Bianca Bin: de Itu para o Brasil

“Se recebemos desamor, violência e ódio, não podemos devolver com o mesmo sentimento, porque eles só serão multiplicados”

Sua personagem é de origem simples, é romântica, tem um bom coração, é doce, e é gentil, mas calma, as comparações param por aí. Interpretando Clara, em “O Outro Lado do Paraíso”, sua primeira protagonista no horário nobre, Bianca Bin conta durante nossa entrevista, que essa é uma personagem complexa, principalmente por abordar o tema violência contra a mulher, aliás, uma das primeiras cenas da atriz chocou por sua intensidade. “Estou vivendo o dia a dia, estou treinando com a Clara, porque é uma história dramática, densa, difícil. É verdadeiramente esburacar e cavar coisas dentro de mim, que não são tão simples de lidar. São emoções que permeiam o tempo todo com a vida pessoal e profissional. Para isso, é necessário equilíbrio, e saber separar as coisas, levar o trabalho com leveza. É o que estou treinando”. Assim como Clara, Bianca também saiu cedo de casa, e teve que lidar com saudade de morar longe da família, especialmente quando se mudou de Itu para o Rio de Janeiro. “Quando eu me distanciei, com quase 500 quilômetros de diferença, ficou mais chocante. Foi quando me senti completamente sozinha! E eu sou uma pessoa muito dependente emocionalmente, muito carente. Eu era, porque estou trabalhando isso em mim”, brinca a atriz. Espiritualizada, Bianca acredita numa força maior que rege o universo, e que essa força é uma entidade feminina. “A humanidade inteira veio do útero de uma mulher. Nós viemos dessa terra. Precisamos curar essa relação com o feminino, tanto as mulheres como os homens. Nós temos que devolver o que podemos oferecer de melhor para esse mundo. Estou a serviço, de passagem, tenho plena consciência disso, aliás, é a única certeza que eu tenho, é que isso aqui vai acabar, então, quero passar da melhor forma possível”, completa. Nesta entrevista exclusiva, saiba mais sobre a trajetória da atriz, que com certeza levantará muitas questões através de sua personagem.

REVISTA REGIONAL: Em ‘O Outro Lado do Paraíso”, você interpreta Clara, uma mocinha no horário nobre. De certa forma, você se sente pressionada?

BIANCA BIN: Não! Eu não aceito rótulos, porque não me ajuda em nada, pelo contrário, só causa cobranças e pressões. Já sou muito autocrítica e me pressiono o suficiente para aceitar mais essa que me impõem. Esse é mais um grande desafio, porque estamos falando de um tema muito delicado, que é a violência contra a mulher; o que me move e me toca profundamente. Sinto-me honrada em ter a oportunidade de falar sobre esse assunto. A novela tem um papel social muito importante também.  A maior dificuldade está aí, porque eu não estou na minha zona de conforto, estou lidando com um tema que nunca tratei antes, e mexe muito comigo. Preciso me distanciar, manter a Bianca feminista, a mulher empoderada que eu estou tentando me tornar, da Clara, uma menina imatura, ingênua, frágil, romântica, lúdica e completamente sonhadora. Manter essa distância é difícil.

Pela descrição, você se considera uma mulher completamente diferente da sua personagem?

Eu acho que sim! Cresci muito cedo, saí de casa com 16 anos, para estudar teatro em São Paulo. Uma menina do Interior, completamente ‘jeca do meio do mato’. Fui pra cidade grande, morar longe da minha família, por isso, tive que crescer muito rápido, precocemente, mas isso vai acontecer com a minha personagem também. O desenho dela é lindo, porque ela sai de uma doçura, dessa amabilidade, da emoção, para razão, compreensão, uma consciência maior das coisas.

Recordando esse momento em que você saiu da casa dos seus pais, quais foram as principais dificuldades que você enfrentou sozinha, numa cidade grande?

Quando eu passei a morar no Rio de Janeiro, minha maior dificuldade foi ficar muito longe da minha família, porque estando em São Paulo, a cidade ficava a cem quilômetros. Todo final de semana eu voltava para lá (Itu). Ia lá pra resolver algumas coisas, lavar roupas, trazer comida congelada da mamãe (risos). Você sabe como é mãe, né?! Mas quando eu me distanciei, com quase 500 quilômetros de diferença, ficou mais chocante. Foi quando me senti completamente sozinha! E eu sou uma pessoa muito dependente emocionalmente, muito carente. Eu era, porque estou trabalhando isso em mim (risos).

Antes de aceitar o convite para fazer essa personagem, você estava reservada para fazer “Novo Mundo”, como você ficou sabendo que estava sendo escalada para essa novela?

Pois é, eu iria interpretar a Domitila (Agatha Moreira), a amante de Dom Pedro (Caio Castro). Estava amimadíssima para trabalhar com o Vinícius Coimbra (diretor artístico), porque seria o nosso primeiro trabalho juntos. Mas esses remanejamentos acontecem. Tiraram-me de lá e me colocaram nessa novela, mas também estou grata, porque é uma personagem muito importante.

Em “Etâ Mundo Bom”, você também viveu uma mocinha, você acredita que esse trabalho também tenha contribuído para viver a Clara?

Com certeza! Mas o Walcyr (Carrasco, autor das duas novelas) vai poder te responder melhor do que eu, mas acredito que trabalho chama trabalho.

Falando sobre o Walcyr, ele elogiou bastante o seu trabalho e acredita que a novela será um grande sucesso. O que você espera?

Que bom! Não espero resultado, estou focada no caminho, no dia a dia, não estou pensando muito no hoje. A minha filosofia tem sido essa, tanto para a vida quanto para o trabalho. Sou uma pessoa muito ansiosa, imperativa, esse tipo de pensamento me deixa ainda mais agoniada, angustiada. É um buraco sem volta, e se eu me enfiar nele, vou precisar de ajuda para sair. Procuro olhar para o agora e viver o hoje!

Você iniciou sua carreira em 2009, e desde então não parou mais, você já comentou que o universo conspira a favor…

Eu penso o seguinte: tantos amigos talentosos parados, em casa, ou tendo que se produzir fazendo teatro de guerrilha, que é muito duro. Nossa profissão é uma escolha difícil. Eu me considero muito privilegiada por ter esse espaço e estar emendando um trabalho no outro. Eu tenho muitos amigos competentes e tão talentosos quanto eu, ou mais até, que não têm essa oportunidade. Por isso, me sinto uma grande sortuda.

Durante esse tempo, você dividiu bem os seus personagens entre mocinha e vilã, mas de repente tem vontade de fazer um personagem cômico, por exemplo?

Tenho muito, mas pra tudo tem o seu tempo. Estou acolhendo o que me é dado (risos), o que é oferecido. Existe o tempo certo pra tudo. Minha carreira está só no começo. Os melhores personagens da minha vida, acredito que eu só irei fazê-los depois dos 30 anos. Estou vivendo o dia a dia, estou treinando com a Clara, porque é uma história dramática, densa, difícil. É verdadeiramente esburacar e cavar coisas dentro de mim, que não são tão simples de lidar. São emoções que permeiam o tempo todo com a vida pessoal e profissional. Para isso, é necessário equilíbrio, e saber separar as coisas, levar o trabalho com leveza. É o que estou treinando.

Porque você acredita que os grandes personagens só serão vividos após os 30 anos?

Eu acredito que uma grande carreira, falando dramaticamente sobre os personagens mais densos, aprofundados, são os mais maduros. Quanto mais o ser humano evolui, mais a ator evolui também. Eles estão interligados. Depois que eu me tornar mãe, vou melhorar muito, enquanto atriz. Conforme eu for envelhecendo também. Acredito que seja como o vinho.

E já que você comentou sobre maternidade, esse é um dos seus planos?

Não, ainda não, porque eu tenho muito trabalho, mas quero ser mãe de fato. Quero criar o meu filho, e estar presente, mas nesse momento eu não posso.

A novela já mostrou cenas de violência, inclusive a primeira cena dela na noite de lua de mel foi bastante impactante. Essas cenas te pegaram muito?

O que mais me pega é fazer as cenas de violência. Estou tentando treinar, eu, Bianca, levar com mais leveza diariamente, sem o peso de ser protagonista das nove. As pessoas falam sobre rótulo, e eu tampo o ouvido. Recuso-me a abraçar isso, porque é muita pressão, de fato! Desde que eu voltei de viagem não parei, e nós só temos o domingo pra descansar, e é um descanso entre aspas, o trabalho não para, porque em casa continuamos estudando, decupando. É muito frenético, uma maratona. Estou malhando pra dar conta, tentando ganhar uma massa muscular, porque toda vez que começo um trabalho, vou emagrecendo.

A novela aborda a questão da lei do retorno, de que tudo que vai, volta. Você também acredita nessas possibilidades?

Com certeza! Sou muito mística e espiritualizada. Acredito numa força maior que rege o universo.  Pra mim, é uma entidade feminina (risos). É a nossa grande mãe, que é o amor de onde nós viemos. A humanidade inteira veio do útero de uma mulher. Nós viemos dessa terra. Precisamos curar essa relação com o feminino, tanto as mulheres como os homens. Maltratamos uns aos outros, e a terra também, não cuidamos do que é nosso, de onde viemos. A força está a nosso favor. Às vezes, a vemos contrária a nós, mas é uma força que se você estiver triste, ela também estará, e vice e versa. Recebemos tudo multiplicado. O que você dá é o que você recebe. É a lei natural. Aprendemos do menos para o maior. Esse é o nosso dia a dia, desde cedo. O que plantamos, colhemos, e se não colhemos aqui, colheremos em outra vida, porque eu também acredito nisso.

Durante a novela a vingança também será um dos pontos tocado. Esse assunto é legal só na novela?

A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena (risos). Eu tenho ascendente em Escorpião, sou de Virgem, que tem fama de ser vingativo, mas não sou tão vingativa. Estou me cuidando. Nós temos que ser proativos nessa vida. Temos que transmutar, transformar as coisas. Se recebemos desamor, violência e ódio, não podemos devolver com o mesmo sentimento, porque eles só serão multiplicados. Nós temos que devolver o que podemos oferecer de melhor para esse mundo. Estou a serviço, de passagem, tenho plena consciência disso, aliás, é a única certeza que eu tenho, é que isso aqui vai acabar, então, quero passar da melhor forma possível. Quero levar o meu trabalho com leveza, porque falar desse tema, que é sobre a violência, que me toca profundamente, ainda mais como mulher, porque me machuca, preciso saber me distanciar também, me separar dessa personagem, e levar com amor e leveza. É o que eu busco!

Trabalhar uma personagem com essa carga dramática é bastante intensa. Você tem feito terapia?

Vou começar, porque estou precisando. Já tem um tempo que não faço, mas já fiz sim, e acredito que todo mundo deveria fazer. Eu tenho certa dificuldade de verbalizar os meus sentimentos, sinto muita coisa, mas não consigo expressar, tanto que estou com alguns nódulos, tratando da tireoide. Acredito que seja muito das coisas que nos calam, dessa sociedade opressora, patriarcal, que vai nos calando. A busca da personagem é minha também, por esse amadurecimento, empoderamento, pela conexão comigo mesma, pela descoberta da minha máxima potência feminina que é muito forte, aliás, todas nós somos.

Vocês precisaram viajar até o Jalapão para fazer as primeiras cenas da novela. O que você achou do lugar?

Foi incrível! Gostei de conhecer os lugares, até porque eu nunca tinha visto cachoeira de água quente. Só tinha mergulhado nas cachoeiras daqui que são geladíssimas, de São Paulo, Minas. Foi uma novidade pra mim. O Jalapão é maravilhoso, tem a diversidade do serrado que é riquíssimo, muito quente, um clima seco… Nós precisávamos hidratar o tempo todo, narina, lábios, olhos, corpo. Recebemos milhões de recomendações da empresa pra esses cuidados. Muita água o tempo todo, mas o lugar é belíssimo. Você vai ver em algumas imagens, e todo mundo vai querer que a gente volte.

Mudando de assunto, como você definiria o seu estilo na hora de buscar uma roupa no armário?

Olha, como eu estou simples e clássica… Sozinha eu não penso nisso (risos), não consigo… Mas ultimamente as pessoas estão tão montadas, editadas, mas em tudo na vida, por isso, talvez eu sinta saudades dessa simplicidade, do essencial.

 

entrevista: Ester Jacopetti

foto: Rodrigo Lopes

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