{"id":12742,"date":"2017-09-15T17:14:54","date_gmt":"2017-09-15T17:14:54","guid":{"rendered":"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=12742"},"modified":"2024-01-26T10:50:20","modified_gmt":"2024-01-26T13:50:20","slug":"um-saltense-no-caminho-de-compostela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2017\/09\/15\/um-saltense-no-caminho-de-compostela\/","title":{"rendered":"Um saltense no Caminho de Compostela"},"content":{"rendered":"<p><em>Empres\u00e1rio saltense conta sua experi\u00eancia nos 26 dias que atravessou o famoso caminho franc\u00eas at\u00e9 Santiago de Compostela, na Espanha<\/em><\/p>\n<p>Nossa caminhada teve in\u00edcio na Fran\u00e7a, na pequena cidade de San Jean Pied de Port, eu, Rog\u00e9rio e Tarc\u00edsio (amigos que acompanharam na travessia). Fizemos nossa credencial de peregrino e recebemos o guia de orienta\u00e7\u00e3o de todo o percurso. S\u00e3o cerca de 800 km at\u00e9 Santiago de Compostela, na Espanha. Na mente parece n\u00e3o ser poss\u00edvel, mas a cada passo, com f\u00e9 e determina\u00e7\u00e3o, est\u00e1vamos mais pr\u00f3ximos de nosso objetivo. Cada um tem seu ritmo, cada um faz o seu caminho, um caminho rumo ao interior.<\/p>\n<p>Logo no primeiro dia, passamos por um dif\u00edcil teste: atravessar os Pirineus. S\u00e3o 16 km de aclive e 11 km de declive, com chuva, neblina, vento, lama e muito frio. Ap\u00f3s seis horas, chegamos a Roncesvales, felizes e exaustos. Sempre focados, inscrevemo-nos no albergue municipal, um dos melhores do percurso. Tomamos banho, lavamos nossas roupas e come\u00e7amos a nos preparar para o pr\u00f3ximo dia. Assim era a rotina de todos os dias, pois na mochila levamos apenas uma troca de roupa, saco de dormir, toalha, chinelo e produtos de higiene pessoal que, somados, pesavam cerca de oito quilos.<\/p>\n<p>No segundo dia, andamos 30 km e chegamos a Larrasoana. Sobe, desce, lama, chuva e as bolhas e dores come\u00e7aram a aparecer. O corpo reclama, o cansa\u00e7o acumula, mas a determina\u00e7\u00e3o e a f\u00e9 est\u00e3o firmes. No terceiro dia, passamos por Pamplona, cidade linda e logo come\u00e7amos a subir, de novo, com destino a Alto de Perd\u00e3o. Depois de 34 km chegamos l\u00e1, mas n\u00e3o havia vagas nos albergues, e a pr\u00f3xima cidade estava a 6 km. Sem op\u00e7\u00f5es, fomos em frente. Chegamos bem e felizes. Fizemos 40 km de caminhada em um dia, mas quando um dos companheiros tirou as meias, a parte da frente das solas dos dois p\u00e9s estava em carne viva com queimaduras de segundo grau. Ele precisou ir ao hospital e, logo depois, retornar ao Brasil.<\/p>\n<p>Em nosso quarto dia, encontramos uma regi\u00e3o muito plana, linda, com planta\u00e7\u00f5es. Passamos pela ponte de La Reina, que d\u00e1 nome ao povoado constru\u00eddo no s\u00e9culo XI, e chegamos em Lizzara. Os dias seguintes foram tranquilos. Andamos no plano, os dias estavam ensolarados e a quantidade de peregrinos aumentava cada vez mais. Foi necess\u00e1rio, ent\u00e3o, um planejamento melhor e reservas de albergue com anteced\u00eancia.<\/p>\n<p>A mente no comando, as dores sob controle, concentra\u00e7\u00e3o total, dia a dia, passo a passo, sempre com equil\u00edbrio e o caminho agora com muitas e muitas pedras. Devido \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o e \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, os pensamentos se restringem as atividades de caminhar, tomar banho, lavar as roupas, se alimentar e dormir. Isso leva \u00e0 interioriza\u00e7\u00e3o, um estado contemplativo, o sentir aumenta, as emo\u00e7\u00f5es ficam \u00e0 flor da pele e parece que se caminha acima do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegamos em Rioja, onde s\u00e3o produzidos os mais famosos vinhos da Espanha. Experimentamos v\u00e1rios deles. Nesse dia andamos 40 km e chegamos \u00e0 capital, Logronho.<\/p>\n<p>No s\u00e9timo dia, muitas inclina\u00e7\u00f5es, muitas pedras e cultivo de uvas. Completamos uma semana e 200 km percorridos. No oitavo dia, em uma regi\u00e3o muito plana, reta infinita, em meio a planta\u00e7\u00f5es, era poss\u00edvel andar sem olhar onde se pisava, apenas contemplando o horizonte e as paisagens. J\u00e1 caminhando pela regi\u00e3o de Castilla e Leon, andamos 27 km at\u00e9 Granon. Est\u00e1vamos \u201cvoando baixo\u201d e conversando com peregrinos de mais de 40 pa\u00edses, que conhecemos durante o percurso.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><strong>\u2018Parte de n\u00f3s\u2019<\/strong><\/p>\n<p>O caminho \u00e9 algo pessoal, cada um pode e deve fazer no seu ritmo. Observa-se que existem muitos turistas que v\u00e3o para fazer pequenos percursos, atletas e peregrinos de final de semana, que s\u00f3 bebem e fazem barulho. O caminho \u00e9 cultural, gastron\u00f4mico, religioso, espiritual, esportivo, barato e para todos.<\/p>\n<p>No nono dia, andamos 42 km at\u00e9 S. Juan de Ortega, regi\u00e3o plana t\u00edpica de Castilha e Leon, onde devemos percorrer mais de 400 km.<\/p>\n<p>Todos os povoados t\u00eam igrejas antigas, de 300 a 800 anos. As igrejas das cidades e dos povoados sempre s\u00e3o o que mais se destaca nos locais, s\u00edmbolos da influ\u00eancia do Catolicismo de s\u00e9culos passados. Suas casas de pedras, saibros e capim de paredes largas s\u00e3o feitas para proteger do frio e do calor. Tudo \u00e9 uma verdadeira aula de hist\u00f3ria. Nossas origens, nossos antepassados, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que at\u00e9 j\u00e1 vivemos l\u00e1, parecia que o local fazia parte de n\u00f3s.<\/p>\n<p>No d\u00e9cimo dia foi muito f\u00e1cil, preparados para ver a linda cidade de Burgos, com sua linda catedral, uma das mais importantes da Europa. L\u00e1, valeria a pena passar mais dias. Assim, chegamos perto de nossos 300 km percorridos e de olho na pr\u00f3xima meta: chegar a Le\u00f3n, a 180 km, em seis dias.<\/p>\n<p>Nesse esp\u00edrito, come\u00e7amos o nosso 11\u00ba dia. Andamos 32 km at\u00e9 Hontanas. No dia seguinte, andamos mais 32 km at\u00e9 Fromista. Passamos pelas ru\u00ednas de San Ant\u00f3n, um convento fundado no s\u00e9culo XII, que serviu por muitos anos de hospital para os peregrinos no passado. No 13\u00ba dia, passamos por Carri\u00f3n de los Condes, Terradillos de los Templarios, fundada no ano de 1119, na \u00e9poca das Cruzadas, e chegamos Calzadilla de la Cueza.<\/p>\n<p>Do 14\u00ba ao 15\u00ba dia, andamos por regi\u00f5es muito planas, passamos por Sahagun e por um bonito lugar para descansar, La Ermita de la Virgen del Puente, e chegamos em Berciano&nbsp; del real Camino. No 17\u00ba percorremos 26 km at\u00e9 Le\u00f3n, a \u00faltima grande cidade antes de Compostela, fundada no ano 68 d.C. pelos romanos. Destacam-se a Plaza Mayor e a catedral g\u00f3tica de Leon, constru\u00edda entre os s\u00e9culos XIII e XIV, e muitas outras belezas hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>No 18\u00ba caminhamos 38 km at\u00e9 o hospital \u00d3rbigo. Passamos por Virgem del Camino, Villa de Mazarife, e hospital de \u00d3rbigo ao lado de La Puente. No dia seguinte, andamos 37 km at\u00e9 Rabanal del Camino, onde o perfil do trajeto come\u00e7a a mudar, &nbsp;com longas subidas e descidas. Passamos por Astorga, cidade pequena, mas muito relevante onde h\u00e1 o encontro de outro caminho procedente de Servilha. Nessa cidade, h\u00e1 a Catedral de Santa Maria e El Palacio Episcopal, projetado por Gaudi, onde funciona o Museu de Los Caminos.<\/p>\n<p>No 20\u00ba dia andamos 32,5 km at\u00e9 Ponferrada, sendo 14 km de subida e 18,5 km de descida com muitas pedras, precisando de muito cuidado para n\u00e3o sofrer acidentes. Descer parece ser mais dif\u00edcil que subir, requer determina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi f\u00e1cil, mas conseguimos. Passamos por Foncebadon, no topo da montanha, local m\u00edstico, pedras monol\u00edticas com uma cruz de ferro, onde muitos peregrinos depositam algumas pedras e bandeiras.<\/p>\n<p>J\u00e1 na reta final, faltando 220 km para chegar, caminhamos at\u00e9 Trabadelo, passamos por Villa Franca del Bierzo com uma gastronomia t\u00edpica como a Pulperia, onde se serve polvo como petisco. Depois, andamos por mais de 400 km em regi\u00e3o plana e com muitas pedras. No 22\u00ba dia andamos 42 km at\u00e9 Tria Castelo, talvez o dia mais dif\u00edcil. Caminhamos ao lado de uma autopista, acompanhando um rio por muitos quil\u00f4metros, passando por v\u00e1rios povoados. Estava muito frio, as pernas e as m\u00e3os pareciam congelar. Subimos por quatro horas e descemos por mais seis. Essa regi\u00e3o, denominada Cebreiro, \u00e9 famosa pelas dificuldades oferecidas aos peregrinos, mas tamb\u00e9m por sua beleza. No topo da montanha, pode-se avistar muitos quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia e morros com inclina\u00e7\u00f5es enormes. Seguimos estrada at\u00e9 a Gal\u00edcia. Muitas casas de Pedras, comida muito boa, montes de pedras monol\u00edticas, muita \u00e1gua, vegeta\u00e7\u00e3o abundante, vacas leiteiras e queijos deliciosos. Nos dias seguintes, percorremos 63,5 km, acompanhados de muitas pessoas de diversos pa\u00edses. Lembrando que, para receber o certificado oficial do peregrino \u00e9 preciso andar, no m\u00ednimo, 100 km a p\u00e9 ou 200 km de bicicleta. A multid\u00e3o se encontra nesse percurso.<\/p>\n<p>No 26\u00ba e \u00faltimo dia da peregrina\u00e7\u00e3o, sa\u00edmos de Pedrozo, andamos 20 km, acompanhando uma multid\u00e3o, e chegamos a nosso t\u00e3o desejado objetivo final: Santiago de Compostela. Junto de n\u00f3s, mais de 3 mil peregrinos conclu\u00edram sua peregrina\u00e7\u00e3o, procedente de mais de 20 caminhos diferentes. Era s\u00e1bado, tiramos fotos e curtimos a cidade, aguardando o domingo, quando aconteceu a famosa missa de domingo para os peregrinos. Miss\u00e3o cumprida!<\/p>\n<p><em>texto: Cle\u00f3fano Le\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>fotos: Cle\u00f3fano Le\u00e3o\/Arquivo pessoal<\/em><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><strong>CONFIRA A GALERIA DE IMAGENS DA VIAGEM<\/strong><\/p>\nngg_shortcode_0_placeholder\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Empres\u00e1rio saltense conta sua experi\u00eancia nos 26 dias que atravessou o famoso caminho franc\u00eas at\u00e9 Santiago de Compostela, na Espanha Nossa caminhada teve in\u00edcio na Fran\u00e7a, na pequena cidade de San Jean Pied de Port, eu, Rog\u00e9rio e Tarc\u00edsio (amigos que acompanharam na travessia). 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