e9m conhece quem n\u00e3o se d\u00e1 conhecer\u201d. O problema do desvario tecnol\u00f3gico \u00e9 a falta de educa\u00e7\u00e3o afetiva, emocional e de humaniza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>(entrevista e texto: Aline Queiroz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mestre em Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o fala com exclusividade \u00e0 Revista Regional: \u201cA palavra humaniza\u00e7\u00e3o tem sido usada na educa\u00e7\u00e3o com muita frequ\u00eancia, como um conceito de fazer com que o processo educacional seja mais leve, acolhedor, carregado de dispositivo que n\u00f3s caracterizamos como humanos\u201d Com um extenso e admir\u00e1vel curr\u00edculo, o mestre e doutor C\u00e9sar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20353,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[534],"class_list":["post-20351","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conversa","tag-conversa"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - 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