Entrevista especial com Bruna Marquezine

João Cota/TV Globo

“Estou numa fase de experimentações e, pra ser bem sincera, não acompanho a repercussão de quase nada! Não me interessa! Já passei pela fase onde eu me importava muito”

Tudo que ela faz vira notícia e, apesar de ter crescido diante das câmeras, Bruna Marquezine precisou de muita terapia, meditação, e até momentos solitários, para construir sua personalidade, sem deixar que o mundo das celebridades e glamourização a transformassem numa pessoa vazia e fútil. Ao longo dos anos foram diversas entrevistas, para reconhecer uma jovem mulher, como ela mesma se intitula, mais madura, segura de si, e com personalidade. “Estou numa fase de experimentações, e pra ser bem sincera, não acompanho a repercussão de quase nada! Estou falando de coração aberto. Não me interessa! Já passei pela fase onde eu me importava muito. Quanto mais prestamos atenção nos outros, mais nos limitamos, e nos distanciamos de quem somos”, enfatizou a atriz. Considerada um dos nomes mais cobiçados na TV, Bruna começou o ano diante de um grande desafio: interpretar a princesa Catarina em “Deus Salve o Rei”, sua primeira grande vilã. “A Catarina não é um pouco malvada, ela é malvada de verdade. Existe uma entrega e uma energia muito grande, porque a personagem me possibilita criar e explorar novos lugares. Ela tem uma postura diferente, é uma mulher dissimulada, que sabe a hora de agir, de falar, muito determinada, calculista, e sabe muito bem o que quer. Nunca imaginei que fosse tão difícil se permitir sentir tanto ódio, raiva, deixar as emoções chegarem nesse lugar de desprezo. É cansativo”, comentou Bruna, que no início do projeto, não se sentia segura para interpretá-la, mas que, ao longo do processo, vem aprendendo com a personagem. Nesta entrevista especial, em comemoração aos 15 anos da Revista Regional, você terá a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre essa leonina. Enjoy!

REVISTA REGIONAL: Em “Deus Salve o Rei”, você interpreta a princesa Catarina, sucessora ao trono, com ambiciosos planos para o reino. Essa é sua primeira vilã na dramaturgia.

BRUNA MARQUEZINE: Nunca pensei que seria tão difícil, mas também muito divertido, e cada dia é uma conquista. No final do trabalho, é uma sensação de muito prazer, de realização. É cansativo e exaustivo fazer uma vilã, principalmente numa história que não é o nosso dia a dia, mas de época. Nós temos permissão pra irmos um pouco além. A Catarina não é um pouco malvada, ela é malvada de verdade. Existe uma entrega e uma energia muito grande, porque a personagem me possibilita criar e explorar novos lugares. Ela tem uma postura diferente, é uma mulher dissimulada, que sabe a hora de agir, de falar, muito determinada, calculista, e sabe muito bem o que quer. Com cada pessoa, ela tem um comportamento, pra mim como atriz é muito rico, porque com a personagem eu tenho possibilidades de criar facetas diferentes. Se o elenco não estiver bem alinhado, desde a forma de falar, de estar, de ser, o público não vai acreditar, e eles precisam embarcar nessa história. Desde o início houve uma preocupação muito grande, de criar de uma forma consistente. Imagine como foi nossa preparação antes de ver a cidade cenográfica? Antes de ver os efeitos especiais? Era difícil embarcar nesse universo medieval, mas tínhamos uma missão ainda maior, que era acreditar e fazer com o que o público acreditasse também. Tenho muito orgulho em fazê-lo, porque é bonito ver a emissora inovando, e fazendo o que nunca foi realizado. É emocionante!

Mas sua trama é baseada só em maldades?

A nossa história até tem humor, tem pouquíssimo, na verdade, mas está nas situações, ao redor da Catarina, mas de fato ela é uma mulher má. Pra fazer qualquer personagem, é necessário ter distanciamento. O processo se torna complicado, porque começa a misturar a sua vida, com a do personagem, nesse caso é bem difícil, porque estamos contando uma história de época, dessa mulher cruel. Nunca imaginei que fosse tão difícil se permitir sentir tanto ódio, raiva, deixar as emoções chegarem nesse lugar de desprezo. É cansativo. A Catarina não gosta das pessoas, ela tem preguiça das pessoas.

Essa é a primeira vez que você contracena com a Marina Ruy Barbosa, como tem sido essa troca entre vocês, já que começaram praticamente juntas?

Nós tivemos um mês de preparação praticamente com todo o elenco. Foi bom e importante pra criação de todos os personagens, para conhecermos esse universo. É a primeira vez que fazemos uma novela medieval, não é algo que estamos acostumados, e pra fazer de forma crível, que todas aquelas pessoas viveram naquela época, foi necessária uma entrega muito grande. É doido, porque começamos (Bruna e Marina) praticamente juntas, na mesma época, e nunca nos cruzamos, o que é muito louco, porque trabalhamos na mesma emissora durante muito tempo. Essa será nossa primeira vez. O embate das duas não é algo estabelecido de cara, mas mais pro meio da história, e não é muito comum e nem óbvio.

Em relação ao figurino da sua personagem, que está incrível, você sentiu alguma dificuldade por ser de época? É uma roupa muito pesada?

É um figurino que se transforma muito, mas não é desconfortável. A base é superleve, transforma num vestido, mas se você colocar uma capa por cima, vira outra coisa. Não é um figurino complicado, de fato são roupas mais encorpadas, mas acredito que ajuda na construção do personagem, porque as pessoas naquela época não tinham roupas em que elas se movimentavam tanto. Uma vez que você coloca o figurino, a postura muda.

Até chegar a Catarina, foram muitas personagens. Você acredita que de certa forma, as mocinhas te ajudaram a construir essa vilã?

Tudo tem seu momento certo! Dividi com o Fabrício (Mamberti, diretor artístico) e alguns diretores, que eu não me sentia capaz para dar vida a Catarina, porque é um papel muito difícil, desafiador, mas como uma pessoa que acredita muito em Deus, a palavra diz que: ‘Deus não dá uma cruz na qual não somos capazes de carregar’. Se de certa forma fui abençoada com esse papel, vou me dedicar ao máximo, vou doar tudo o que eu tenho pra ela. Esse papel veio num momento especial na minha carreira, em que eu estou mais madura, como uma jovem mulher. Estou com muita sede de trabalhar.  

Essa nova fase em que você se diz mais madura, o que mudou na Bruna?

Cresci nesse meio, e todos passamos por muitas transformações de pensamentos, comportamentos, maneira de se vestir… A diferença é que me acompanharam. É muito doido, porque as pessoas se sentem no direito de cobrar. Graças a Deus, todos os dias acordo um pouco diferente. Sou muito jovem, tenho 22 anos, e estou justamente na fase de descoberta, de autoconhecimento. É o que eu tenho buscado na minha vida. Estar cada vez mais conectada com o meu lado espiritual, cuidando da minha alma, descobrindo quem sou como imagem para outras pessoas, o que represento na minha arte, quem sou no meu trabalho. As pessoas me conhecem desde pequenininha, elas acompanharam a minha transformação, e às vezes é cruel você ser cobrada, por causa desse mundo doido. Eu tenho apenas 22 anos de idade, e tenho que me permitir ter essa idade.

O que tem te ajudado em relação a essas descobertas, esse amadurecimento que vem acontecendo?

Independentemente de religião, sou uma pessoa de muita fé. É muito difícil evoluir como ser humano, sem ter momentos solitários, fazer meditações, momentos de reflexões, sem uma boa análise e terapia. Eu tenho buscado cuidar de mim de verdade. Vivemos num momento de muitas aparências, e focamos nisso. Neste momento estou cuidando do que realmente é importante e válido.

Você é uma atriz jovem, mas sempre se joga em seus personagens. Nos primeiros meses de novela vimos um tom de voz diferente, um olhar, uma postura. Como tem sido essa interação com o Constantino (personagem do ator português José Fidalgo)?

Desde quando começamos a filmar até agora, a Catarina já mudou muito, e nós estamos descobrindo durante o processo detalhes sobre o personagem. Fico feliz com o retorno, e acho muito legal quando as pessoas acreditam num casal, porque é o que queremos, contar uma história que toque o telespectador, de alguma maneira. O que acontece com esses dois personagens é um encontro muito potente. Eles são parecidos, porque tem obsessão pelo poder, querem conquistar mais, se unem por essa atração, e se tornam parceiros, aliados nessa caminhada. É um relacionamento baseado numa paixão, numa entrega imensa, mas também na insegurança, porque os dois são muito perigosos. A Catarina sabe que a qualquer momento, o Constantino pode traí-la. E ele sente que ela pode mandar matá-lo. É uma relação muito diferente do que estamos acostumados a ver nas novelas.

Mesmo ela sendo uma vilã, você consegue traçar um paralelo com a sua personalidade?

Sempre vai existir, mas pela primeira vez, me propus a criar um personagem do zero, sem ter que emprestar nada pra ele, e não identificar minhas características nele. O primeiro passo, quando recebemos um papel é: O que eu tenho em comum? Porque queremos caminhar pelo mais fácil, pra não sofrer tanto, e a Catarina me tirou totalmente da minha zona de conforto, e sair é difícil. Entender que eu só empresto o meu corpo como instrumento para dar vida a essa mulher é difícil. Trouxemos um debate, que é a ambição que tem uma conotação negativa. A personagem expõe logo na primeira fase. Mas a ambição não é ruim, mas algo que te motiva a sair do lugar.

No início, as pessoas compararam a novela com o seriado “Game of Thrones”, você acha que tem alguma similaridade?

Existe essa comparação, porque é o mesmo universo. Nós ficamos lisonjeados, porque fomos comparados com um projeto de muita qualidade. Os personagens não foram comparados, mas sim os figurinos, a caracterização. É muito superficial, porque de fato, nós contamos uma história diferente, num horário diferente, com a leveza da comédia. O Daniel (Adjafre, escritor) tem uma maneira de escrever muito inteligente, onde o drama pra chegar na comédia tem um porque, não é gratuito. No início do projeto a direção passou que não teríamos referências, criamos somente baseado no texto do Daniel, que é rico de informações. Queríamos que a nossa novela tivesse identidade, mas é óbvio que no meio do processo, buscamos algumas referências só pra enriquecer o trabalho. Eu assisti “Game” durante a preparação, gosto muito do estilo de interpretação dos atores, mas é uma série muito mais pesada, do que estamos fazendo.

Você está interpretando uma vilã, mas ela é uma princesa, como é fazer esse tipo de personagem?

Já me fizeram essa pergunta, e eu fiquei refletindo, porque perguntaram se quando eu era criança sonhava em ser uma princesa. Pelo que me lembro, não. Sempre me interessei pelas histórias de aventuras, do que de princesa. Claro que eu tinha uma princesa preferida quando eu era criança, adorava fantasia, mas não me visualizei como uma princesa, e até hoje não, vivendo a Catarina menos ainda, eu não teria paciência, não conseguiria. No início da construção da Catarina, tínhamos um olhar um pouco mais humano dela, depois entendemos que nessa história, era mais interessante que ela fosse de fato cruel, vilã mesmo. Ela tem muitas qualidades, é uma mulher ambiciosa, como eu disse, mas nós temos uma visão meio distorcida do que é ambição, porque precisamos dela na vida, pra chegarmos a algum lugar. O problema é como você faz pra conseguir o que quer. Ela sonha grande, e tem planos para o seu reino. É uma mulher sedutora, focada, determinada e muito forte.

Sergio Zalis/TV Globo

Bruna interpretando a princesa Catarina de “Deus Salve o Rei”

Ao longo do tempo você foi criando personalidade em relação à moda, e algumas pessoas fizeram alguns comentários sobre a sua maneira de se vestir. Como você avalia esses comentários?

Se nos prendermos a todas as críticas, seja elas positivas ou negativas, nos afastamos do que de fato somos. Se dermos ouvido demais a tudo que as pessoas dizem a nosso respeito, começamos a construir uma imagem a partir do olhar do outro, e não de quem somos. Entendi há pouco tempo, graças ao meu terapeuta, e muitas orações, que preciso buscar dentro de mim, de fato quem eu sou, e o que me agrada. A moda é uma consequência do meu trabalho, mas não é uma obrigação e sim consequência. Comecei a me divertir com a moda, porque é arte e me fascina. Vejo a moda como uma maneira de me expressar, e reflete quem eu sou. É uma maneira de me descobrir, gosto de ter percepções diferentes, de pensar que existe uma função maior. Enquanto todo mundo está na zona de conforto de “eu vou usar isso porque tem aceitação maior”, deixamos de inspirar outras pessoas. Estamos numa época em que todo mundo na sociedade tem alguém com voz para representá-la de todas as maneiras. Não me importo com o que vão dizer, se eu souber que alguém se sentiu um pouco mais livre, para usar o que deu na telha. As únicas críticas, que de fato são importantes, são ligadas ao meu trabalho, presto atenção, porque sempre temos que melhorar. Ou críticas que venham de pessoas próximas, ou que trabalhem comigo. Sou feliz por estar onde estou, por ter conquistado tudo, mas sou muito nova. Amo trabalhar, então vou trabalhar muito, se Deus quiser e me permitir. Não sei onde quero chegar, mas quero continuar o meu caminho. Estou numa fase de experimentações e, pra ser bem sincera, não acompanho a repercussão de quase nada! Estou falando de coração aberto! Não me interessa! Já passei pela fase onde eu me importava muito. Quando sei, é por uma ou outra pessoa. Não me visto para agradar as pessoas! Existe alguma regra, em que eu não possa usar jaqueta de couro num casamento? Por que não pode? Por que não podemos vestir o que nós queremos? Por que temos que vestir o que vai agradar a maioria? Por que necessariamente ir de longo e prender os cabelos? Amo jaqueta de couro! Quanto mais prestamos atenção na opinião dos outros, mais nos limitamos, e nos distanciamos de quem somos. Uso jaqueta de couro quando eu quero. Eu não consigo entender, é muito louco as pessoas acharem que podem opinar sobre quem você é, e como você quer se expressar.

O fato de você ter crescido diante das câmeras, de certa forma, te incomodou em algum momento quando você voltou pra dentro de si? Chegou a te fazer repensar sobre a sua carreira?

Aconteceu um momento, mas não foi recente, foi quando eu era mais nova, tinha uns 18 anos quando interpretei a Lurdinha (‘Salve Jorge’, 2012). O choque foi grande, porque não me tornei mulher, eu tinha 18 anos, era uma menina, mas como a personagem tinha um apelo sexual um pouco maior, as pessoas começaram a me olhar diferente. Comecei a receber críticas, comentários e pela primeira vez começaram a inventar notícias da minha vida. Da noite pro dia, você dorme criança, estreia uma novela, e do nada falam que você está namorando uma pessoa que você não está. Nesse momento eu repensei, porque as consequências dessa profissão me assustaram, mas com ajuda de profissionais, da minha equipe que me ama muito e me protege, da minha família, fé, fui entendendo e descobrindo a minha maneira de lidar com isso. No final das contas, quando você trabalha com o que ama, sente que está fazendo o que tem que ser feito. O objetivo maior é seguir em frente.

Notamos que você está em ótima forma, mais magra, e, claro, que as suas postagens nas redes sociais, praticando muay thai, têm sido bastante comentadas.

Faço metade de treino funcional, e a outra de muay thai. Eu amo lutar, porque normalmente quando você está praticando exercício físico, fica focada na dor, no sofrimento, no agachamento, em levantar peso, é chato! E o muay thai é sempre algo novo. Consigo me concentrar e ficar horas treinando, e com prazer, é uma delícia. Existem dias que eu não consigo treinar mesmo, preciso escutar o meu corpo, e não treinar. Mas quando fico muito tempo, parece que o meu dia não rende. Normalmente acontece quando viajo por muito tempo, ou então quando estou de férias. Parece que tudo piora e começo a sentir falta. Procuro me cuidar sempre, claro que quando estou trabalhando fica mais difícil, por causa da rotina doida, não consigo treinar sempre. Mas quando estou de férias, consigo me alimentar melhor, nos horários certos, me exercitar com mais frequência.

Apesar de você se alimentar muito bem, normalmente o que te tira da dieta?

Eu amo comer, posso comer o dia inteiro, gosto de tudo, menos carne e frango. O que me faz sair da dieta são as companhias. Não consigo estar com os amigos, e não pensar em tomar um vinho, comer uma pizza… Mas eu tento manter um equilíbrio. Voltei na nutricionista, e começamos uma dieta nova, um detox pós-férias, porque eu estava comendo de tudo, mas é bem tranquilo, é mais pensando numa alimentação saudável. Eu tornei-me vegetariana tem mais ou menos um ano, e evito algumas coisas, sou alérgica, dependendo de onde eu vou, levo a minha marmita.

Em algum momento você pensou em investir na carreira internacional?

Meus planos são pra trabalhar, porque eu preciso e me faz bem, seja em qualquer lugar do planeta. Quanto a trabalhar fora, desde que eu receba uma boa proposta, um personagem que me encante, vou para qualquer canto do mundo. Eu tenho vontade de aprender, conhecer profissionais novos. Quero viver novas experiências, me sentir desafiada, aqui ou em qualquer outro lugar.

(entrevista e texto: ESTER JACOPETTI)

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