Um saltense no Caminho de Compostela

Empresário saltense conta sua experiência nos 26 dias que atravessou o famoso caminho francês até Santiago de Compostela, na Espanha

Nossa caminhada teve início na França, na pequena cidade de San Jean Pied de Port, eu, Rogério e Tarcísio (amigos que acompanharam na travessia). Fizemos nossa credencial de peregrino e recebemos o guia de orientação de todo o percurso. São cerca de 800 km até Santiago de Compostela, na Espanha. Na mente parece não ser possível, mas a cada passo, com fé e determinação, estávamos mais próximos de nosso objetivo. Cada um tem seu ritmo, cada um faz o seu caminho, um caminho rumo ao interior.

Logo no primeiro dia, passamos por um difícil teste: atravessar os Pirineus. São 16 km de aclive e 11 km de declive, com chuva, neblina, vento, lama e muito frio. Após seis horas, chegamos a Roncesvales, felizes e exaustos. Sempre focados, inscrevemo-nos no albergue municipal, um dos melhores do percurso. Tomamos banho, lavamos nossas roupas e começamos a nos preparar para o próximo dia. Assim era a rotina de todos os dias, pois na mochila levamos apenas uma troca de roupa, saco de dormir, toalha, chinelo e produtos de higiene pessoal que, somados, pesavam cerca de oito quilos.

No segundo dia, andamos 30 km e chegamos a Larrasoana. Sobe, desce, lama, chuva e as bolhas e dores começaram a aparecer. O corpo reclama, o cansaço acumula, mas a determinação e a fé estão firmes. No terceiro dia, passamos por Pamplona, cidade linda e logo começamos a subir, de novo, com destino a Alto de Perdão. Depois de 34 km chegamos lá, mas não havia vagas nos albergues, e a próxima cidade estava a 6 km. Sem opções, fomos em frente. Chegamos bem e felizes. Fizemos 40 km de caminhada em um dia, mas quando um dos companheiros tirou as meias, a parte da frente das solas dos dois pés estava em carne viva com queimaduras de segundo grau. Ele precisou ir ao hospital e, logo depois, retornar ao Brasil.

Em nosso quarto dia, encontramos uma região muito plana, linda, com plantações. Passamos pela ponte de La Reina, que dá nome ao povoado construído no século XI, e chegamos em Lizzara. Os dias seguintes foram tranquilos. Andamos no plano, os dias estavam ensolarados e a quantidade de peregrinos aumentava cada vez mais. Foi necessário, então, um planejamento melhor e reservas de albergue com antecedência.

A mente no comando, as dores sob controle, concentração total, dia a dia, passo a passo, sempre com equilíbrio e o caminho agora com muitas e muitas pedras. Devido à concentração e à repetição diária, os pensamentos se restringem as atividades de caminhar, tomar banho, lavar as roupas, se alimentar e dormir. Isso leva à interiorização, um estado contemplativo, o sentir aumenta, as emoções ficam à flor da pele e parece que se caminha acima do chão.

Chegamos em Rioja, onde são produzidos os mais famosos vinhos da Espanha. Experimentamos vários deles. Nesse dia andamos 40 km e chegamos à capital, Logronho.

No sétimo dia, muitas inclinações, muitas pedras e cultivo de uvas. Completamos uma semana e 200 km percorridos. No oitavo dia, em uma região muito plana, reta infinita, em meio a plantações, era possível andar sem olhar onde se pisava, apenas contemplando o horizonte e as paisagens. Já caminhando pela região de Castilla e Leon, andamos 27 km até Granon. Estávamos “voando baixo” e conversando com peregrinos de mais de 40 países, que conhecemos durante o percurso.

 ‘Parte de nós’

O caminho é algo pessoal, cada um pode e deve fazer no seu ritmo. Observa-se que existem muitos turistas que vão para fazer pequenos percursos, atletas e peregrinos de final de semana, que só bebem e fazem barulho. O caminho é cultural, gastronômico, religioso, espiritual, esportivo, barato e para todos.

No nono dia, andamos 42 km até S. Juan de Ortega, região plana típica de Castilha e Leon, onde devemos percorrer mais de 400 km.

Todos os povoados têm igrejas antigas, de 300 a 800 anos. As igrejas das cidades e dos povoados sempre são o que mais se destaca nos locais, símbolos da influência do Catolicismo de séculos passados. Suas casas de pedras, saibros e capim de paredes largas são feitas para proteger do frio e do calor. Tudo é uma verdadeira aula de história. Nossas origens, nossos antepassados, a sensação é que até já vivemos lá, parecia que o local fazia parte de nós.

No décimo dia foi muito fácil, preparados para ver a linda cidade de Burgos, com sua linda catedral, uma das mais importantes da Europa. Lá, valeria a pena passar mais dias. Assim, chegamos perto de nossos 300 km percorridos e de olho na próxima meta: chegar a León, a 180 km, em seis dias.

Nesse espírito, começamos o nosso 11º dia. Andamos 32 km até Hontanas. No dia seguinte, andamos mais 32 km até Fromista. Passamos pelas ruínas de San Antón, um convento fundado no século XII, que serviu por muitos anos de hospital para os peregrinos no passado. No 13º dia, passamos por Carrión de los Condes, Terradillos de los Templarios, fundada no ano de 1119, na época das Cruzadas, e chegamos Calzadilla de la Cueza.

Do 14º ao 15º dia, andamos por regiões muito planas, passamos por Sahagun e por um bonito lugar para descansar, La Ermita de la Virgen del Puente, e chegamos em Berciano  del real Camino. No 17º percorremos 26 km até León, a última grande cidade antes de Compostela, fundada no ano 68 d.C. pelos romanos. Destacam-se a Plaza Mayor e a catedral gótica de Leon, construída entre os séculos XIII e XIV, e muitas outras belezas históricas.

No 18º caminhamos 38 km até o hospital Órbigo. Passamos por Virgem del Camino, Villa de Mazarife, e hospital de Órbigo ao lado de La Puente. No dia seguinte, andamos 37 km até Rabanal del Camino, onde o perfil do trajeto começa a mudar,  com longas subidas e descidas. Passamos por Astorga, cidade pequena, mas muito relevante onde há o encontro de outro caminho procedente de Servilha. Nessa cidade, há a Catedral de Santa Maria e El Palacio Episcopal, projetado por Gaudi, onde funciona o Museu de Los Caminos.

No 20º dia andamos 32,5 km até Ponferrada, sendo 14 km de subida e 18,5 km de descida com muitas pedras, precisando de muito cuidado para não sofrer acidentes. Descer parece ser mais difícil que subir, requer determinação. Não foi fácil, mas conseguimos. Passamos por Foncebadon, no topo da montanha, local místico, pedras monolíticas com uma cruz de ferro, onde muitos peregrinos depositam algumas pedras e bandeiras.

Já na reta final, faltando 220 km para chegar, caminhamos até Trabadelo, passamos por Villa Franca del Bierzo com uma gastronomia típica como a Pulperia, onde se serve polvo como petisco. Depois, andamos por mais de 400 km em região plana e com muitas pedras. No 22º dia andamos 42 km até Tria Castelo, talvez o dia mais difícil. Caminhamos ao lado de uma autopista, acompanhando um rio por muitos quilômetros, passando por vários povoados. Estava muito frio, as pernas e as mãos pareciam congelar. Subimos por quatro horas e descemos por mais seis. Essa região, denominada Cebreiro, é famosa pelas dificuldades oferecidas aos peregrinos, mas também por sua beleza. No topo da montanha, pode-se avistar muitos quilômetros de distância e morros com inclinações enormes. Seguimos estrada até a Galícia. Muitas casas de Pedras, comida muito boa, montes de pedras monolíticas, muita água, vegetação abundante, vacas leiteiras e queijos deliciosos. Nos dias seguintes, percorremos 63,5 km, acompanhados de muitas pessoas de diversos países. Lembrando que, para receber o certificado oficial do peregrino é preciso andar, no mínimo, 100 km a pé ou 200 km de bicicleta. A multidão se encontra nesse percurso.

No 26º e último dia da peregrinação, saímos de Pedrozo, andamos 20 km, acompanhando uma multidão, e chegamos a nosso tão desejado objetivo final: Santiago de Compostela. Junto de nós, mais de 3 mil peregrinos concluíram sua peregrinação, procedente de mais de 20 caminhos diferentes. Era sábado, tiramos fotos e curtimos a cidade, aguardando o domingo, quando aconteceu a famosa missa de domingo para os peregrinos. Missão cumprida!

texto: Cleófano Leão

fotos: Cleófano Leão/Arquivo pessoal

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