Matriz de Itu completa 80 anos de tombamento

Fachada da Matriz da Candelária, 238 anos de existência e 80 de tombamento como patrimônio histórico

Primeiro bem cultural no Interior paulista a ser tombado pelo Iphan, a Igreja Matriz de Nossa Senhora Candelária, em Itu, é uma verdadeira ode ao barroco paulista e guarda dentro de si tesouros de séculos, parte deles, recém-descobertos

A Igreja Matriz de Nossa Senhora Candelária de Itu foi o primeiro bem cultural no Interior paulista a ser tombado pelo Iphan (Instituto Histórico e Artístico Nacional), que ano passado completou 80 anos de atividades. O órgão nasceu com o objetivo de valorizar o patrimônio cultural brasileiro e é o que tem feito desde então. Um de seus primeiros pesquisadores, o escritor Mário de Andrade, esteve em Itu e ficou encantado com a Matriz da cidade e com o trabalho de padre Jesuíno do Monte Carmelo, autor das telas do altar-mor, tendo inclusive, escrito uma biografia sobre o artista. “A Igreja Matriz de Itu está incluída no Relatório nº 1 de Mário de Andrade, na época assistente técnico. Ele escolheu os primeiros tombamentos da área a ele atribuída. Como o Mário de Andrade estava fascinado com mestre Jesuíno do Monte Carmelo, mesmo tendo alterações do projeto original, ele garantiu a tutela”, explica o arquiteto do Iphan, Mauro David Artur Bondi.

Assim, a Matriz passou então a ter importância histórica e artística, não só para a cidade de Itu e seus munícipes, como também para todo o país. Diversas reformas ocorreram na Igreja e muitas alterações – inclusive de sua fachada – aconteceram desde seu tombamento. “Algumas foram apenas obras de manutenção e conservação do edifício, e outras de restauração propriamente dita. As obras de restauração são feitas a partir de documentos e pesquisas históricas, prospecções no próprio monumento, etc. Edifício tombado não quer dizer ‘edifício engessado’. Assim, isso não quer dizer que não possam ser feitas obras nele. Podem ser feitas, desde que analisadas e aprovadas pelo órgão tombador, no caso o Iphan.

Testemunha da história

A Matriz de Nossa Senhora Candelária é um dos cartões postais de Itu e tem quase 240 anos de idade. Ou seja, ela é um dos elos do presente com o passado da cidade e importante representante da história local. Inaugurada em 29 de abril de 1780, 170 anos depois da fundação de Itu, sua construção foi autorizada pelo bispo de São Paulo, pois a Matriz existente estava muito degradada e, segundo documento existente no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo, os moradores alegavam que o dinheiro gasto para sua reforma, poderia ser utilizado para a construção de um novo templo. Além, é claro, de ser uma maneira de mostrar a situação econômica de Itu, que na época já era Vila. A nova igreja é construída então com recursos do padre João Leite Ferraz e com doação de membros da sociedade.

No decorrer de 238 anos desde sua inauguração e 80 de tombamento, a construção passou por diversas reformas, alterações e restauros. Entre eles, destacam-se a primeira grande reforma, de 1831, da construção da torre com relógio, retoque da pintura e douramento e construção do adro com degraus em volta da igreja; a reforma de 1887 quando sua fachada foi reconstruída pelo arquiteto Ramos de Azevedo e a última e muito significativa alteração se deu com a descoberta de pinturas nas paredes laterais do altar-mor. “Nas paredes laterais do altar-mor, que estavam pintadas de branco, foram encontradas pinturas em tons de azul com cenas do Velho Testamento, feitas por Matias Teixeira. O achado chamou a atenção do historiador Carlos Gutierrez Cerqueira, pesquisador do Iphan, que identificou na capela-mor a assinatura de Matias, nome até então desconhecido, e a data de 1788. Além disso, de acordo com o nosso historiador, o altar-mor e os dois grandes altares colaterais são de Bartholomeu Teixeira Guimarães.” Guimarães teria trabalhado com José Patrício da Silva Manso, autor da pintura do forro da capela-mor.

Assim, desde então, a Matriz de Itu vem passando por restauros que elevaram sua beleza e importância história a um novo patamar, já que essas novas descobertas trazem à luz nomes antes desconhecidos, proporcionando assim descobrir mais uma peça desse quebra-cabeça da história da Matriz de Itu e, por consequência, das artes nacionais do século XVIII. O restauro desses elementos artísticos vem sendo executado pela empresa Júlio Moraes Conservação e Restauro e supervisão do Iphan. 

Mas isso não é tudo. O edifício construído em taipa, considerado o maior monumento do barroco paulista pelo conjunto de sua arquitetura, talha, decoração, equipamentos e significado histórico ainda guardava um segredo. Pranchas de madeira, que estavam no mecanismo do relógio, depois de uma grande chuva, revelaram imagens sacras coloniais que foram atribuídas ao padre Jesuíno do Monte Carmelo. A união das pranchas resultou em imagens da cena da Deposição da Cruz.

Pesquisas vêm sendo realizadas a fim de descobrir sua proveniência. “Proposto pela OSCIP Museu a Céu Aberto, o projeto de restauro contou com recursos da Lei Rouanet, via incentivo fiscal, sendo 50% dos recursos do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e 50% da Prefeitura da Estância Turística de Itu. O licenciamento, fiscalização e acompanhamento geral do restauro são feitos pelo Iphan e pela Secretaria Municipal de Cultura de Itu”, detalha o arquiteto do Instituto.

O próximo passo é a restauração do órgão da Igreja, ainda sem previsão. Que surpresas mais a Matriz poderá nos revelar?

texto: Gisele Scaravelli

fotos: Renata Guarnieri/AI Pref. Itu

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