Entrevista especial com Regina Duarte

João Miguel Junior/TV Globo

“Viver é igual andar de bicicleta, você não pode parar de pedalar, senão você cai”

Eterna ‘namoradinha do Brasil’ fala sobre os 50 anos de carreira, os 70 de vida e seu novo trabalho na TV

 Feliz por poder continuar exercendo a profissão, mesmo aos 70 anos de idade, a grande atriz Regina Duarte, que interpretou personagens icônicos da dramaturgia brasileira, quer mais! Anos emendando um trabalho após o outro, mesmo com pequenas participações, como foi em “Pega Pega”, ela surge novamente com personagem inusitado, em “Tempo de Amar”, que segundo ela, nunca foi interpretado. “É uma mulher que eu nunca fiz! O que é muito raro, porque em 38 novelas, poder dizer que eu nunca fiz esse tipo de personagem, é bem difícil”, diz. Na trama, ela interpreta Madame Lucerne, dona de um cabaré famoso na cidade, mas quando o assunto é falar sobre a personagem, a atriz mantém certo mistério, e diz que prefere descobrir detalhes com o público. “Não vou ficar falando muito dela não, porque eu quero que as pessoas venham conhecê-la comigo. Só posso dizer o seguinte: ela é nova pra mim”, pontua. Com mais de 50 anos de estrada, Regina conta em entrevista o que a faz correr atrás dos seus desejos. “Eu li uma frase essa semana que é assim: ‘Viver é igual andar de bicicleta, você não pode parar de pedalar, senão você cai’. Eu acho que na vida é assim. A saúde ela depende do movimento. Parou, estacionou, desce ladeira abaixo. Todas as experiências que eu tive de me deprimir, de desacreditar. Eu olhava e chegava à conclusão de que eu estava parada. Eu não estava sonhando e nem correndo atrás de um sonho, de um ideal, então eu acho que viver é isso”, resume. Carismática, e às vezes polêmica, Regina não tem medo de falar sobre o que pensa, principalmente sobre política. Avaliando o atual cenário, ela acredita que o país está seguindo um caminho mais seguro, e que o brasileiro está tendo mais consciência sobre o que está acontecendo. “Eu acho que não tem mais nenhuma razão pra ter medo. O país está totalmente diferente hoje, e tem uma consciência. Ele está unificado e já conhecemos e colocamos uma forma melhor de se colocar diante da política. Daqui pra frente, vai demorar, mas o brasileiro está mais ligado, que se ele não participar, o país se torna o que ele não quer pra si mesmo, nem pra sua família, e sua gente. A gente deu mole, e deixou eles se instaurarem lá e fazerem o que queriam. Eu acho que a consciência de brasilidade, de cidadania, está muito mais desenvolvida e dificilmente será enganada por demagogo e populistas”, conclui.

REVISTA REGIONAL: Não faz muito tempo, a senhora já está retornando à televisão, com uma nova personagem em “Tempo de Amar”…

REGINA DUARTE: É um presente delicioso! Estou voltando ao trabalho com um personagem incrível. Estou muito feliz por conhecer uma porção de pessoas novas, uma juventude, sangue novo, estreando novela. É muito renovador fazer trabalhos que estão surgindo neste momento. Eu tenho 50 anos de televisão, e é sempre bom fazer contato, com tudo que está acontecendo, principalmente pela contemporaneidade da telenovela.

A senhora diria que está tendo um reencontro com colegas com quem já trabalhou, como o Tony Ramos, por exemplo?

Exatamente, reencontrando uma porção de pessoas, e encontrando uma parte de um elenco novo, jovem, cheio de gás e vontade… Cheios de paixão! O nosso trabalho só acontece porque ele é movido por essa paixão.

E como a senhora descreveria sua personagem, a madame Lucerne?

É uma mulher que eu nunca fiz! O que é muito raro, porque em 38 novelas, poder dizer que eu nunca fiz esse tipo de personagem, é bem difícil. Eu quero que o público venha descobrir junto comigo. Não vou ficar falando muito dela não, porque eu quero que as pessoas venham conhecê-la comigo. Só posso dizer o seguinte: ela é nova pra mim. É uma mulher que até hoje não tive a oportunidade de fazer na televisão. Ela tem um cabaré, que é um lugar de divertimento, onde ela cultiva a alegria, mas ela tem um passado misterioso, percebe-se que é uma mulher que sofreu muito pra chegar e conquistar o que conquistou, mas ao mesmo tempo, ela tem humor, tem várias camadas. E isso faz com que ela seja muito interessante. Ela é tridimensional, digamos. O lugar é frequentando pelos homens, e também pelas mulheres, que na época frequentavam esses lugares de música, poesia, de literatura, o cabaré, é a arte popular, é delicioso porque tudo pode acontecer.

Sua personagem tem namorado?

Até onde eu sei, ela não namora, mas vai conhecer alguém e vai viver uma grande paixão, com o personagem do Tony Ramos.

Como a senhora vê o amor na maturidade?

É igual! Paixão é paixão.

Como é contracenar com essa juventude talentosa?

Eu adoro, porque é uma forma de me renovar, de me enriquecer. Presto muito atenção em tudo o que eles fazem. Eles vêm com muita garra, muita disciplina, e com muita vontade de acertar, e isso é primordial. Eu me enriqueço muito, me aproximando deles, olhando e aprendendo com eles.

A senhora comentou que nunca fez essa mulher, hoje, pra Regina Duarte aceitar fazer uma novela, tem que te acrescentar de alguma forma?

Olha o meu critério é realmente propor um novo desafio. Em ‘Três Irmãs’ (2008), eles me propuseram fazer um personagem várias vezes, e eu pedi pra trocar. Aí veio a Waldete com W, era divertidíssimo, me deram um presente. Era uma novela no qual me diverti demais com ela. E agora, caiu no meu colo uma mulher que eu nunca fiz antes, é genial. É desafio, é aprendizado, é tomar conhecimento com uma camada de humanidade, na qual eu não tinha frequentado ainda.

Os anos parecem ter sido generosos com a senhora…

Eu li uma frase essa semana, eu acho que foi no Instagram, -aliás, eu amo-, que é assim: ‘Viver é igual andar de bicicleta, você não pode parar de pedalar, senão você cai’. Eu acho que na vida é assim. A saúde ela depende do movimento. Parou, estacionou, desce ladeira abaixo. Todas as experiências que eu tive de me deprimir, de desacreditar. Eu olhava e chegava à conclusão de que eu estava parada. Eu não estava sonhando e nem correndo atrás de um sonho, de um ideal, então eu acho que viver é isso.  

A senhora comentou sobre sonhar e correr atrás de um ideal, o que te movimenta?

A família e a generosidade, que é você conseguir olhar para o outro, com o mesmo olhar amoroso que você olha pra você mesma. Isso pode te tornar uma pessoa maior. A pessoa que se enclausura em si mesma fica pequena. É bonito olhar pra fora, e nós crescemos quando fazemos isso. Recebemos muita coisa inesperada. A vida é uma caixinha de surpresa. Só que você tem que estar aberto para o outro.

Se tivesse um remake da viúva Porcina (Roque Santeiro, 1985), que atriz a senhora gostaria que te representasse?

Ah que pergunta… (risos). Aquela personagem é tão boa, que não precisa ser nada especial. Uma atriz apaixonada por ela vai fazê-la magnificamente, porque ela vem pronta. Entendeu?! Eu não fiz nada de mais, a não ser seguir o que estava escrito ali, pelo Dias Gomes e o Aguinaldo Silva. Palavra de honra. Aquilo ali já veio pronto, era só acreditar e brincar.

A senhora já se posicionou politicamente e isso virou um símbolo, as pessoas nunca esqueceram do que a senhora falou. Qual sua visão hoje?

Eu acho que não tem mais nenhuma razão pra ter medo. O país está totalmente diferente hoje, e tem uma consciência. Ele está unificado e já conhecemos e colocamos uma forma melhor de se colocar diante da política. Daqui pra frente, vai demorar, mas o brasileiro está mais ligado que se ele não participar, o país se torna o que ele não quer pra si mesmo, nem pra sua família, e sua gente. A gente deu mole, e deixou eles se instaurarem lá e fazerem o que queriam. Eu acho que a consciência de brasilidade, de cidadania, está muito mais desenvolvida e dificilmente será enganada por demagogos e populistas.

Personagens homossexuais estão cada vez mais ganhando espaço nas tramas. Em “Sete Vidas”, por exemplo, sua personagem teve uma relação homoafetiva. O que a senhora acha dessa mudança na dramaturgia?

É normal, mas é preciso cuidado pra não ficar muito exagerado, porque se for assim, podemos perder a credibilidade. Até certo ponto eu considero muito saudável. Mas ficar excessivamente batendo na mesma tecla é exagero. Ser homossexual é legal! Já estou cansada de saber que é legal, porque não seria?! Parece até que não acreditamos no que estamos dizendo né?!

(texto: Ester Jacopetti)

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