Lima Duarte em entrevista especial

“A televisão e o telespectador envelheceram comigo, me assistindo, me ouvindo”

Entre o descanso em sua chácara em Indaiatuba e as gravações da novela ‘O Outro Lado do Paraíso’, o ator, aos 87 anos, comemora mais um trabalho na TV e fala com a sabedoria de quem ajudou a inaugurar a TV brasileira

 Aos 87 anos, veterano na TV, estando inclusive na inauguração da Tupi, a primeira emissora do país, Lima Duarte consegue imprimir em cada trabalho uma personalidade diferente. Para isso, ele conta com a ajuda do autor, mas também prefere dar um toque todo especial, principalmente ao seu novo personagem Josafá em “O Outro Lado do Paraíso”, novela das nove da Rede Globo.  “Quero dar uma visão mais apurada do ser humano. O texto não deve ser uma coisa acabada, e nem pode. Eu nem conheço o Walcyr (Carrasco, autor da novela), e nem ele me conhece, e também não sabe o que eu vou colocar no personagem. Algumas coisas pode ser que ele goste, outras não. Vamos ver como será”, disse Lima, que faz par romântico com Fernanda Montenegro, com quem já trabalhou em outras duas novelas. Sobre a parceria, ele se emociona, ressaltando que ela é uma grande amiga e atriz. E mesmo no horário nobre, ele não se ilude com a fama, e deixa claro que os anos de experiência lhe proporcionaram muita sabedoria. “Pra cima de mim com horário nobre? Pra mim, todo o horário é nobre, se eu fizer um trabalho nobre! Eu já fiz umas dez novelas das oito, mas agora é das nove. Ótimo! Espero que as pessoas se divirtam, porque elas são em última instância, o patrão que nos paga”, comenta de forma categórica. Para recuperar sua energia, nada melhor que o contato com a natureza. É assim que o ator se renova, quando não está na televisão. Com uma chácara em Indaiatuba, na região de Itaici, ele aproveita cada momento, e vive uma vida supertranquila ao lado dos moradores, que já estão acostumados com a presença do ator. Convidamos você a conhecer um pouco mais sobre a simplicidade que Lima leva sua vida, o que os anos de experiência na televisão lhe proporcionaram, e sua relação com o público, desde quando interpretou Sinhozinho Malta, em “Roque Santeiro”, um dos personagens que o eternizou na dramaturgia brasileira.

REVISTA REGIONAL: Em “O Outro Lado do Paraíso”, o senhor interpreta um homem simples, que tem uma ligação muito forte com a natureza. Quais outras características, o senhor descreveria sobre o Josafá?

LIMA DUARTE: Ele é um homem que aprendeu a amar com os rios, as montanhas. Esses são os verdadeiros valores dele. Dizem que lá tem uma grande fortuna em esmeraldas, mas o Josafá não quer saber disso, a fortuna dele está longe, distante, que não é só geográfica, mas mitológica também. É um amor que ficou no passado, um amor lindo pela personagem vivida pela Fernanda Montenegro. É um amor muito bonito, uma ligação muito forte que eles têm. No passado, eles tiveram um romance, que não foi pra frente, mas a amizade entre eles permaneceu. Os dois procuram no longe, encontrar um ao outro, e amarem-se ainda mais, sem a manifestação imediata do amor, que é transar. Eles não têm isso, então ficou o que? O amor! Apesar de ser um homem do campo, caboclo, ele é muito sofisticado, delicado, ainda mais por amar à distância. Amar o mundo. Mas ele ainda tem esperança de viver esse amor. É nela que ele irá buscar forças para enfrentar um período ruim de sua vida, que é quando a Clara (Bianca Bin) desaparece sem deixar rastros.

Aliás, essa não é a primeira vez que o senhor trabalha ao lado da Fernanda (Montenegro), como tem sido esse reencontro?

Nós trabalhamos juntos em “Belíssima” (2005), tínhamos uma filha que ela jogou no lixo que era interpretada pela Claudia Abreu, na fase adulta. Andei procurando por aí, nos lixões pra ver se a encontro (risos). Fizemos também “Rainha da Sucata” (1990). Ela era minha vizinha, e eu era o pai da rainha da sucata (Regina Duarte). Minha querida amiga, quando eu baixei a sepultura, ela se atirou no caixão, e todo mundo descobriu a verdade sobre os sentimentos que ela tinha por mim… É muito gostoso poder reencontrá-la, porque ela é uma grande amiga. Eu tenho quase 88 anos, e ela também, mas com alguns meses a mais (risos). Nos damos muito bem! Gosto muito dela, do trabalho dela, e eu quero fazer bem feito, ainda mais que é com ela e por ela!

O senhor diria que tem algum traço do seu personagem?

Não! Na verdade, existem personalidades que eu quero colocar nele, que são minhas, como por exemplo, uma visão mais apurada do ser humano, a pureza que eu acho que o autor (Walcyr Carrasco, escritor) não pensou ainda, mas eu pretendo colocar nas características do personagem.

As primeiras filmagens da novela foram feitas no Jalapão, no Tocantins, o que o senhor achou do lugar?

Muito bonito, mas faz um calor de 49 graus (risos).

As pessoas ficam admiradas quando falam o nome do elenco, como o seu e da Fernanda, principalmente os atores mais jovens…

Isso acontece porque somos muito velhos, e já estamos trabalhando há muitos anos. Fizemos vários trabalhos bons, outros mais ou menos e alguns ruins. Faz muitos anos que existe um conluio com o telespectador. A televisão e o telespectador envelheceram comigo, me assistindo, me ouvindo. Quando eles me veem, o que eles mais lembram é dos personagens Sinhozinho Malta (Roque Santeiro, 1985), do Afonso Lambertini (Da Cor do Pecado, 2004) e do Dom Lazaro Venturini (Meu Bem, Meu Mal, 1991). E eu continuo querendo melão [(risos) referindo-se à clássica frase do personagem Dom Lazaro na novela]. Veja bem, eu trabalho na Rede Globo há 46 anos, você foi criança comigo trabalhando, sua mãe foi jovem e me achava bonitão. Essa relação com o espectador é uma muito útil pra nós, atores, porque vou entrar e eles vão dizer: ‘lá vem esse cara falar mais algumas bobagens’. Vamos dar algumas risadas nesse tempo tão difícil em que vivemos.

É um orgulho sentir todo esse carinho do público?

Claro! Nós vamos nos divertir!

Não deixa de ser um reconhecimento, afinal de contas o senhor está com 87 anos, trabalhando no horário nobre…

Sem dúvida, mas não vivo muito com isso… Pra cima de mim, com horário nobre? Pra mim, todo o horário é nobre, se eu fizer um trabalho nobre! Eu já fiz umas dez novelas das oito, mas agora é das nove. Ótimo! Espero que as pessoas se divirtam, porque elas são em última instância, o patrão que nos paga.

Quando recebeu o convite para participar dessa novela, e leu o texto, o que achou da história que seria contada?

Pensei apenas no ponto de partida, que inicialmente é o texto. Através dele que eu vou colocar nervos, músculos, amor, ódio, paixão. Pretendo colocar tudo isso. O texto não deve ser uma coisa acabada, e nem pode. Eu nem conheço o Walcyr (Carrasco, autor da novela) e nem ele me conhece, e também não sabe o que eu vou colocar no personagem. Algumas coisas pode ser que ele goste, outras não. Vamos ver como será.

A última novela (“A Força do Querer”) fez muito sucesso e a Glória Perez (escritora) abordou diversos temas. O senhor costuma assistir à televisão?

Não! Eu já trabalhei com a Glória. Nós fizemos juntos “Caminho das Índias” (2009). Eu assisto a muitos filmes, noticiários, e também ao São Paulo Futebol Clube (risos).

O senhor tem feito participações menores nas novelas, agora está de volta com um personagem mais centrado. Como tem sido esse retorno?

Retorno? Mas eu sempre trabalhei! Recentemente eu fiz “Paraisópolis” (2015). Sinceramente eu espero que o Josafá fique mais forte. Ele é um excelente personagem, a proposta é muito grande. Como eu disse, é um homem que ama ao longe, aprendeu a amar com a distância.

Mesmo estreando essa novela, o senhor também está envolvido na série “13 Dias Longe do Sol” que já foi filmada. Pode falar sobre o seu personagem?

Eu interpreto um médico, que contrata o personagem do Selton Mello, um engenheiro, para construir um novo centro médico, que durante a construção desaba. A partir daí muita coisa acontece. Ele (Selton) termina se envolvendo com a minha filha (Carolina Dieckmann).

 texto: Ester Jacopetti

 FOTO: César Alves/TV Globo

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