{"id":20306,"date":"2019-10-07T17:02:17","date_gmt":"2019-10-07T17:02:17","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=20306"},"modified":"2024-01-26T11:38:28","modified_gmt":"2024-01-26T14:38:28","slug":"nando-bolognesi-uma-potencia-criativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2019\/10\/07\/nando-bolognesi-uma-potencia-criativa\/","title":{"rendered":"Nando Bolognesi: uma pot\u00eancia criativa"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_20308\" aria-describedby=\"caption-attachment-20308\" style=\"width: 222px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20308 size-medium\" src=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/2-222x300.jpg\" alt=\"\" width=\"222\" height=\"300\" data-id=\"20308\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/2-222x300.jpg 222w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/2-758x1024.jpg 758w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/2-111x150.jpg 111w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/2.jpg 1923w\" sizes=\"(max-width: 222px) 100vw, 222px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-20308\" class=\"wp-caption-text\">\u2013 O ituano no personagem de palha\u00e7o num de seus espet\u00e1culos<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para o ator e palha\u00e7o ituano Nando Bolognesi, ao contar hist\u00f3rias, h\u00e1 marcos que norteiam as narrativas. Seu marco atual \u00e9 transformar os limites da esclerose m\u00faltipla em arte e potencializar em cena ainda mais o seu trabalho<\/p>\n<p>Ao ser diagn\u00f3stico com esclerose m\u00faltipla aos 21 anos de idade, em meio a uma viagem de um ano pela Europa, com toda a energia e garra de um ator em aprendizado, Nando Bolognesi n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o do que vinha pela frente.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 30 anos, algumas sequelas, sonhos deixados de lado \u2013 como, por exemplo, jogar futebol e correr 10 km antes do treino de remo \u2013 e bons espet\u00e1culos teatrais concretizados, o ator entende que, apesar da esclerose ser uma doen\u00e7a que o portador jamais sabe exatamente o que vai acontecer, o fez tornar seus limites uma pot\u00eancia criativa e n\u00e3o um obst\u00e1culo.<\/p>\n<p>Neste bate-papo com a Revista Regional, Nando contou um pouco da sua trajet\u00f3ria de ator e do seu processo de acessibilidade criativa, que \u00e9 como consegue transformar os limites em resultados em cena e fazer com que as pessoas vejam seus espet\u00e1culos e gostem, mas al\u00e9m da experi\u00eancia pessoal que narra.<\/p>\n<p><strong>REVISTA REGIONAL: Aos 21 anos, rec\u00e9m-formado, com muitos planos na cabe\u00e7a e um diagn\u00f3stico de esclerose m\u00faltipla. Como isso guiou a sua vida?<\/strong><\/p>\n<p>NANDO BOLOGNESI: Eu simplesmente n\u00e3o entendi muito bem. Hoje quando falamos em esclerose m\u00faltipla, parece que sabemos um pouco mais, que tem mais informa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 30 anos, quando recebi o diagn\u00f3stico, eu n\u00e3o fazia ideia do que significava e nem o que era de verdade. Sabia apenas que era uma doen\u00e7a que se manifestava em formas de crises como a que tinha tido. N\u00e3o sabia se teria outras crises ou n\u00e3o e, segundo os m\u00e9dicos, caso tivesse, era apenas tomar um rem\u00e9dio \u00e0 base de cortisona. Pensei, ok, est\u00e1 bom. Para mim, era quase banal. N\u00e3o foi um marco na minha vida. Era apenas ter uma doen\u00e7a e tomar um rem\u00e9dio que estava tudo certo. Voltei para a minha viagem e segui a vida.<\/p>\n<p><strong>E quando foi que a ficha caiu?<\/strong><\/p>\n<p>A ficha foi caindo aos poucos. Voltei para o Brasil, tive outros surtos, que come\u00e7aram a n\u00e3o ser t\u00e3o espor\u00e1dicos. Com o tempo fui percebendo que ap\u00f3s a cada crise, n\u00e3o voltava a ser como era antes, voltava pior. A\u00ed fui descobrindo, na pr\u00e1tica, que havia sequelas. N\u00e3o teve aquele momento de novela mexicana de a partir de agora minha vida mudou, foi um processo lento e gradual, em que fui entendendo as consequ\u00eancias da esclerose m\u00faltipla conforme o tempo ia passando e as crises aconteciam. O momento em que foi um marco de \u2018uau, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim\u2019 ou a \u2018doen\u00e7a vai impactar a minha vida pra caramba\u2019, foi um dia em que fui jogar bola \u2013 adorava jogar e fazia muito bem \u2013 com uns 22 ou 23 anos. Cheguei em casa da partida, coloquei um vinil da Elis Regina e comecei a ter pensamentos sobre a minha atua\u00e7\u00e3o na partida, que estava piorando e que podia<\/p>\n<p>chegar um momento da vida em que n\u00e3o jogaria bola nunca mais. E chegou. Para mim, isso era algo absurdo, pois era uma das coisas que mais gostava de fazer. Apenas pensava que era muito novo e jamais conseguiria jogar futebol.<\/p>\n<p><strong>E como foi lidar com isso?<\/strong><\/p>\n<p>Foi um momento em que pensava que estava em um pesadelo e que acordaria a qualquer instante. Foi o \u00fanico momento em que posso identificar como o de a ficha de ter ca\u00eddo e pensei: isso n\u00e3o \u00e9 legal. Neste momento comecei a chorar e estava tocando \u201cMaria Maria\u201d. Os versos cantados fortemente pela Elis Regina \u201c&#8230; mas \u00e9 preciso ter ra\u00e7a, \u00e9 preciso ter gana sempre&#8230;\u201d fez com que o meu choro, antes de desespero, se transformasse em for\u00e7a, incentivo, determina\u00e7\u00e3o para enfrentar. Foi um momento de virada, porque tudo foi de repente e sem saber o que vinha pela frente. At\u00e9 hoje o avan\u00e7o da esclerose n\u00e3o \u00e9 previs\u00edvel. \u00c9 muito de caso pra caso. Tem gente que sente dor, eu n\u00e3o tive, tem gente que em cinco anos est\u00e1 na cama, tem gente que tem tr\u00eas surtos e n\u00e3o tem mais. N\u00e3o tem como projetar perspectivamente, como por exemplo, quando eu tiver 40 anos estarei na cadeira de rodas ou estarei bom. Eu n\u00e3o sei. Meu espet\u00e1culo \u00e9 uma ficha que n\u00e3o para de cair, porque as coisas v\u00e3o acontecendo.<\/p>\n<p><strong>Quando voc\u00ea desistiu da Economia (Nando \u00e9 formado em Economia pela USP) e decidiu virar palha\u00e7o? A doen\u00e7a foi decisiva nesta decis\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Quando contamos a nossa hist\u00f3ria, colocamos uns marcos para nortear a narrativa. Antes da esclerose resolvi n\u00e3o trabalhar com economia e ser artista. Foi no mesmo ano em que tive o meu primeiro surto que me fez procurar um m\u00e9dico e ter o diagn\u00f3stico. Era 1990, tinha acabado de me formar, estava viajando e decidi que n\u00e3o trabalharia com Economia e nem daria aula de Hist\u00f3ria \u2013 tamb\u00e9m sou formado em Hist\u00f3ria. Tive uma crise existencial, estava viajando sozinho por um ano fora do Brasil, tinha um olhar de estranhamento para tudo, afinal estava em outro pa\u00eds, longe dos amigos, falando outro idioma. Durante os tr\u00eas meses em que fiquei em Londres, trabalhava em uma joalheria, ia todo dia para o trabalho no metr\u00f4 e questionava para mim mesmo o comportamento das pessoas no metr\u00f4. Achava que elas n\u00e3o estavam lendo, apenas que faziam de conta para n\u00e3o conversarem com as outras e n\u00e3o olh\u00e1-las. Tinha a sensa\u00e7\u00e3o de que as pessoas n\u00e3o eram felizes. Estava cansado com o trabalho tedioso, achava que o mundo tinha tomado um caminho errado, que todo mundo era infeliz. Caiu a ficha que eu n\u00e3o queria trabalhar com Economia e passar a vida em um banco. Antes achava que quem consegue usufruir de todas as ben\u00e9ficas da vida e n\u00e3o ficar escravo disso s\u00e3o os artistas \u2013 hoje j\u00e1 n\u00e3o acho mais \u2013 ent\u00e3o quis ser artista. O problema era o que fazer, pois era p\u00e9ssimo cantando, na aula de viol\u00e3o n\u00e3o consegui passar da \u2018Asa Branca\u2019, ent\u00e3o decidi fazer teatro.<\/p>\n<p>Quando sa\u00ed de Londres para ir para Torino, fiz a viagem de trem e estava lendo a pe\u00e7a do Maquiavel. Um ator estava viajando tamb\u00e9m, me viu lendo e puxou conversa. Contei que estava indo para Torino fazer um est\u00e1gio, mas queria ser ator. Ele morava na mesma cidade e ia come\u00e7ar um curso de ator em dez dias. E ele tinha um amigo que precisava de algu\u00e9m para alugar o apartamento dele. Tudo se encaixou e deu certo. Durante esse curso de teatro, eu tive os surtos derradeiros que me fizeram voltar para o Brasil. Voltei para c\u00e1, recebi o diagn\u00f3stico, n\u00e3o dei muita bola e n\u00e3o encanei muito. Voltei para a minha viagem e, quando voltei definitivamente para c\u00e1, fui procurar<\/p>\n<p>escolas de teatro. Indicaram-me, na \u00e9poca, a Escola de Arte Dram\u00e1tica de S\u00e3o Paulo (EAD) e fui fazer.<\/p>\n<p><strong>Na sua vida, voc\u00ea associa a arte \u00e0 esclerose m\u00faltipla?<\/strong><\/p>\n<p>Comecei a buscar mais informa\u00e7\u00f5es e descobri que era uma doen\u00e7a autoimune e comecei a achar que eu era o respons\u00e1vel direto. Achei que eu que me atacava, que vivia em desarmonia comigo mesmo e que a doen\u00e7a era a afirma\u00e7\u00e3o de que eu n\u00e3o estava bem com a minha vida, minhas decis\u00f5es e meus projetos. Fiz uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as, j\u00e1 estava na EAD e estava encantado com o teatro. No \u00faltimo semestre tinha a oficina de palha\u00e7o e foi quando me encantei e apaixonei. Fa\u00e7o a associa\u00e7\u00e3o da esclerose com o palha\u00e7o porque comecei a ter dificuldades para fazer o meu trabalho de ator porque eu tinha dois ou tr\u00eas surtos por ano e cada um deles deixou sequelas. Comecei a ter dificuldade para caminhar e tive muito comprometimento do meu desempenho f\u00edsico.<\/p>\n<p>Estava na EAD ainda e o Celso Frateschi, que era meu professor, estava montando uma trag\u00e9dia grega e chamou alguns alunos para participar. Nesse espet\u00e1culo foi a primeira vez que falei: talvez n\u00e3o consiga. Ia levando a vida, pois n\u00e3o sabia at\u00e9 onde a esclerose ia me comprometer e fazendo o espet\u00e1culo, um dia ca\u00ed em cena. Pensei que apesar de n\u00e3o estar dando tanta import\u00e2ncia para a doen\u00e7a, talvez ela fosse mais complicada do que pensava. Conforme o tempo passava, percebi que tinha muita dificuldade f\u00edsica para o trabalho de ator. Confrontei-me com isso. Depois teve um outro espet\u00e1culo, com o Jos\u00e9 Rubens Siqueira, que tinha muita troca e precisava de muita agilidade para ir r\u00e1pido de um lugar para outro. Ele fez toda uma constru\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o precisava mudar tanto de lugar. Eu s\u00f3 pensava: est\u00e1 dif\u00edcil. Foi a\u00ed que entrou o palha\u00e7o. Estava muito restrito \u00e0s possibilidades de ator, achando que faria apenas personagens que andam devagar e quando veio o encantamento pela linguagem do palha\u00e7o, pensei: trope\u00e7ar, cair, andar meio torto, ser desengon\u00e7ado faz parte da caracteriza\u00e7\u00e3o. As pessoas achavam que era uma proposta minha, que n\u00e3o era uma condi\u00e7\u00e3o real. Com o palha\u00e7o, era poss\u00edvel ser ator e juntou a fome com a vontade de comer. O que mais tem a ver com a esclerose foi o palha\u00e7o, mas desconfio que seguiria o mesmo rumo, pois me encantei demais com a linguagem. Virou um mote para mim, pois muitas vezes, o problema \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o, pois para a dramaturgia do palha\u00e7o, tudo que ele precisa \u00e9 de um problema. Toda a cena de um palha\u00e7o \u00e9 um problema, uma inadequa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Isso mudou a sua vis\u00e3o da vida?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0s vezes, eu fico em d\u00favida. Olhando para a minha trajet\u00f3ria, a esclerose m\u00faltipla n\u00e3o me ensinou nada, ela me revelou o que eu realmente era. Deu-me oportunidades de vivenciar coisas que j\u00e1 eram minhas. Fui me conhecendo por meio dela. Uma das coisas que depois de muito tempo analiso, \u00e9 a tranquilidade com que recebi a not\u00edcia, o modo como reagia. Nunca fui um her\u00f3i e tive momentos que chorei, fiquei triste e foi uma barra muito pesada, mas de um modo geral, olho para a minha trajet\u00f3ria, me surpreendo. Um dos sintomas cl\u00e1ssicos da doen\u00e7a \u00e9 a depress\u00e3o e eu nunca tive. Para mim, tudo est\u00e1 relacionado ao trabalho do palha\u00e7o e eu acho que a pr\u00e9-disposi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o me levar a s\u00e9rio, de rir de mim mesmo, de tentar ser efetivo e n\u00e3o ser. A melhor cena do palha\u00e7o e<\/p>\n<p>que o p\u00fablico vai amar \u00e9 aquela que voc\u00ea faz tudo errado, que te desobriga da efetividade. E isso tem a ver com o modo como eu lidei e ligo at\u00e9 hoje com a esclerose.<\/p>\n<figure id=\"attachment_20309\" aria-describedby=\"caption-attachment-20309\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-20309 size-medium\" src=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/1-300x271.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"271\" data-id=\"20309\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/1-300x271.jpg 300w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/1-1024x926.jpg 1024w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/1-150x136.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-20309\" class=\"wp-caption-text\">Nando Bolognesi num de seus espet\u00e1culos: \u201cacessibilidade criativa\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O que tem a ver com a esclerose?<\/strong><\/p>\n<p>Passei a ter um sentimento verdadeiro de gratid\u00e3o por estar vivo. Acho que isso tem totalmente a ver com a esclerose porque a gente nunca sabe como vai ser o outro dia. Antes reclamava que depois de correr estava trope\u00e7ando muito, depois reclamava que estava jogando mal, como se n\u00e3o desse valor ao que tinha e conseguia fazer. A partir disso comecei a valorizar as coisas que eu tenho agora. Comecei a notar que a exist\u00eancia \u00e9 algo fant\u00e1stico, que estar aqui agora \u00e9 algo t\u00e3o improv\u00e1vel, mas estou e vivo. A urg\u00eancia em aproveitar tudo que a vida me proporciona tamb\u00e9m est\u00e1 ligada \u00e0 esclerose e me fez ver o olhar que eu tenho que viver agora. Para mim morreu, acabou. Tenho que aproveitar aqui e agora. N\u00e3o vou ficar aqui brigando com o outro, reclamando da vida. Vou viver e isso me d\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o e gratid\u00e3o. A urg\u00eancia em viver passou a me nortear, mas n\u00e3o \u00e9 algo que me deixa ansioso, me faz valorizar cada instante.<\/p>\n<p><strong>Quando voc\u00ea decidiu escrever o livro, qual era o seu objetivo? Apenas contar a sua hist\u00f3ria ou que ela fosse incentivo para algu\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p>Nunca tive a motiva\u00e7\u00e3o de fazer algo com a linguagem de autoajuda. Em nenhum momento me identifiquei com a comunidade de portadores de esclerose m\u00faltipla. At\u00e9 procurei uma associa\u00e7\u00e3o, mas me incomodei porque n\u00e3o queria que fosse a minha forma de autoidentifica\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o do livro \u00e9 porque sempre gostei de escrever. Tenho um amigo que tem uma editora e me incentivou. Segundo ele, sempre tive uma maneira divertida de levar as coisas. Como demorei para escrever, ele fez um contrato com um prazo determinado para entregar o conte\u00fado, a\u00ed escrevi.<\/p>\n<p>Mas voc\u00ea tem no\u00e7\u00e3o que as pessoas s\u00e3o incentivadas pelo seu trabalho? Que tanto o livro quanto a pe\u00e7a as motivam a seguir em frente mesmo com problemas?<\/p>\n<p>Cronologicamente, o livro \u2013 \u201cUm Palha\u00e7o na Boca de um Vulc\u00e3o\u201d &#8211; aconteceu ao mesmo tempo em que o espet\u00e1culo e nenhum tinha essa motiva\u00e7\u00e3o. Depois de prontos, entendi que tinha essa pot\u00eancia. Mas n\u00e3o foi um desejo ou algo que me norteou e s\u00f3 depois de pronto percebi. O espet\u00e1culo \u2013 \u201cSe Fosse F\u00e1cil N\u00e3o Teria Gra\u00e7a\u201d \u2013 \u00e9 muito claro que tem esta fun\u00e7\u00e3o de incentivo. \u00c9 paradoxal, porque \u00e9 muito legal quando acaba a pe\u00e7a e as pessoas compram o livro, conversam comigo e sempre deixam depoimentos muito fortes de como ajudou a mudar a vida delas. \u00c9 algo muito legal, que mexe comigo, me deixa muito feliz e grato. Mas, ao mesmo tempo em que me gratifica, por outro lado me angustia poder achar que o meu espet\u00e1culo \u00e9 recebido ou aprovado s\u00f3 por conta do conte\u00fado que tem a ver com a compaix\u00e3o. Ent\u00e3o, uma das minhas pesquisas informais chamei de acessibilidade criativa, que \u00e9 como consigo transformar os meus limites em uma pot\u00eancia criativa, que far\u00e1 com que as pessoas vejam o espet\u00e1culo e gostem para al\u00e9m da experi\u00eancia pessoal que eu conto na pe\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Quais as suas experi\u00eancias recentes com acessibilidade criativa?<\/strong><\/p>\n<p>Tem um espet\u00e1culo de circo chamado \u201cObst\u00e1culos\u201d, em que todos os artistas s\u00e3o portadores de defici\u00eancia f\u00edsica \u2013 mais de 20 pessoas de v\u00e1rias companhias teatrais, mais ou menos &#8211; e eu sou o palha\u00e7o. N\u00f3s nos juntamos para fazer exclusivamente esta<\/p>\n<p>apresenta\u00e7\u00e3o, que foi feita em 2018, no Festival Internacional de Circo e no m\u00eas passado (julho), em S\u00e3o Paulo. Tamb\u00e9m fiz dois espet\u00e1culos com os Parlapat\u00f5es, \u201cO Rei da Vela\u201d e \u201cA Cabe\u00e7a de Yorick\u201d. Os dois de cadeira de rodas. Eram espet\u00e1culos que n\u00e3o tinham nada a ver com a minha hist\u00f3ria e gostei muito de fazer. Estar na cadeira de rodas era secund\u00e1rio, quem estava em cena era o ator, que estava sentado apenas por n\u00e3o conseguir andar. Isso me deixou instigado de como consegui continuar fazendo o meu trabalho, al\u00e9m da minha hist\u00f3ria pessoal.<\/p>\n<p>No \u201cObst\u00e1culos\u201d, que fa\u00e7o com v\u00e1rios deficientes, eu caminho bastante. Comentei com o diretor que gostaria de incorporar nas minhas caminhadas, a minha dificuldade em andar. N\u00e3o quero que ela seja um ru\u00eddo na minha cena, mas sim uma proposta formal e est\u00e9tica: se estender a lentid\u00e3o da marcha em caminhar em todos os meus gestos, incorporar a minha lentid\u00e3o em uma proposta est\u00e9tica e art\u00edstica, pois sairia desse lugar da supera\u00e7\u00e3o e deixaria aquilo de apesar da dificuldade de caminhar ele faz. Estou nesta busca de como incorporar minhas limita\u00e7\u00f5es e deixar de trat\u00e1-las como obst\u00e1culos a serem superados. Tem muito artista deficiente que j\u00e1 faz isso e faz ultrapassar o sentimento da compaix\u00e3o. \u00c9 um sentimento incr\u00edvel e que a humanidade precisa, mas como artista n\u00e3o \u00e9 o que eu quero. N\u00e3o sou ingrato, mas o que me move \u00e9 a minha express\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea passa a sensa\u00e7\u00e3o de estar sempre al\u00e9m e que a acessibilidade criativa \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de se superar e fazer algo diferente.<\/strong><\/p>\n<p>Como a esclerose \u00e9 uma doen\u00e7a que voc\u00ea n\u00e3o sabe o que vai acontecer e as coisas v\u00e3o avan\u00e7ando, acho que a busca de tornar os limites uma pot\u00eancia criativa e n\u00e3o um obst\u00e1culo \u00e9 algo que vai me acompanhar sempre. Os limites v\u00e3o mudando e voc\u00ea sempre vai buscar algo al\u00e9m. Teatro \u00e9 express\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<p><strong>O \u201cSe Fosse F\u00e1cil N\u00e3o Teria Gra\u00e7a\u201d tem continuidade?<\/strong><\/p>\n<p>Por conta desta acessibilidade criativa, decidi fazer uma trilogia. O \u201cSe Fosse F\u00e1cil N\u00e3o Teria Gra\u00e7a\u201d foi o primeiro, depois o \u201cLeg\u00edtima Defesa\u201d &#8211; que ganhei o Programa de A\u00e7\u00e3o Cultural (Proac) para escrever o texto e estou atr\u00e1s de verba para levantar a produ\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo. J\u00e1 fiz uma leitura p\u00fablica do texto em Itu e em meados de agosto passado fiz outra, em S\u00e3o Paulo, quando fiz o lan\u00e7amento do livro. Tamb\u00e9m tem o espet\u00e1culo do meu palha\u00e7o \u2013 que seria a minha trajet\u00f3ria nesta busca da incorpora\u00e7\u00e3o do meu limite como pot\u00eancia criativa. O primeiro foi a tem\u00e1tica, o \u201cLeg\u00edtima Defesa\u201d j\u00e1 tem outra coisa, mas ainda estou respeitando a minha limita\u00e7\u00e3o f\u00edsica, pois farei sentado e com pouca motiva\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o terceiro, do palha\u00e7o, levarei isso para o corpo. Projetei mentalmente que tudo isso seria o meu percurso nesta pesquisa da acessibilidade criativa. Agora estou no segundo passo. Sempre estou buscando algo que possa seguir profissionalmente. J\u00e1 tenho 51 anos e conseguir a acessibilidade criativa pode ser um bom tema para conseguir patroc\u00ednio e editais.<\/p>\n<p><strong>E como \u00e9 correr atr\u00e1s de patroc\u00ednio nos dias atuais?<\/strong><\/p>\n<p>Fico atr\u00e1s de editais e de patrocinadores pela Lei Rouanet. Todo ano h\u00e1 leis aprovadas para conseguirmos irmos atr\u00e1s de patroc\u00ednio. Vivemos de edital e Lei Rouanet, h\u00e1 mais de 20 anos. Infelizmente, patroc\u00ednio direito, empresas que chegam l\u00e1 e bancam, n\u00e3o<\/p>\n<p>conhe\u00e7o. Quando n\u00e3o \u00e9 a Lei Rouanet, voc\u00ea consegue verba com os editais de cultura. Enquanto ainda temos tal recuso, corremos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>(entrevista\/texto: Aline Queiroz)<\/p>\n<p>fotos: Jo\u00e3o Caldas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o ator e palha\u00e7o ituano Nando Bolognesi, ao contar hist\u00f3rias, h\u00e1 marcos que norteiam as narrativas. 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