{"id":17989,"date":"2018-12-27T13:35:04","date_gmt":"2018-12-27T13:35:04","guid":{"rendered":"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=17989"},"modified":"2024-01-26T11:38:37","modified_gmt":"2024-01-26T14:38:37","slug":"padre-fabio-de-melo-em-entrevista-exclusiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2018\/12\/27\/padre-fabio-de-melo-em-entrevista-exclusiva\/","title":{"rendered":"Padre F\u00e1bio de Melo em entrevista exclusiva"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_17990\" aria-describedby=\"caption-attachment-17990\" style=\"width: 176px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1692-3.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-17990\" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1692-3.jpg\" alt=\"\" width=\"176\" height=\"257\" data-id=\"17990\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1692-3.jpg 3701w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1692-3-205x300.jpg 205w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1692-3-701x1024.jpg 701w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1692-3-103x150.jpg 103w\" sizes=\"(max-width: 176px) 100vw, 176px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17990\" class=\"wp-caption-text\">Padre F\u00e1bio: \u201cEu acredito que a maneira mais eficaz de motivar o bem no mundo \u00e9 a gente fazendo o bem acontecer em tudo aquilo que nos diz respeito\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>O final de ano chegou e muitas pessoas aproveitam esse momento para fazer um balan\u00e7o sobre a vida, virar a p\u00e1gina, deixar o que de ruim aconteceu e pensar em novos projetos para o futuro. Mas por que essa vontade surge apenas nesse per\u00edodo? Conversamos com o padre F\u00e1bio de Melo, que teceu suas ideias sobre o conflito humano, o caminho para a felicidade, a import\u00e2ncia da religi\u00e3o e como praticar o bem. \u201cEu acredito que n\u00f3s dever\u00edamos ter essa m\u00edstica do fim de ano, todo fim de dia e que ela fosse uma esp\u00e9cie de ju\u00edzo final e n\u00e3o o julgamento que n\u00f3s recebemos do outro, mas um que n\u00f3s nos oferecemos que \u00e9 justamente a oportunidade de nos perguntar se a vida que estamos vivendo \u00e9 a que merecemos, e quais seriam as pe\u00e7as que valeria a pena mexer nesse tabuleiro\u201d, aconselha o padre, que tamb\u00e9m argumentou sobre a import\u00e2ncia do perd\u00e3o, um sentimento raro e complexo, mas que nunca \u00e9 tarde para exerc\u00ea-lo. \u201cO perd\u00e3o \u00e9 sempre um benef\u00edcio que n\u00f3s recebemos toda vez que o aplicamos, \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o para quem recebe, mas, sobretudo, para quem oferece, porque \u00e9 uma oportunidade que n\u00f3s temos de rearmonizar aquilo que a m\u00e1goa estava prejudicando\u201d, explica. Entramos tamb\u00e9m num assunto que atualmente faz parte da vida cotidiana de boa parte da popula\u00e7\u00e3o mundial: as redes sociais. A import\u00e2ncia de se quantificar a felicidade e bens materiais atrav\u00e9s da internet tornou-se uma necessidade constante. \u201cN\u00e3o \u00e9 comum vermos pessoas demonstrando o quanto ficaram mais felizes porque se autoconheceram, ou se libertaram de relacionamentos abusivos, porque passaram a se entender um pouco mais, porque venceram o ci\u00fame, porque conseguiram superar traumas de mortes. Essas conquistas silenciosas que s\u00e3o frutos do autoconhecimento est\u00e3o muito mais ligadas do que necessariamente \u00e0s conquistas materiais, mas nem sempre temos acesso porque o que \u00e9 publicado \u00e9 muito mais o resultado material que alcan\u00e7amos na vida\u201d, alerta.<\/p>\n<p><strong>REVISTA REGIONAL: A chegada do final de ano faz com que as pessoas reflitam sobre os acontecimentos, al\u00e9m de elas acreditarem na possibilidade de renovar as esperan\u00e7as. Por que justamente apenas nesse per\u00edodo elas tomam essa consci\u00eancia de que podem mudar algo na vida para serem felizes?<\/strong><\/p>\n<p>PADRE F\u00c1BIO DE MELO: O fim de ano tem uma m\u00edstica porque toda vez que n\u00f3s estamos diante de um tempo que termina, que est\u00e1 sendo finalizado, naturalmente \u00e9 conduzido ao questionamento de como n\u00f3s vivemos aquilo que est\u00e1 sendo encerrado e como a gente se prop\u00f5e a viver a fase que se inicia. Eu acredito que n\u00f3s dever\u00edamos ter essa m\u00edstica do fim de ano, todo fim de dia e que ela fosse uma esp\u00e9cie de ju\u00edzo final e n\u00e3o o julgamento que n\u00f3s recebemos do outro, mas um que n\u00f3s nos oferecemos que \u00e9 justamente a oportunidade de nos perguntar se a vida que estamos vivendo \u00e9 a que merecemos viver e quais seriam as pe\u00e7as que valeria a pena mexer nesse tabuleiro para que fosse melhor.<\/p>\n<p><strong>Para algumas pessoas, a religi\u00e3o ajuda a suportar os sofrimentos, os conflitos e as ang\u00fastias, mas o quanto ela \u00e9 importante e pode mudar de fato a vida das pessoas?<\/strong><\/p>\n<p>A religi\u00e3o ser\u00e1 sempre importante na vida humana, na medida em que ela provocar e despertar a espiritualidade que \u00e9 o resultado de uma vida religiosa. Espiritualidade \u00e9 tudo que sopra sentido no cora\u00e7\u00e3o, tudo aquilo que faz a gente perceber a vida na sua grandeza, na sua beleza e tamb\u00e9m com os seus sofrimentos. Quando o sofrimento \u00e9 enfrentado por uma pessoa religiosa que est\u00e1 espiritualizada, ela se torna menos agressiva porque acaba tendo um significado. A espiritualidade nos permite descobrir o resultado espiritual do sofrimento.<\/p>\n<p><strong>O psicanalista Contardo Calligaris disse que a ideia de felicidade total virou um produto de mercado. At\u00e9 que ponto ele pode estar certo nessa afirma\u00e7\u00e3o? De que maneira o autoconhecimento pode nos ajudar?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, a felicidade tem sido muito propagada como produto de mercado, como um resultado da materialidade. A gente v\u00ea pelas pessoas que se fazem e se passam felizes pelas redes sociais sempre, porque est\u00e3o conquistando alguma coisa, um carro, uma casa ou uma viagem. Dificilmente vemos algu\u00e9m postando o resultado de uma felicidade, ou melhor, a felicidade como resultado de uma conquista que n\u00e3o passa pela materialidade. N\u00e3o \u00e9 comum vermos pessoas demonstrando o quanto ficaram mais felizes porque se autoconheceram, porque se libertaram de relacionamentos abusivos, porque passaram a se entender um pouco mais, porque venceram o ci\u00fame, porque conseguiram superar traumas de mortes. Essas conquistas silenciosas que s\u00e3o frutos do autoconhecimento est\u00e3o muito mais ligadas do que necessariamente as conquistas materiais, mas nem sempre temos acesso porque o que \u00e9 publicado, o que \u00e9 mostrado, \u00e9 muito mais o resultado material que alcan\u00e7amos na vida.<\/p>\n<p><strong>\u201cGentileza gera gentileza\u201d, j\u00e1 dizia Jos\u00e9 Datrino, e algumas pessoas conseguem manter esse esp\u00edrito vivo, mas de que forma elas podem praticar essa corrente do bem e contribuir para um mundo melhor? Como podemos inspirar as pessoas a praticarem o bem?<\/strong><\/p>\n<p>A gentileza \u00e9 o resultado de uma alma elegante, educada, uma busca de todo dia, num mundo onde n\u00f3s estamos cada vez mais estimulados para a grosseria, para as respostas r\u00e1pidas, sem reflex\u00e3o porque n\u00f3s somos chamados para sermos muito mais reativos e menos reflexivos. A gentileza se mostra como um desafio dos nossos dias, exercer essas gentilezas nas pequenas coisas, em todas as situa\u00e7\u00f5es. Eu acredito que a maneira mais eficaz de motivar o bem no mundo \u00e9 a gente fazendo o bem acontecer em tudo aquilo que nos diz respeito. Eu tenho aqui, a parte de um mundo que est\u00e1 diante dos meus olhos e eu posso cuidar. Se eu cuido bem de tudo que est\u00e1 sobre a minha responsabilidade, o outro que me observar e me ver viver, acabar\u00e1 percebendo que \u00e9 interessante viver assim. Eu acho que n\u00e3o s\u00e3o os discursos que mudam o mundo, mas os exemplos.<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o h\u00e1 nada que n\u00e3o possa ser perdoado nem ningu\u00e9m que n\u00e3o mere\u00e7a ser perdoado\u201d, frase do arcebispo Desmond Tutu. Perdoar n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil, mas qual o melhor caminho?<\/strong><\/p>\n<p>O perd\u00e3o \u00e9 sempre um benef\u00edcio que n\u00f3s recebemos toda vez que o aplicamos, \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o para quem recebe, mas, sobretudo, uma liberta\u00e7\u00e3o para quem oferece porque \u00e9 uma oportunidade que n\u00f3s temos de rearmonizar aquilo que a m\u00e1goa estava prejudicando. Todo ressentimento, todo processo de \u00f3dio que n\u00f3s guardamos dentro de n\u00f3s, acaba gerando muito mal estar emocional e perdoar \u00e9 nos dar o direito e se conceder de n\u00e3o levar adiante o mal que n\u00f3s estamos causando com o sentimento que alimentamos.<\/p>\n<p><strong>Atualmente os h\u00e1bitos de consumo e a superficialidade proporcionada pelas redes sociais tomaram uma dimens\u00e3o na vida das pessoas. Essa \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o comum ou estamos perdendo nossa identidade?<\/strong><\/p>\n<p>O materialismo \u00e9 justamente o excesso de mat\u00e9ria. \u00c9 natural que onde h\u00e1 excesso de mat\u00e9ria possa tamb\u00e9m existir a car\u00eancia de esp\u00edrito que \u00e9 o significado que n\u00f3s podemos dar a tudo aquilo que \u00e9 material. Estando carente de espiritualidade, a materialidade acaba se tornando oca, vazia e ela nunca vai preencher os espa\u00e7os da nossa alma porque \u00e9 de outra natureza. Eu acredito que hoje o consumismo, esse materialismo que \u00e9 t\u00e3o suscitado pelas redes sociais, acaba gerando em n\u00f3s um preju\u00edzo muito grande porque \u00e9 como se n\u00f3s n\u00e3o tiv\u00e9ssemos, ou melhor, somos muito estimulados para uma busca material e pouco estimulado para uma busca espiritual. Eu pessoalmente tenho cuidado de fazer com que as minhas redes sociais sejam sempre uma fonte de espiritualidade para quem est\u00e1 comigo, seja atrav\u00e9s do humor ou de uma reflex\u00e3o que possa nos fazer pensar a maneira como vivemos, a maneira como sentimos e pensamos.<\/p>\n<p><strong>Nos \u00faltimos anos as pessoas t\u00eam destilado \u00f3dio nas redes sociais, e o fato delas poderem se esconder atr\u00e1s de um computador, as deixam mais confort\u00e1veis. O que essa atitude gera na nossa vida?<\/strong><\/p>\n<p>As redes sociais acabaram se tornando para muitas pessoas um lugar de catarse, isto \u00e9, de purifica\u00e7\u00e3o, e, por terem vergonha de purgar e purificar publicamente alguns sentimentos e algumas posturas, acabam recorrendo a perfis falsos, onde elas possam dizer o que gostariam de dizer, mas n\u00e3o teriam coragem se estivessem usando o pr\u00f3prio rosto. E assim n\u00f3s terminamos abrindo uma caixa de Pandora muito perigosa porque as pessoas acabam exercendo atrav\u00e9s dessa catarse uma agressividade muito grande, que \u00e9 completamente irrespons\u00e1vel, descompromissada com a verdade e, \u00e0s vezes, \u00e9 muito negativo, porque acaba criando e gerando um contexto de muita agressividade e de falsidade tamb\u00e9m. Eu sempre desejo que as pessoas desfrutem da satisfa\u00e7\u00e3o de serem quem s\u00e3o. Que abram m\u00e3o da hipocrisia, do medo, que retornem se precisarem retornar, que avancem se precisarem avan\u00e7ar, mas que n\u00e3o desistam de serem elas mesmas, que \u00e9 assim que Deus nos quer, no eixo de nossa verdade. Se somos verdadeiros, n\u00f3s temos muito mais chances de alcan\u00e7ar essa rela\u00e7\u00e3o humana que t\u00e3o facilmente chamamos de felicidade. Eu gosto de compreender a felicidade como algo mais profundo, porque a felicidade na forma como \u00e0s vezes as pessoas falam d\u00e1 a impress\u00e3o de que temos que estar sempre sorrindo, satisfeito e n\u00e3o! A realiza\u00e7\u00e3o humana que comporta a felicidade tamb\u00e9m traz em si as dificuldades que nos ajudam a sorrir depois. \u00c9 isso que eu<\/p>\n<p>desejo, que n\u00f3s sejamos uma gera\u00e7\u00e3o mais realizada pra gente motivar essa que vai chegar, que est\u00e1 chegando a ser tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>entrevista a Ester Jacopetti<\/p>\n<p>fotos: Alice Venturi<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O final de ano chegou e muitas pessoas aproveitam esse momento para fazer um balan\u00e7o sobre a vida, virar a p\u00e1gina, deixar o que de ruim aconteceu e pensar em novos projetos para o futuro. Mas por que essa vontade surge apenas nesse per\u00edodo? 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