Os 200 anos de Miguelzinho Dutra

Trinta aquarelas pintadas por Miguelzinho Dutra em Itu ilustram o livro que homenageia o bicentenário do artista ituano

O artista ituano ficou conhecido, até agora, por suas telas. Foi pintor, escultor, arquiteto, poeta, entalhador, decorador de igreja e músico. Pintor popular e músico erudito com uma produção de peças sacras 

Há exatos 200 anos nascia, em Itu, Miguel Arcanjo Benício de Assumpção Dutra, mais precisamente no dia 15 de agosto de 1812. Miguelzinho Dutra, como ficou conhecido, foi pintor, escultor, arquiteto, poeta, entalhador, decorador de igreja e músico. Filho de um ourives e neto de músico, Miguelzinho se mostrou um artista poliédrico, uma pessoa de muitas artes. Conforme título do livro “Miguel Dutra, o poliédrico artista paulista” (1981), de Pietro Maria Bardi. Segundo o historiador ituano Luís Roberto de Francisco ainda é inexistente um estudo profundo sobre o artista ituano.

Miguelzinho viveu por muitos anos na cidade e ficou conhecido por suas aquarelas e pelo importante trabalho desenvolvido como registrador. “Primeiro ele surge como registrador da iconografia da cidade e muito depois na música. O que ficou conhecido dele foram as aquarelas, pois são os mais antigos registros de Itu, assim como de outras cidades como Piracicaba, onde ele faleceu”, explica o historiador. O artista teve muitas atuações em Itu, uma das mais importantes foi a execução de arcos comemorativos para receber o imperador Dom Pedro II em 1846.

Considerada por Mário de Andrade como de enorme importância iconográfica, a obra de Miguelzinho Dutra está dividida entre os acervos do Museu Republicano “Convenção de Itu” e da Pinacoteca do Estado de São Paulo, e parte em posse da família Dutra. “Ele foi uma pessoa que registrou sua coleção, montou um álbum que chamava ‘Depósito de Trabalho’ que acabou ficando com a família e não se tem acesso”, explica Luis Roberto. Fruto do Interior paulista, Miguelzinho registrou cenas cotidianas como a Festa do Divino e pessoas comuns, além de paisagens e construções, tendo ampla produção no período entre 1835 e 1855.

No ano de 1841, Miguelzinho executou também desenhos que circundam o primeiro mapa da cidade de São Paulo; seis anos depois, desenhou o pavilhão do Ipiranga; entre 1853 e 1855 dedicou-se à construção da Igreja Nossa Senhora da Boa Morte, em Piracicaba; em 1854, realizou o projeto da Igreja Matriz de Rio Claro; em 1873 inaugurou a Capela do Paço do Senhor do Horto, em Piracicaba, na qual trabalhou como projetista e entalhador das portas, das imagens e do altar e muitos outros trabalhos. “Certamente ele vivia da produção de armar altar para igrejas, para festas, vivia como músico, é possível até que ele lecionasse piano”, afirma o historiador.

O grande registrador ituano teve um filho e passou sua arte para ele, Miguel Ângelo, que se destacou na música e um pouco na pintura. Miguel Ângelo também teve um filho, Joaquim Miguel Dutra, que deu continuidade a arte do pai e avô e continuou assim por mais três gerações. Miguelzinho Dutra faleceu em Piracicaba no ano de 1875.

 Miguelzinho Dutra músico?

Muito se conhece das aquarelas de Miguelzinho Dutra, mas como músico não se sabe até onde vai a grandiosidade desse artista. “Sempre que eu lia algo de Miguelzinho Dutra dizia que ele tinha sido pintor, escultor, poeta, entalhador, decorador de igreja e músico. Esse “e músico” sempre me despertou curiosidade”, revela Luis Roberto que lançou no mês de agosto em parceria com Jair de Oliveira e Jonas Soares de Souza o livro “Miguel Dutra: Bicentenário de Nascimento 1812 –2012”.

A união dos conhecimentos de três pessoas resultou nessa publicação que contou com cinco anos de pesquisa. Luis Roberto explica que a produção musical de Miguelzinho era contrária a sua pintura. Como pintor era um artista popular, já no campo da música era um artista erudito. “No livro levantamos alguns questionamentos, entre eles as ocasiões em que as peças dele foram escritas, temos acesso a quatro peças sacras, todas escritas em latim, inclusive numa linguagem bem interessante. Podemos afirmar que de toda produção dele, a melhor foi musical”, acrescenta o historiador.

Pintor popular e músico erudito? Miguelzinho Dutra era um homem mulato e sem posses, de onde viera essa formação erudita? Luis Roberto explica: “Ele teve uma formação musical com Frei José de Santa Delfina, foi um frade que morou um período em Itu e mestre de Miguelzinho. As quatro peças que tivemos acesso são muito boas em relação ao que era feito em São Paulona época”. A peça “Si Quaeris Miracula” foi escrita quando o artista tinha apenas 16 anos, as outras duas, “Ofertório para o 1° Domingo da Quaresma” e “Ofertório para o 2° Domingo da Quaresma” apresentam uma evolução dele, já a quarta peça, “Stabat Mater” é mais longa. “A primeira obra é imatura, os outros dois ofertórios são muito bons, maduros, já o Stabat Mater é uma peça realmente boa que tem características do perfil colonial e da obra italiana. É interessante como ele ouve determinados modelos e os reproduz”, detalha Luis Roberto.

Em comemoração ao bicentenário de nascimento do artista ituano, o madrigal do Museu da Música de Itu executou as quatro peças, duas inéditas, de Miguelzinho Dutra em um coro de 14 pessoas, além da publicação sobre a obra dele. Muito ainda há para se descobrir do artista, e assim, os autores Luis Roberto de Francisco, Jair de Oliveira e Jonas Soares de Souza levantam muitos questionamentos sobre a produção dele. O fim da produção do padre Jesuíno do Monte Carmelo e o começo da produção de Elias Lobo é onde se encontra a produção de Miguelzinho Dutra como compositor. “Eu acredito que Miguelzinho devia ser um sujeito entusiasmado e completamente atuante na sua época. Afinal, como que em Itu, Interior de São Paulo e região de isolamento cultural, um sujeito compõe uma obra musical de tanta qualidade? São obras despretensiosas e um talento na hora de conduzir que surpreende. O contraponto e a maneira como as vozes dialogam, é notavelmente muito bem escrito”, encerra o historiador e escritor.

Capa do livro lançado no último mês em Itu, com patrocínio de Revista Regional

O livro “Miguel Dutra: Bicentenário de Nascimento”

O livro sobre Miguelzinho Dutra, de autoria dos ituanos Luis Roberto de Francisco, Jair de Oliveira e Jonas Soares de Souza, foi lançado no final de agosto em comemoração aos 200 anos de nascimento do artista e conta com patrocínio da Revista Regional.

A obra traz textos sobre a produção musical e iconografia do artista, 30 aquarelas pintadas em Itu, relatos inéditos do próprio artista e prefácio do professor Paulo Garcez. Além de Revista Regional, o apoio cultural vem do Colégio Almeida Jr., Jacitara Holding, Starret e da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Itu. A obra possui 56 páginas impressas em cinco cores no formato 20×25 em papel couché. O preço de capa é de R$ 50,00 com toda a renda revertida ao Museu da Música – Itu, mantido única e exclusivamente pelo Instituto Cultural de Itu.

MAIS: Mais informações e encomendas de exemplares pelo e-mail museudamusica@itu.com.br .

texto: Gisele Scaravelli

fotos: Reproduções do livro “Miguel Dutra: Bicentenário de Nascimento”

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