Lília Cabral em entrevista especial

“Demorei muito tempo para ser protagonista. Sei bem como é. Se eu cheguei a ser uma, é porque fui provando em cada trabalho, que eu tinha condições…”

Em sua melhor fase, atriz conduz seus 35 anos de atuação com muita destreza e perseverança; atualmente, vive uma das protagonistas de “A Força do Querer”, novela da Globo

 Lília Cabral é uma mulher reservada. E apesar disso, consegue transparecer intensidade, confiança e também um lado divertido. Durante nossa longa entrevista, a atriz que se divide entre projetos no cinema, teatro e televisão, vive uma fase produtiva. Queridinha de vários autores conceituados, Lília não esconde a satisfação de trabalhar com nomes como Manoel Carlos, Ricardo Linhares, Glória Perez e Aguinaldo Silva. Aliás, mesmo envolvida atualmente em “A Força do Querer”, ela já está reservada para interpretar uma vilã na próxima novela de Aguinaldo. “Eu acho que tem autores, que eu me dei muito bem. Foi muito mais um olhar deles, em relação a mim, do que eu querer mostrar serviço, sabe?! Lógico que todas as vezes, que eu tinha as oportunidades, não deixei escapar. E de fato, comecei a procurar mesmo, para as pessoas olharem para mim de outra forma. Tanto que eu demorei muito para ter um papel mais significativo. Foram autores que fizeram a minha história. Na verdade, devo muito a eles”, conta. Só com Manoel Carlos, foram quatro novelas de grande sucesso (“Laços de Família”, “Páginas da Vida”, “Viver a Vida” e “História de Amor”). O novelista, aliás, declarou recentemente porque nunca escolheu a atriz para viver uma Helena, personagem chave de suas tramas. “Uma vez, ele me disse que as pessoas queriam que ele me desse uma ‘Helena’, mas quem seria a antagonista dele?! É uma coisa linda! Mas, sinceramente, eu nunca pensei porque ele nunca me deu. Fui muito feliz com todos os personagens que fiz. Tanto em ‘Páginas da Vida’ e ‘Viver a Vida’, no qual fui indicada ao Emmy. Então, se eu tivesse feito a Helena, talvez não tivesse sido indicada (risos). Ele sempre foi muito carinhoso comigo. Quando vejo a sinopse, qual o papel mais difícil? O da Lília. O que você fala quando ouve uma coisa dessas? Não tenho nem palavras. Eu liguei para ele, e ele disse que foi de coração. É claro que foi, e eu sei. Eu me saboreava com os textos, dava um trabalhão desgraçado, porque chegava um dia antes, mas não interessava. Eu só pensava que essas eram as oportunidades que eu não poderia perder”, comenta a atriz satisfeita. Neste bate-papo exclusivo com a Revista Regional, Lilia ainda fala sobre as realizações na profissão e do rótulo de “dama da dramaturgia”. Confira.

REVISTA REGIONAL: Sua personagem Silvana, em “A Força do Querer”, tem feito muito sucesso, mas como tem sido a experiência de interpretar uma mulher viciada em jogos, que não tem controle sobre o que faz?

LILIA CABRAL: Estou descobrindo a cada dia que passa como é essa mulher. Ela acredita que (o vício em jogos) é apenas pelo prazer, uma válvula de escape, faz para relaxar, para fugir de um dia complicado, cheio de tensão. Ela não percebe que é viciada. Mas quando descobrir, não haverá mais alternativas, e ela estará no fundo do poço. Cada capítulo que chega, vou administrando esse sentimento, de não entender que ela tenha um vício e, ao mesmo tempo, sentir prazer. Ela inverte tudo, e tem uma cena que ela diz: “Não é mais fácil todo mundo entender que todos precisamos de uma válvula de escape?” (risos). A Silvana é bem-sucedida, e todo mundo valoriza o trabalho dela, e como mulher também. A sensação que temos, é que ela está muito bem de vida. A princípio, ela sabe jogar, arquitetar, mas tem o marido (Humberto Martins) controlador, que não gosta de jogos, odeia. Conforme vão se passando os dias, os meses, todo mundo começa a perceber que não é só diversão. Ela é compulsiva. Existe a necessidade de ganhar, a adrenalina, mais que a diversão propriamente. Com essas características, o lado compulsivo começa a se formar, e o lado fraco também, é quando ela começa a perder. Toda pessoa que perde, no fundo, no fundo, tem esse lado ansioso. Ela vive dentro de uma mentira. Tem um mundo normal, trabalha, tem família, não é bipolar, mas a única coisa que ela faz é jogar. Quanto mais ela perde, mais ela mente. O dinheiro vai desaparecendo, o que acaba acarretando uma série de situações que, a princípio, são divertidas. Parecem leves, mas vai piorando, até que uma hora, nós não sabemos quando, as pessoas irão descobrir, mas ela já estará na derrocada.

Isso significa que as consequências não serão nada fáceis para a personagem…

Ela sofrerá as maiores consequências, com certeza! O personagem não seria escrito, se não fosse para mostrar o desfecho, e a questão não é nem se ela tem ou não salvação. É esclarecer! Que é o mais importante. A ideia de um personagem como este não é necessariamente levantar bandeira, mas, sim, se identificar, compreender e chegar a algum lugar. Senão, as pessoas continuarão batendo na mesma tecla. Quando elas compreendem, podem chegar a uma solução, melhor ou pior. Algumas pessoas já me falaram de situações similares. Uma delas era compulsão em compras, que também é muito interessante, porque você não percebe. É sempre uma necessidade de “eu preciso ter”. Se eu estudasse Psicologia, gostaria de entender onde, no cérebro tem esse mecanismo, que liga essa chave, que vai exatamente no lugar que se torna a doença. É exatamente assim que acontece, mas não percebemos.

Você acredita que a condição social da sua personagem facilita ter esse tipo de vício?

Não acredito que seja uma questão de classe social. Eu tive testemunho de pessoas que não tinham nada, e o pouco que tinham, tirava-se do dedo, da orelha, de onde fosse, para poder saciar esse prazer. É dolorido, não sei onde dói mais. Vamos fazer uma análise: Aquele que tem, um dia pode ficar sem nada, mas alguém vai enriquecer nesse sentido. A pessoa que não tem, está jogando com quem não tem também. Não tem diferença. Agora, a compulsão por compras não, porque você precisa ter dinheiro, pode ser cartão de crédito, uma hora vai estourar. No caso da Silvana, ela consegue mentir muito bem, e são mentiras estapafúrdias, mas ela é contada com tanta sabedoria, que todo mundo acredita. O lado compulsivo é muito forte.

Quando você fala sobre a personagem, a impressão é que você estudou bastante esse tipo de comportamento. Como foi a questão do laboratório?

Imagine você descobrir que seu pai ou sua mãe joga? Essas pessoas passam anos jogando, e as famílias não sabem de nada, e quando descobrem elas estão por baixo. Existe uma pesquisa, claro que eu conversei com muitas pessoas e convivi com elas, mas primeiro fiz questão de serem bem distantes da nossa realidade, da minha, porque é a vida de outras pessoas, e não interessa de quem seja. Frequentei jogos saudáveis, porque acredito que isso deprime um pouco, e mesmo nós que nunca soubemos de alguém que tivesse numa situação assim, ou pelo menos ninguém abriu a boca (risos), eu fui até o J.A. (Jogadores Anônimos) e conheci pessoas que tiveram histórias bem tristes. Na verdade, o que me surpreendeu, foi o semblante delas. Elas são muito tranquilas, porque têm consciência. É muito diferente, por exemplo, de uma pessoa que bebe, porque ela muda fisicamente. Quem joga tem consciência, mas não tem mudança física, porque dificilmente bebem, e se isso acontecer, elas saem fora do plumo. Foi bom fazer esse trabalho, porque é um universo da mentira, e o ator é um grande mentiroso. O meu maior desafio é entrar em cena e convencer quem está contracenando comigo, que eu estou falando a verdade. Essas pessoas poderiam ganhar um Oscar, porque são maravilhosos como mentirosos. Havia uma pessoa da nossa família, que quando morreu, descobrimos que ele tinha uma dívida enorme, porque comprava vinhos e bebia tudo. Ele precisou morrer, para descobrimos.

Alguma vez você já jogou ou teve alguma compulsão na vida?

Joguei uma vez por lazer, e perdi. Não sou uma pessoa compulsiva e nunca me peguei desesperada por alguma coisa. Sempre tive uma medida. Talvez tenha sido pela educação que eu tive, porque nós tínhamos que aprender a nos satisfazer com o que tínhamos. Quando a insatisfação não é desenvolvida, ela cria uma ansiedade muito grande. Eu tinha que resolver isso. É um mal do século 21, que tem uma insatisfação, uma ansiedade, uma necessidade.

Com o avanço da tecnologia, os celulares também se tornaram uma forma de compulsão, principalmente entre os jovens. Como você lida com essa situação com a sua filha (Giulia Figueiredo)?

Várias broncas, mas mais quando era adolescente, quando tinha uns 15, 16 anos. Agora ela faz duas faculdades e não tem tempo. Ela administra melhor, e eu também. Só o fato de não estar falando tanto ao celular, melhorou muito. Quando estamos no celular, deixamos de criar, de pensar, de ter um movimento de vida. Você acorda pela manhã, pega o celular, alguém diz alguma coisa que você não gostou no grupo do whatsapp e aí já acabou o seu dia. Essa coisa de grupo, eu não tenho. Eu saio de tudo que é grupo, ou deixo uns dois, mas não escrevo nada. Às vezes, coloco um coração, um beijinho e mais nada. A qualidade de vida da gente muda. Qualquer programa ou documentário que a gente assista, vai dar exatamente isso: de como te carrega para o lado que não é da criatividade, do lúdico, dos sonhos, porque você está se restringido a um celular. É claro que ele é muito importante, eu não quero viver sem, mas não quero viver como uma escrava.  

Você é uma atriz considerada carismática, por isso as pessoas torcem por suas personagens. Você acredita que nesse caso da Silvana, isso será possível?

Quando peguei os capítulos, e vi como a Glória (Perez, escritora) apresentou os personagens, não era para ser pesado, negativo ou denso demais. Ela mostrou de uma forma leve. Quando fizemos as primeiras leituras, percebi que podia fazer de uma maneira que há um tempo não fazia, que é com humor, não caricato, mas natural que tivesse algumas brincadeiras na relação com o marido, a filha, a empregada. Estamos tratando de um problema social, e muitas pessoas passam por isso. Eu não gostaria de ser dura, e ter que mostrar o lado de maltratar um personagem. Queria colorir, humanizar. Esse é o caminho que eu quero traçar para a personagem, para deixar as pessoas envolvidas e solidárias. Não com pena, mas com entendimento, porque quando se tem pena, não se cuida, e quando entende, se resolve. Deu certo, mas foi um risco que eu corri, mas as pessoas estão entendendo.

“Todas as pessoas com quem eu trabalhei, de alguma maneira, me ajudaram muito a evoluir não como atriz, mas como pessoa…”

Com esse drama, há algumas possibilidades para a sua personagem. Você está preparada para as viradas que já deram seus primeiros sinais?

Não sei, mas estou me preparando. Nós gostamos de desafios. Esse é o caminho do personagem. Quando chegar nessa hora, eu já estarei bem antenada, e depois você me conta se ficou bom. Se não ficou, não precisa dizer nada (risos).

Então quer dizer que você costuma ler sobre as críticas que fazem a respeito dos seus personagens?

Algumas coisas sim. Quando as pessoas falam, é com carinho e respeito. Eu admiro muito quem escreve com respeito. O problema é quando falta. Essa é uma novela que todo mundo acatou. As pessoas gostam de ver, é humana. Nós conhecemos os sentimentos, mas quando se vê parece que é novo, porque está dentro de nós. O amor entre dois jovens, as guerras, mas é bem feito, bem escrito. O povo estava com saudades disso, de sentar e se entreter.

Uma novela como essa, requer muita dedicação, e nós sabemos que você tem outros projetos, como administra o seu tempo?

Vamos administrando. A filha já está grande, não precisa de ajuda, e o marido também não. A gente dá um jeito. Gosto disso. Férias de dez dias está bom. Meu tempo é o meu trabalho, e eu adoro. Sempre gostei. Faço o possível para as pessoas esquecerem aquilo que eu acabei de fazer, mas sempre tem um tempo grande, não é uma seguida da outra.

Saíram algumas notícias de que você estava insatisfeita com a personagem. Essas notícias te incomodam?

Eu juro pela minha vida, pela minha família, adorei esse personagem desde o início. Lógico que tem personagens que o autor não desenvolve, mas não é este o caso. Quando tenho um personagem, penso no que eu tenho que trabalhar, desenvolver, qual a minha função? Fui criada assim. Demorei muito tempo para ser protagonista. Sei bem como é. Se eu cheguei a ser uma, é porque fui provando em cada trabalho, que eu tinha condições. Mas isso não significa que eu tenha que ser protagonista em todas as novelas, mas me sinto com uma função muito importante. Desde o início, sempre estive e vou continuar com certeza, muito feliz. Essas notícias, não sei porque saem, e não posso dizer. Mas não estou insatisfeita mesmo! Pelo contrário. Estou satisfeita com a novela, com os meus amigos, a maioria aqui eu já trabalhei, e com quem eu não trabalhei estou adorando. Estou ao lado de algumas pessoas que há um tempo eu não estava, e estou adorando. Mas já foi esclarecido e a pessoa já sabe que estou satisfeita, que foi um erro, e que não tem nada a ver.

O escritor Manoel Carlos comentou recentemente os motivos pelo qual nunca te deu uma Helena. Como você reagiu ao saber dessa notícia?

Uma vez, ele (Manoel Carlos) me disse que as pessoas queriam que ele me desse uma “Helena”, mas quem seria a antagonista dele?! É uma coisa linda! Mas sinceramente eu nunca pensei porque ele nunca me deu. Fui muito feliz com todos os personagens que fiz. Tanto em “Páginas da Vida” (2006) e “Viver a Vida” (2009), na qual fui indicada ao Emmy. Então, se eu tivesse feito a Helena, talvez não tivesse sido indicada (risos). Ele sempre foi muito carinhoso comigo. Quando vejo a sinopse, qual o papel mais difícil? O da Lília. O que você fala quando ouve uma coisa dessa? Não tenho nem palavras. Eu liguei para ele, e ele disse que foi de coração. É claro que foi, e eu sei. Eu me saboreava com os textos, dava um trabalhão desgraçado, porque chegava um dia antes, mas não interessava. Eu só pensava que essas eram as oportunidades que eu não poderia perder. Fiz quatro novelas do Maneco (Manoel Carlos), e uma melhor que a outra. Textos incríveis que guardo na minha memória. E ele ainda me dá um presente desse? Tudo que eu padeci valeu a pena na minha vida. E na verdade, não padeci nem um pouco. Eu tenho uma cota de realizações e felicidade muito maior do que todos os percalços que a vida colocou na minha frente.

Já saíram notícias de que você está reservada para a novela do Aguinaldo Silva ano que vem. Existe algum detalhe que você possa revelar?

Não posso adiantar nada, mas depois a gente conversa. Mas ele irá voltar às origens, fará um realismo fantástico, e quando lembramos de “Tieta” (1989), que era colorido, com aqueles personagens, aquela cidadezinha, vamos fazer algo que vai alegrar muito o público. O que eu sei é que farei uma vilã chamada Valentina. Adorei o nome, mas a história mesmo, acho que só vou saber quando acabar aqui. Todas as pessoas com quem eu trabalhei, de alguma maneira, me ajudaram muito a evoluir não como atriz, mas como pessoa. Por conta dos textos, da postura. Nunca havia trabalhado com a Glória, e estou amando. Ela trabalha junto, agarra, e é muito interessante. É como se ela estivesse presente. É carinhosa, é humana, ajuda no crescimento profissional do lado humano, como mulher. Cresci como mulher, fazendo os textos do Maneco, do Aguinaldo, do Ricardo Linhares, e agora da Glória. Do próprio Gilberto (Braga, autor de “Corpo a Corpo”), que eu fiz algumas peruas, mas que valeu muito a pena. Eu tenho um carinho imenso pelo Aguinaldo, uma gratidão, porque ele peitou mesmo eu fazer o Pereirão (“Fina Estampa”, 2011) e eu jamais vou me esquecer. O que ele pedir, vou cega! Algumas pessoas eu abro o olho, mas com ele não (risos).

Você acabou se tornando uma atriz muito querida pelos autores. Essa maturidade ajudou a ter grandes papéis…

Eu acho que tem autores que eu me dei muito bem. Foi muito mais um olhar deles em relação a mim, do que eu querer mostrar serviço, sabe?! Lógico que todas as vezes que eu tinha as oportunidades, não deixei escapar. E de fato, comecei a procurar mesmo, para as pessoas olharem para mim de outra forma. Tanto que eu demorei muito para ter um papel mais significativo que foi a Sheila de “História de Amor” (1995), porque todas me viam de uma forma divertida, eu amo, e ontem enquanto eu estava fazendo uma cena, estava com muita saudade, porque também fazer sofredora, né?! De alguma maneira, eu tinha a necessidade grande de mostrar um lado, que até eu mesma gostaria de conhecer. Quando eu tive essa oportunidade com o Maneco, as coisas vieram muito relaxadas, sem eu querer mostrar muito serviço, mas ele sempre me dando suporte, e bons personagens. Eu me dei muito bem com o Maneco, com Aguinaldo e estou adorando trabalhar com a Glória. E outros que trabalhei também, que não repeti tanto, mas me dei muito bem, como o Ricardo e o Gilberto. Foram autores que fizeram a minha história. Na verdade, devo muito a eles. Com o Aguinaldo fiz cinco novelas, com o Maneco foram quatro. Então, é uma história e se formos contar…

Nós sabemos que você é uma atriz que gosta de qualquer papel, já fez uma mulher mais humilde, mas você sempre recebe personagens mais elegantes…

Não sei de onde vem isso (risos). Quando comecei minha carreira, eu fazia personagens bem histriônicos. O meu primeiro papel elegante mesmo foi em “Viver a Vida”, que não tinha nada de elegante, porque era uma mulher amargurada, que ficava olhando o guarda-roupa da irmã. E não tinha nada do que ela gostaria de ter. Claro que ela era uma ex-modelo, eu tenho porte, altura. Me vestiam elegantemente, mas a partir daí já são sete anos. Então, de alguma maneira, todo mundo me vê elegante. Antes, fiz em “Laços de Família” (2000), uma mulher com aquela roupinha o tempo inteiro, aquela gaúcha com aquele casaquinho de frio… Em “A Favorita” (2008), era uma roupa horrorosa, mas eu amava. Eu sabia que o figurino tinha muita credibilidade. E mesmo quando ela melhorava, e largava o traste do marido, começava a se vestir melhor, mas dentro das características da personagem. Eu adorava!

As mudanças físicas fazem parte do personagem, e para a Silvana você cortou e escureceu os cabelos. Você gosta dessas transformações?

Gostei muito, porque ela é uma arquiteta, uma mulher que saí pela manhã, e só volta à noite. Isso porque ela ainda vai jogar. A primeira coisa que pensei é que se eu tivesse um cabelo, toda vez que fosse para fazer as externas, ia estar armado, só que ela é uma mulher que tem cotidiano. Imagine uma cena à noite, ela chegando do jogo, toda composta? É algo que eu não consigo visualizar num personagem. Não gosto de vestir o figurino, mas o personagem. Tem que ter credibilidade, e se isso não acontecer, é hora de questionar. Pensando nisso e conversando com a Natália (figurinista), que é ótima, e nós jogamos um bolão, tudo fica mais fácil quando a pessoa está lá, te ouvindo e vice-versa. Falei que precisávamos ter praticidade, por isso, decidimos cortar os cabelos, porque se fizéssemos de outro jeito, não interessaria e ela estaria sempre igual. Ela pode chegar em casa derrotada, caída, sem maquiagem e batom… Quando cortei, ficou bom, ficou ótimo. A Silvana é uma pessoa solar, de bem com a vida, usa sempre muito preto e branco, e colorido também. Ela tem muitas paletas de cores, para não ficar muito sombrio. Conheço muitas pessoas que trabalham nessa área e são coloridas. Foi o que nós buscamos.

Então você é o tipo de profissional que gosta de conversar com a figurinista? Porque algumas atrizes vestem o que mandam.

Eu respeito muito a opinião da pessoa que está fazendo o figurino. Ela vai te apresentar, mas você tem a personagem criada na sua cabeça. Se ela não te ouvir, vai ser difícil, porque vira teimosia com teimosia. Eu dificilmente tenho problemas. Vamos conversando e acertando. Um dia coloquei uma roupa toda combinando, olhei no espelho e disse que não estava bom. Ela concordou, mudamos e ficou perfeito. Assim vamos nos alinhando. Todos os dias que entro em cena, é com confiança. Quando chego, eu olho as roupas, conversamos e ela já me entende. Não me desgasto com nada, pelo contrário, não perco tempo.

Você é considerada uma das grandes damas da dramaturgia. Esses rótulos te incomodam? A Fernanda (Montenegro) deu uma entrevista e comentou que não gosta desses títulos…

Quem me dera ter esse rótulo de grande dama. Não sou dama de nada, nem da noite (risos). Tenho muito orgulho quando as pessoas chegam até a mim, e falam algumas coisas incríveis, lindas, seja onde eu estiver, sei lá, saindo do cinema. Até pessoas dentro e fora do nosso país. Isso, claro, me deixa envaidecida. Fico feliz porque é um reconhecimento do meu trabalho, mas rótulo não me vejo. Outro dia vi uma reportagem com a Laura Cardoso, em que ela falava que tinha muito para fazer. É verdade, porque nós, e eu não conheço nenhum amigo, ator ou atriz, que sente ou fale que daqui dois anos, vai se aposentar. Isso não existe. Nós estamos sempre buscando desafios. O bom, não do rótulo, mas quando olho para trás, tudo aquilo que eu queria, aconteceu. Mas não significa que será o melhor, sempre. Nunca vou me julgar. É chato né?!

Nós sabemos que você não resume a sua carreira apenas aos personagens, mas também tem feito trabalhos como produtora. Como fica essa Lília multifacetada?

Continua. Eu vou fazer “Maria do Caritó” no cinema, e se Deus quiser vai dar tudo certo, quer dizer, já está dando. Temos o livro do Marcelo Rubens Paiva “Eu Ainda Estou Aqui”, que eu também vou fazer no teatro. Interpretarei a mãe do autor, e eu a conheci, porque fiz “Feliz Ano Velho”, em 1983. Conheci a família, dona Eunice, todo mundo. Eu tenho o Marcelo como uma pessoa que eu amo de paixão. Não só pela pessoa que ele é, mas pelo talento, pelo que ele escreve e por tudo. Ele é uma pessoa que se tornou um olhar, e nós precisamos ler o Marcelo, ouvi-lo. É uma obrigação. Quando eu li o livro, me identifiquei muito com aquela situação, porque eu vivi. Queria fazer uma peça que falasse de memória, e ela está com Alzheimer. Queremos contar essa história, que também é do Brasil.

Esse filme que você comentou “Maria do Caritó”, será algo parecido com “Alto da Compadecida”?

Não, porque é bem diferente do Ariano Suassuna, mas o Newton (Moreno, autor) que é maravilhoso, busca uma brasilidade, que faz tempo que o cinema brasileiro não apresenta. É isso que nós queremos. Já demos início ao projeto.

texto: Ester Jacopetti

fotos: Raquel Cunha/TV Globo e Maurício Fidalgo/TV Globo

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