{"id":11602,"date":"2017-08-16T18:26:31","date_gmt":"2017-08-16T18:26:31","guid":{"rendered":"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=11602"},"modified":"2024-01-26T11:38:57","modified_gmt":"2024-01-26T14:38:57","slug":"lilia-cabral-em-entrevista-especial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2017\/08\/16\/lilia-cabral-em-entrevista-especial\/","title":{"rendered":"L\u00edlia Cabral em entrevista especial"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_11603\" aria-describedby=\"caption-attachment-11603\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/conversa-1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-11603\" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/conversa-1.jpg\" alt=\"\" width=\"210\" height=\"316\" data-id=\"11603\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/conversa-1.jpg 2736w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/conversa-1-200x300.jpg 200w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/conversa-1-683x1024.jpg 683w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/conversa-1-100x150.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 210px) 100vw, 210px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11603\" class=\"wp-caption-text\">\u201cDemorei muito tempo para ser protagonista. Sei bem como \u00e9. Se eu cheguei a ser uma, \u00e9 porque fui provando em cada trabalho, que eu tinha condi\u00e7\u00f5es&#8230;\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Em sua melhor fase, atriz conduz seus 35 anos de atua\u00e7\u00e3o com muita destreza e perseveran\u00e7a; atualmente, vive uma das protagonistas de \u201cA For\u00e7a do Querer\u201d, novela da Globo<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em>L\u00edlia Cabral \u00e9 uma mulher reservada. E apesar disso, consegue transparecer intensidade, confian\u00e7a e tamb\u00e9m um lado divertido. Durante nossa longa entrevista, a atriz que se divide entre projetos no cinema, teatro e televis\u00e3o, vive uma fase produtiva. Queridinha de v\u00e1rios autores conceituados, L\u00edlia n\u00e3o esconde a satisfa\u00e7\u00e3o de trabalhar com nomes como Manoel Carlos, Ricardo Linhares, Gl\u00f3ria Perez e Aguinaldo Silva. Ali\u00e1s, mesmo envolvida atualmente em \u201cA For\u00e7a do Querer\u201d, ela j\u00e1 est\u00e1 reservada para interpretar uma vil\u00e3 na pr\u00f3xima novela de Aguinaldo. \u201cEu acho que tem autores, que eu me dei muito bem. Foi muito mais um olhar deles, em rela\u00e7\u00e3o a mim, do que eu querer mostrar servi\u00e7o, sabe?! L\u00f3gico que todas as vezes, que eu tinha as oportunidades, n\u00e3o deixei escapar. E de fato, comecei a procurar mesmo, para as pessoas olharem para mim de outra forma. Tanto que eu demorei muito para ter um papel mais significativo. Foram autores que fizeram a minha hist\u00f3ria. Na verdade, devo muito a eles\u201d, conta. S\u00f3 com Manoel Carlos, foram quatro novelas de grande sucesso (\u201cLa\u00e7os de Fam\u00edlia\u201d, \u201cP\u00e1ginas da Vida\u201d, \u201cViver a Vida\u201d e \u201cHist\u00f3ria de Amor\u201d). O novelista, ali\u00e1s, declarou recentemente porque nunca escolheu a atriz para viver uma Helena, personagem chave de suas tramas. \u201cUma vez, ele me disse que as pessoas queriam que ele me desse uma \u2018Helena\u2019, mas quem seria a antagonista dele?! \u00c9 uma coisa linda! Mas, sinceramente, eu nunca pensei porque ele nunca me deu. Fui muito feliz com todos os personagens que fiz. Tanto em \u2018P\u00e1ginas da Vida\u2019 e \u2018Viver a Vida\u2019, no qual fui indicada ao Emmy. Ent\u00e3o, se eu tivesse feito a Helena, talvez n\u00e3o tivesse sido indicada (risos). Ele sempre foi muito carinhoso comigo. Quando vejo a sinopse, qual o papel mais dif\u00edcil? O da L\u00edlia. O que voc\u00ea fala quando ouve uma coisa dessas? N\u00e3o tenho nem palavras. Eu liguei para ele, e ele disse que foi de cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que foi, e eu sei. Eu me saboreava com os textos, dava um trabalh\u00e3o desgra\u00e7ado, porque chegava um dia antes, mas n\u00e3o interessava. Eu s\u00f3 pensava que essas eram as oportunidades que eu n\u00e3o poderia perder\u201d, comenta a atriz satisfeita. Neste bate-papo exclusivo com a Revista Regional, Lilia ainda fala sobre as realiza\u00e7\u00f5es na profiss\u00e3o e do r\u00f3tulo de \u201cdama da dramaturgia\u201d. Confira.<\/p>\n<p><strong>REVISTA REGIONAL: Sua personagem Silvana, em \u201cA For\u00e7a do Querer\u201d, tem feito muito sucesso, mas como tem sido a experi\u00eancia de interpretar uma mulher viciada em jogos, que n\u00e3o tem controle sobre o que faz?<\/strong><\/p>\n<p>LILIA CABRAL: Estou descobrindo a cada dia que passa como \u00e9 essa mulher. Ela acredita que (o v\u00edcio em jogos) \u00e9 apenas pelo prazer, uma v\u00e1lvula de escape, faz para relaxar, para fugir de um dia complicado, cheio de tens\u00e3o. Ela n\u00e3o percebe que \u00e9 viciada. Mas quando descobrir, n\u00e3o haver\u00e1 mais alternativas, e ela estar\u00e1 no fundo do po\u00e7o. Cada cap\u00edtulo que chega, vou administrando esse sentimento, de n\u00e3o entender que ela tenha um v\u00edcio e, ao mesmo tempo, sentir prazer. Ela inverte tudo, e tem uma cena que ela diz: \u201cN\u00e3o \u00e9 mais f\u00e1cil todo mundo entender que todos precisamos de uma v\u00e1lvula de escape?\u201d (risos). A Silvana \u00e9 bem-sucedida, e todo mundo valoriza o trabalho dela, e como mulher tamb\u00e9m. A sensa\u00e7\u00e3o que temos, \u00e9 que ela est\u00e1 muito bem de vida. A princ\u00edpio, ela sabe jogar, arquitetar, mas tem o marido (Humberto Martins) controlador, que n\u00e3o gosta de jogos, odeia. Conforme v\u00e3o se passando os dias, os meses, todo mundo come\u00e7a a perceber que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 divers\u00e3o. Ela \u00e9 compulsiva. Existe a necessidade de ganhar, a adrenalina, mais que a divers\u00e3o propriamente. Com essas caracter\u00edsticas, o lado compulsivo come\u00e7a a se formar, e o lado fraco tamb\u00e9m, \u00e9 quando ela come\u00e7a a perder. Toda pessoa que perde, no fundo, no fundo, tem esse lado ansioso. Ela vive dentro de uma mentira. Tem um mundo normal, trabalha, tem fam\u00edlia, n\u00e3o \u00e9 bipolar, mas a \u00fanica coisa que ela faz \u00e9 jogar. Quanto mais ela perde, mais ela mente. O dinheiro vai desaparecendo, o que acaba acarretando uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es que, a princ\u00edpio, s\u00e3o divertidas. Parecem leves, mas vai piorando, at\u00e9 que uma hora, n\u00f3s n\u00e3o sabemos quando, as pessoas ir\u00e3o descobrir, mas ela j\u00e1 estar\u00e1 na derrocada.<\/p>\n<p><strong>Isso significa que as consequ\u00eancias n\u00e3o ser\u00e3o nada f\u00e1ceis para a personagem&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Ela sofrer\u00e1 as maiores consequ\u00eancias, com certeza! O personagem n\u00e3o seria escrito, se n\u00e3o fosse para mostrar o desfecho, e a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nem se ela tem ou n\u00e3o salva\u00e7\u00e3o. \u00c9 esclarecer! Que \u00e9 o mais importante. A ideia de um personagem como este n\u00e3o \u00e9 necessariamente levantar bandeira, mas, sim, se identificar, compreender e chegar a algum lugar. Sen\u00e3o, as pessoas continuar\u00e3o batendo na mesma tecla. Quando elas compreendem, podem chegar a uma solu\u00e7\u00e3o, melhor ou pior. Algumas pessoas j\u00e1 me falaram de situa\u00e7\u00f5es similares. Uma delas era compuls\u00e3o em compras, que tamb\u00e9m \u00e9 muito interessante, porque voc\u00ea n\u00e3o percebe. \u00c9 sempre uma necessidade de \u201ceu preciso ter\u201d. Se eu estudasse Psicologia, gostaria de entender onde, no c\u00e9rebro tem esse mecanismo, que liga essa chave, que vai exatamente no lugar que se torna a doen\u00e7a. \u00c9 exatamente assim que acontece, mas n\u00e3o percebemos.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita que a condi\u00e7\u00e3o social da sua personagem facilita ter esse tipo de v\u00edcio?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o acredito que seja uma quest\u00e3o de classe social. Eu tive testemunho de pessoas que n\u00e3o tinham nada, e o pouco que tinham, tirava-se do dedo, da orelha, de onde fosse, para poder saciar esse prazer. \u00c9 dolorido, n\u00e3o sei onde d\u00f3i mais. Vamos fazer uma an\u00e1lise: Aquele que tem, um dia pode ficar sem nada, mas algu\u00e9m vai enriquecer nesse sentido. A pessoa que n\u00e3o tem, est\u00e1 jogando com quem n\u00e3o tem tamb\u00e9m. N\u00e3o tem diferen\u00e7a. Agora, a compuls\u00e3o por compras n\u00e3o, porque voc\u00ea precisa ter dinheiro, pode ser cart\u00e3o de cr\u00e9dito, uma hora vai estourar. No caso da Silvana, ela consegue mentir muito bem, e s\u00e3o mentiras estapaf\u00fardias, mas ela \u00e9 contada com tanta sabedoria, que todo mundo acredita. O lado compulsivo \u00e9 muito forte.<\/p>\n<p><strong>Quando voc\u00ea fala sobre a personagem, a impress\u00e3o \u00e9 que voc\u00ea estudou bastante esse tipo de comportamento. Como foi a quest\u00e3o do laborat\u00f3rio?<\/strong><\/p>\n<p>Imagine voc\u00ea descobrir que seu pai ou sua m\u00e3e joga? Essas pessoas passam anos jogando, e as fam\u00edlias n\u00e3o sabem de nada, e quando descobrem elas est\u00e3o por baixo. Existe uma pesquisa, claro que eu conversei com muitas pessoas e convivi com elas, mas primeiro fiz quest\u00e3o de serem bem distantes da nossa realidade, da minha, porque \u00e9 a vida de outras pessoas, e n\u00e3o interessa de quem seja. Frequentei jogos saud\u00e1veis, porque acredito que isso deprime um pouco, e mesmo n\u00f3s que nunca soubemos de algu\u00e9m que tivesse numa situa\u00e7\u00e3o assim, ou pelo menos ningu\u00e9m abriu a boca (risos), eu fui at\u00e9 o J.A. (Jogadores An\u00f4nimos) e conheci pessoas que tiveram hist\u00f3rias bem tristes. Na verdade, o que me surpreendeu, foi o semblante delas. Elas s\u00e3o muito tranquilas, porque t\u00eam consci\u00eancia. \u00c9 muito diferente, por exemplo, de uma pessoa que bebe, porque ela muda fisicamente. Quem joga tem consci\u00eancia, mas n\u00e3o tem mudan\u00e7a f\u00edsica, porque dificilmente bebem, e se isso acontecer, elas saem fora do plumo. Foi bom fazer esse trabalho, porque \u00e9 um universo da mentira, e o ator \u00e9 um grande mentiroso. O meu maior desafio \u00e9 entrar em cena e convencer quem est\u00e1 contracenando comigo, que eu estou falando a verdade. Essas pessoas poderiam ganhar um Oscar, porque s\u00e3o maravilhosos como mentirosos. Havia uma pessoa da nossa fam\u00edlia, que quando morreu, descobrimos que ele tinha uma d\u00edvida enorme, porque comprava vinhos e bebia tudo. Ele precisou morrer, para descobrimos.<\/p>\n<p><strong>Alguma vez voc\u00ea j\u00e1 jogou ou teve alguma compuls\u00e3o na vida?<\/strong><\/p>\n<p>Joguei uma vez por lazer, e perdi. N\u00e3o sou uma pessoa compulsiva e nunca me peguei desesperada por alguma coisa. Sempre tive uma medida. Talvez tenha sido pela educa\u00e7\u00e3o que eu tive, porque n\u00f3s t\u00ednhamos que aprender a nos satisfazer com o que t\u00ednhamos. Quando a insatisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 desenvolvida, ela cria uma ansiedade muito grande. Eu tinha que resolver isso. \u00c9 um mal do s\u00e9culo 21, que tem uma insatisfa\u00e7\u00e3o, uma ansiedade, uma necessidade.<\/p>\n<p><strong>Com o avan\u00e7o da tecnologia, os celulares tamb\u00e9m se tornaram uma forma de compuls\u00e3o, principalmente entre os jovens. Como voc\u00ea lida com essa situa\u00e7\u00e3o com a sua filha (Giulia Figueiredo)?<\/strong><\/p>\n<p>V\u00e1rias broncas, mas mais quando era adolescente, quando tinha uns 15, 16 anos. Agora ela faz duas faculdades e n\u00e3o tem tempo. Ela administra melhor, e eu tamb\u00e9m. S\u00f3 o fato de n\u00e3o estar falando tanto ao celular, melhorou muito. Quando estamos no celular, deixamos de criar, de pensar, de ter um movimento de vida. Voc\u00ea acorda pela manh\u00e3, pega o celular, algu\u00e9m diz alguma coisa que voc\u00ea n\u00e3o gostou no grupo do whatsapp e a\u00ed j\u00e1 acabou o seu dia. Essa coisa de grupo, eu n\u00e3o tenho. Eu saio de tudo que \u00e9 grupo, ou deixo uns dois, mas n\u00e3o escrevo nada. \u00c0s vezes, coloco um cora\u00e7\u00e3o, um beijinho e mais nada. A qualidade de vida da gente muda. Qualquer programa ou document\u00e1rio que a gente assista, vai dar exatamente isso: de como te carrega para o lado que n\u00e3o \u00e9 da criatividade, do l\u00fadico, dos sonhos, porque voc\u00ea est\u00e1 se restringido a um celular. \u00c9 claro que ele \u00e9 muito importante, eu n\u00e3o quero viver sem, mas n\u00e3o quero viver como uma escrava. &nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 uma atriz considerada carism\u00e1tica, por isso as pessoas torcem por suas personagens. Voc\u00ea acredita que nesse caso da Silvana, isso ser\u00e1 poss\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p>Quando peguei os cap\u00edtulos, e vi como a Gl\u00f3ria (Perez, escritora) apresentou os personagens, n\u00e3o era para ser pesado, negativo ou denso demais. Ela mostrou de uma forma leve. Quando fizemos as primeiras leituras, percebi que podia fazer de uma maneira que h\u00e1 um tempo n\u00e3o fazia, que \u00e9 com humor, n\u00e3o caricato, mas natural que tivesse algumas brincadeiras na rela\u00e7\u00e3o com o marido, a filha, a empregada. Estamos tratando de um problema social, e muitas pessoas passam por isso. Eu n\u00e3o gostaria de ser dura, e ter que mostrar o lado de maltratar um personagem. Queria colorir, humanizar. Esse \u00e9 o caminho que eu quero tra\u00e7ar para a personagem, para deixar as pessoas envolvidas e solid\u00e1rias. N\u00e3o com pena, mas com entendimento, porque quando se tem pena, n\u00e3o se cuida, e quando entende, se resolve. Deu certo, mas foi um risco que eu corri, mas as pessoas est\u00e3o entendendo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_11606\" aria-describedby=\"caption-attachment-11606\" style=\"width: 203px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/conversa-2-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-11606\" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/conversa-2-1.jpg\" alt=\"\" width=\"203\" height=\"306\" data-id=\"11606\"><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11606\" class=\"wp-caption-text\">\u201cTodas as pessoas com quem eu trabalhei, de alguma maneira, me ajudaram muito a evoluir n\u00e3o como atriz, mas como pessoa&#8230;\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Com esse drama, h\u00e1 algumas possibilidades para a sua personagem. Voc\u00ea est\u00e1 preparada para as viradas que j\u00e1 deram seus primeiros sinais?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei, mas estou me preparando. N\u00f3s gostamos de desafios. Esse \u00e9 o caminho do personagem. Quando chegar nessa hora, eu j\u00e1 estarei bem antenada, e depois voc\u00ea me conta se ficou bom. Se n\u00e3o ficou, n\u00e3o precisa dizer nada (risos).<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o quer dizer que voc\u00ea costuma ler sobre as cr\u00edticas que fazem a respeito dos seus personagens?<\/strong><\/p>\n<p>Algumas coisas sim. Quando as pessoas falam, \u00e9 com carinho e respeito. Eu admiro muito quem escreve com respeito. O problema \u00e9 quando falta. Essa \u00e9 uma novela que todo mundo acatou. As pessoas gostam de ver, \u00e9 humana. N\u00f3s conhecemos os sentimentos, mas quando se v\u00ea parece que \u00e9 novo, porque est\u00e1 dentro de n\u00f3s. O amor entre dois jovens, as guerras, mas \u00e9 bem feito, bem escrito. O povo estava com saudades disso, de sentar e se entreter.<\/p>\n<p><strong>Uma novela como essa, requer muita dedica\u00e7\u00e3o, e n\u00f3s sabemos que voc\u00ea tem outros projetos, como administra o seu tempo?<\/strong><\/p>\n<p>Vamos administrando. A filha j\u00e1 est\u00e1 grande, n\u00e3o precisa de ajuda, e o marido tamb\u00e9m n\u00e3o. A gente d\u00e1 um jeito. Gosto disso. F\u00e9rias de dez dias est\u00e1 bom. Meu tempo \u00e9 o meu trabalho, e eu adoro. Sempre gostei. Fa\u00e7o o poss\u00edvel para as pessoas esquecerem aquilo que eu acabei de fazer, mas sempre tem um tempo grande, n\u00e3o \u00e9 uma seguida da outra.<\/p>\n<p><strong>Sa\u00edram algumas not\u00edcias de que voc\u00ea estava insatisfeita com a personagem. Essas not\u00edcias te incomodam?<\/strong><\/p>\n<p>Eu juro pela minha vida, pela minha fam\u00edlia, adorei esse personagem desde o in\u00edcio. L\u00f3gico que tem personagens que o autor n\u00e3o desenvolve, mas n\u00e3o \u00e9 este o caso. Quando tenho um personagem, penso no que eu tenho que trabalhar, desenvolver, qual a minha fun\u00e7\u00e3o? Fui criada assim. Demorei muito tempo para ser protagonista. Sei bem como \u00e9. Se eu cheguei a ser uma, \u00e9 porque fui provando em cada trabalho, que eu tinha condi\u00e7\u00f5es. Mas isso n\u00e3o significa que eu tenha que ser protagonista em todas as novelas, mas me sinto com uma fun\u00e7\u00e3o muito importante. Desde o in\u00edcio, sempre estive e vou continuar com certeza, muito feliz. Essas not\u00edcias, n\u00e3o sei porque saem, e n\u00e3o posso dizer. Mas n\u00e3o estou insatisfeita mesmo! Pelo contr\u00e1rio. Estou satisfeita com a novela, com os meus amigos, a maioria aqui eu j\u00e1 trabalhei, e com quem eu n\u00e3o trabalhei estou adorando. Estou ao lado de algumas pessoas que h\u00e1 um tempo eu n\u00e3o estava, e estou adorando. Mas j\u00e1 foi esclarecido e a pessoa j\u00e1 sabe que estou satisfeita, que foi um erro, e que n\u00e3o tem nada a ver.<\/p>\n<p><strong>O escritor Manoel Carlos comentou recentemente os motivos pelo qual nunca te deu uma Helena. Como voc\u00ea reagiu ao saber dessa not\u00edcia?<\/strong><\/p>\n<p>Uma vez, ele (Manoel Carlos) me disse que as pessoas queriam que ele me desse uma \u201cHelena\u201d, mas quem seria a antagonista dele?! \u00c9 uma coisa linda! Mas sinceramente eu nunca pensei porque ele nunca me deu. Fui muito feliz com todos os personagens que fiz. Tanto em \u201cP\u00e1ginas da Vida\u201d (2006) e \u201cViver a Vida\u201d (2009), na qual fui indicada ao Emmy. Ent\u00e3o, se eu tivesse feito a Helena, talvez n\u00e3o tivesse sido indicada (risos). Ele sempre foi muito carinhoso comigo. Quando vejo a sinopse, qual o papel mais dif\u00edcil? O da L\u00edlia. O que voc\u00ea fala quando ouve uma coisa dessa? N\u00e3o tenho nem palavras. Eu liguei para ele, e ele disse que foi de cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que foi, e eu sei. Eu me saboreava com os textos, dava um trabalh\u00e3o desgra\u00e7ado, porque chegava um dia antes, mas n\u00e3o interessava. Eu s\u00f3 pensava que essas eram as oportunidades que eu n\u00e3o poderia perder. Fiz quatro novelas do Maneco (Manoel Carlos), e uma melhor que a outra. Textos incr\u00edveis que guardo na minha mem\u00f3ria. E ele ainda me d\u00e1 um presente desse? Tudo que eu padeci valeu a pena na minha vida. E na verdade, n\u00e3o padeci nem um pouco. Eu tenho uma cota de realiza\u00e7\u00f5es e felicidade muito maior do que todos os percal\u00e7os que a vida colocou na minha frente.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 sa\u00edram not\u00edcias de que voc\u00ea est\u00e1 reservada para a novela do Aguinaldo Silva ano que vem. Existe algum detalhe que voc\u00ea possa revelar?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o posso adiantar nada, mas depois a gente conversa. Mas ele ir\u00e1 voltar \u00e0s origens, far\u00e1 um realismo fant\u00e1stico, e quando lembramos de \u201cTieta\u201d (1989), que era colorido, com aqueles personagens, aquela cidadezinha, vamos fazer algo que vai alegrar muito o p\u00fablico. O que eu sei \u00e9 que farei uma vil\u00e3 chamada Valentina. Adorei o nome, mas a hist\u00f3ria mesmo, acho que s\u00f3 vou saber quando acabar aqui. Todas as pessoas com quem eu trabalhei, de alguma maneira, me ajudaram muito a evoluir n\u00e3o como atriz, mas como pessoa. Por conta dos textos, da postura. Nunca havia trabalhado com a Gl\u00f3ria, e estou amando. Ela trabalha junto, agarra, e \u00e9 muito interessante. \u00c9 como se ela estivesse presente. \u00c9 carinhosa, \u00e9 humana, ajuda no crescimento profissional do lado humano, como mulher. Cresci como mulher, fazendo os textos do Maneco, do Aguinaldo, do Ricardo Linhares, e agora da Gl\u00f3ria. Do pr\u00f3prio Gilberto (Braga, autor de \u201cCorpo a Corpo\u201d), que eu fiz algumas peruas, mas que valeu muito a pena. Eu tenho um carinho imenso pelo Aguinaldo, uma gratid\u00e3o, porque ele peitou mesmo eu fazer o Pereir\u00e3o (\u201cFina Estampa\u201d, 2011) e eu jamais vou me esquecer. O que ele pedir, vou cega! Algumas pessoas eu abro o olho, mas com ele n\u00e3o (risos).<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acabou se tornando uma atriz muito querida pelos autores. Essa maturidade ajudou a ter grandes pap\u00e9is&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que tem autores que eu me dei muito bem. Foi muito mais um olhar deles em rela\u00e7\u00e3o a mim, do que eu querer mostrar servi\u00e7o, sabe?! L\u00f3gico que todas as vezes que eu tinha as oportunidades, n\u00e3o deixei escapar. E de fato, comecei a procurar mesmo, para as pessoas olharem para mim de outra forma. Tanto que eu demorei muito para ter um papel mais significativo que foi a Sheila de \u201cHist\u00f3ria de Amor\u201d (1995), porque todas me viam de uma forma divertida, eu amo, e ontem enquanto eu estava fazendo uma cena, estava com muita saudade, porque tamb\u00e9m fazer sofredora, n\u00e9?! De alguma maneira, eu tinha a necessidade grande de mostrar um lado, que at\u00e9 eu mesma gostaria de conhecer. Quando eu tive essa oportunidade com o Maneco, as coisas vieram muito relaxadas, sem eu querer mostrar muito servi\u00e7o, mas ele sempre me dando suporte, e bons personagens. Eu me dei muito bem com o Maneco, com Aguinaldo e estou adorando trabalhar com a Gl\u00f3ria. E outros que trabalhei tamb\u00e9m, que n\u00e3o repeti tanto, mas me dei muito bem, como o Ricardo e o Gilberto. Foram autores que fizeram a minha hist\u00f3ria. Na verdade, devo muito a eles. Com o Aguinaldo fiz cinco novelas, com o Maneco foram quatro. Ent\u00e3o, \u00e9 uma hist\u00f3ria e se formos contar&#8230;<\/p>\n<p><strong>N\u00f3s sabemos que voc\u00ea \u00e9 uma atriz que gosta de qualquer papel, j\u00e1 fez uma mulher mais humilde, mas voc\u00ea sempre recebe personagens mais elegantes&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei de onde vem isso (risos). Quando comecei minha carreira, eu fazia personagens bem histri\u00f4nicos. O meu primeiro papel elegante mesmo foi em \u201cViver a Vida\u201d, que n\u00e3o tinha nada de elegante, porque era uma mulher amargurada, que ficava olhando o guarda-roupa da irm\u00e3. E n\u00e3o tinha nada do que ela gostaria de ter. Claro que ela era uma ex-modelo, eu tenho porte, altura. Me vestiam elegantemente, mas a partir da\u00ed j\u00e1 s\u00e3o sete anos. Ent\u00e3o, de alguma maneira, todo mundo me v\u00ea elegante. Antes, fiz em \u201cLa\u00e7os de Fam\u00edlia\u201d (2000), uma mulher com aquela roupinha o tempo inteiro, aquela ga\u00facha com aquele casaquinho de frio&#8230; Em \u201cA Favorita\u201d (2008), era uma roupa horrorosa, mas eu amava. Eu sabia que o figurino tinha muita credibilidade. E mesmo quando ela melhorava, e largava o traste do marido, come\u00e7ava a se vestir melhor, mas dentro das caracter\u00edsticas da personagem. Eu adorava!<\/p>\n<p><strong>As mudan\u00e7as f\u00edsicas fazem parte do personagem, e para a Silvana voc\u00ea cortou e escureceu os cabelos. Voc\u00ea gosta dessas transforma\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Gostei muito, porque ela \u00e9 uma arquiteta, uma mulher que sa\u00ed pela manh\u00e3, e s\u00f3 volta \u00e0 noite. Isso porque ela ainda vai jogar. A primeira coisa que pensei \u00e9 que se eu tivesse um cabelo, toda vez que fosse para fazer as externas, ia estar armado, s\u00f3 que ela \u00e9 uma mulher que tem cotidiano. Imagine uma cena \u00e0 noite, ela chegando do jogo, toda composta? \u00c9 algo que eu n\u00e3o consigo visualizar num personagem. N\u00e3o gosto de vestir o figurino, mas o personagem. Tem que ter credibilidade, e se isso n\u00e3o acontecer, \u00e9 hora de questionar. Pensando nisso e conversando com a Nat\u00e1lia (figurinista), que \u00e9 \u00f3tima, e n\u00f3s jogamos um bol\u00e3o, tudo fica mais f\u00e1cil quando a pessoa est\u00e1 l\u00e1, te ouvindo e vice-versa. Falei que precis\u00e1vamos ter praticidade, por isso, decidimos cortar os cabelos, porque se fiz\u00e9ssemos de outro jeito, n\u00e3o interessaria e ela estaria sempre igual. Ela pode chegar em casa derrotada, ca\u00edda, sem maquiagem e batom&#8230; Quando cortei, ficou bom, ficou \u00f3timo. A Silvana \u00e9 uma pessoa solar, de bem com a vida, usa sempre muito preto e branco, e colorido tamb\u00e9m. Ela tem muitas paletas de cores, para n\u00e3o ficar muito sombrio. Conhe\u00e7o muitas pessoas que trabalham nessa \u00e1rea e s\u00e3o coloridas. Foi o que n\u00f3s buscamos.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 o tipo de profissional que gosta de conversar com a figurinista? Porque algumas atrizes vestem o que mandam.<\/strong><\/p>\n<p>Eu respeito muito a opini\u00e3o da pessoa que est\u00e1 fazendo o figurino. Ela vai te apresentar, mas voc\u00ea tem a personagem criada na sua cabe\u00e7a. Se ela n\u00e3o te ouvir, vai ser dif\u00edcil, porque vira teimosia com teimosia. Eu dificilmente tenho problemas. Vamos conversando e acertando. Um dia coloquei uma roupa toda combinando, olhei no espelho e disse que n\u00e3o estava bom. Ela concordou, mudamos e ficou perfeito. Assim vamos nos alinhando. Todos os dias que entro em cena, \u00e9 com confian\u00e7a. Quando chego, eu olho as roupas, conversamos e ela j\u00e1 me entende. N\u00e3o me desgasto com nada, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o perco tempo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 considerada uma das grandes damas da dramaturgia. Esses r\u00f3tulos te incomodam? A Fernanda (Montenegro) deu uma entrevista e comentou que n\u00e3o gosta desses t\u00edtulos&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Quem me dera ter esse r\u00f3tulo de grande dama. N\u00e3o sou dama de nada, nem da noite (risos). Tenho muito orgulho quando as pessoas chegam at\u00e9 a mim, e falam algumas coisas incr\u00edveis, lindas, seja onde eu estiver, sei l\u00e1, saindo do cinema. At\u00e9 pessoas dentro e fora do nosso pa\u00eds. Isso, claro, me deixa envaidecida. Fico feliz porque \u00e9 um reconhecimento do meu trabalho, mas r\u00f3tulo n\u00e3o me vejo. Outro dia vi uma reportagem com a Laura Cardoso, em que ela falava que tinha muito para fazer. \u00c9 verdade, porque n\u00f3s, e eu n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum amigo, ator ou atriz, que sente ou fale que daqui dois anos, vai se aposentar. Isso n\u00e3o existe. N\u00f3s estamos sempre buscando desafios. O bom, n\u00e3o do r\u00f3tulo, mas quando olho para tr\u00e1s, tudo aquilo que eu queria, aconteceu. Mas n\u00e3o significa que ser\u00e1 o melhor, sempre. Nunca vou me julgar. \u00c9 chato n\u00e9?!<\/p>\n<p><strong>N\u00f3s sabemos que voc\u00ea n\u00e3o resume a sua carreira apenas aos personagens, mas tamb\u00e9m tem feito trabalhos como produtora. Como fica essa L\u00edlia multifacetada?<\/strong><\/p>\n<p>Continua. Eu vou fazer \u201cMaria do Carit\u00f3\u201d no cinema, e se Deus quiser vai dar tudo certo, quer dizer, j\u00e1 est\u00e1 dando. Temos o livro do Marcelo Rubens Paiva \u201cEu Ainda Estou Aqui\u201d, que eu tamb\u00e9m vou fazer no teatro. Interpretarei a m\u00e3e do autor, e eu a conheci, porque fiz \u201cFeliz Ano Velho\u201d, em 1983. Conheci a fam\u00edlia, dona Eunice, todo mundo. Eu tenho o Marcelo como uma pessoa que eu amo de paix\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 pela pessoa que ele \u00e9, mas pelo talento, pelo que ele escreve e por tudo. Ele \u00e9 uma pessoa que se tornou um olhar, e n\u00f3s precisamos ler o Marcelo, ouvi-lo. \u00c9 uma obriga\u00e7\u00e3o. Quando eu li o livro, me identifiquei muito com aquela situa\u00e7\u00e3o, porque eu vivi. Queria fazer uma pe\u00e7a que falasse de mem\u00f3ria, e ela est\u00e1 com Alzheimer. Queremos contar essa hist\u00f3ria, que tamb\u00e9m \u00e9 do Brasil.<\/p>\n<p><strong>Esse filme que voc\u00ea comentou \u201cMaria do Carit\u00f3\u201d, ser\u00e1 algo parecido com \u201cAlto da Compadecida\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, porque \u00e9 bem diferente do Ariano Suassuna, mas o Newton (Moreno, autor) que \u00e9 maravilhoso, busca uma brasilidade, que faz tempo que o cinema brasileiro n\u00e3o apresenta. \u00c9 isso que n\u00f3s queremos. J\u00e1 demos in\u00edcio ao projeto.<\/p>\n<p><em>texto: Ester Jacopetti<\/em><\/p>\n<p><em>fotos: Raquel Cunha\/TV Globo e Maur\u00edcio Fidalgo\/TV Globo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em sua melhor fase, atriz conduz seus 35 anos de atua\u00e7\u00e3o com muita destreza e perseveran\u00e7a; atualmente, vive uma das protagonistas de \u201cA For\u00e7a do Querer\u201d, novela da Globo &nbsp;L\u00edlia Cabral \u00e9 uma mulher reservada. E apesar disso, consegue transparecer intensidade, confian\u00e7a e tamb\u00e9m um lado divertido. 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