Destaques, Repórter

Vida de palhaço

Anderson Espindola, o palhaço Picolé, em foto de Vanessa Marchini

No mês das crianças, reportagem especial mostra a rotina de palhaços da nossa região. Seja no picadeiro, em uma festa ou até mesmo no hospital, eles continuam encantando multidões 

Assim como seres encantados, personagens folclóricos, super-heróis e vilões, eles marcaram a infância de muita gente. Seja no picadeiro, em uma festa ou até mesmo no hospital, os palhaços têm a nobre missão de levar alegria por onde passam. Por outro lado, o fascínio por essa figura desajeitada e de alma pura não fica restrito àqueles que assistem a uma apresentação, e contagia também os seus intérpretes. Isto porque, mais do que a maquiagem, roupas coloridas e o inconfundível nariz vermelho, é preciso uma boa dose de sensibilidade para encantar multidões.

Frequentemente, o primeiro contato com este universo acontece por acaso. “Não tive vontade: eu me descobri palhaço; ele está dentro de cada um. Talvez possa até ser possível aflorar este personagem por meio de técnicas, mas a verdade é que a pessoa já nasce com este dom”, opina o analista de sistemas Fábio Vitória Cantero, que há mais de 15 anos foi convidado “para quebrar um galho” em um evento num posto de gasolina. Mesmo com dificuldades para se maquiar, ele subiu nos ônibus e conversou com todos como se fossem velhos amigos. Nascia, naquele dia, o palhaço Botão.

Irineu Guerreiro Jr., o palhaço Bang

No início, houve certa estranheza – Botão admite ter ouvido trocadilhos como, por exemplo, “estudou tanto para virar palhaço” – mas, em pouco tempo, a iniciativa começou a render frutos e ele ganhou a companhia do irmão. “Por algum tempo, Daniel foi meu ajudante, mas houve um dia em que uma cliente precisava ‘desesperadamente’ de um palhaço, mas eu já tinha compromisso. Ela, então, insistiu para que eu o mandasse. Tentei fazê-la desistir da ideia, mas não houve jeito: deixei-o na festa com o coração na mão. Quando voltei para buscá-lo, as pessoas tinham adorado. Era o início da dupla Botão e Colchete”, recorda.

Com a agenda lotada, os irmãos fundaram o projeto “A Casa dos Palhaços” (www.casadospalhacos.com.br) para recrutar e treinar outros profissionais. Embora cada palhaço tenha a sua própria personalidade, a ideia é adotar um comportamento padrão quanto ao respeito às crianças, vocabulário, figurino, maquiagem e técnica. Nesse intervalo de tempo, foram várias apresentações inesquecíveis: a mais marcante delas, segundo Botão, aconteceu numa casa de repouso.

“Montamos um show onde eu não falava, pois estava sem voz. Vendo todos os idosos sem nenhuma expressão no rosto, o Colchete ‘gelou’. Então, começamos a imaginar que a plateia era formada por crianças. Foi difícil: não houve gargalhadas,  nem gritos histéricos. As palmas foram tímidas, mas daí começaram várias manifestações de carinho: ganhamos uma cantata, onde pela primeira vez ouvi por completo a música ‘E o palhaço o que é?’. A canção foi entoada por um idoso que não enxergava, mas tinha uma voz rouca e profunda. No refrão, as senhoras respondiam: ‘é ladrão de mulher’”, conta o palhaço, que ficou arrepiado ao lembrar deste momento.

Bem-humorado, Fábio assume que não tem nada em comum com o personagem, pois se considera “uma pessoa bastante chata, detalhista e séria demais. Botão sou eu ao contrário”, diverte-se. O analista revela que o palhaço o protege e é maior do que ele. Nos momentos mais difíceis – como, por exemplo, o dia em que o avô faleceu – nosso entrevistado acredita ter feito seus melhores shows. Botão também diz sentir uma energia diferente quando se apresenta para crianças carentes. “Daí tenho a plena convicção do por que sou palhaço: levar felicidade onde ela for desejada”.

Ele acredita que o artista deve procurar se reinventar. “Palhaçada é coisa séria. O formato e a linguagem mudaram e provavelmente alguém que tentar subestimar a inteligência de uma criança não vai ter sucesso. O segredo para encantar a plateia? Sei lá. Deve ser tão bem guardado que eu ainda não vi a cara dele, mas eu só sei que olho no rosto de todo mundo e por algum motivo sou ouvido. Creio que não é segredo, mas sim um dom e neste caso não deve ser desvendado, mas sim aproveitado e compartilhado, pois vem de Deus”, finaliza.

Magia e coragem

“Ser palhaço é algo mágico: uma parte de você que não sabe dos seus problemas e nem o que é tristeza. Mas também requer coragem para enfrentar seus medos, se expor e experimentar uma realidade totalmente diferente da de qualquer pessoa normal”, conclui Anderson Espindola, o palhaço Picolé, um dos criadores da Oficina do Riso (www.oficinadoriso.com.br), cuja equipe faz shows e outras atividades recreativas em Itu e região.

Fábio Vitória Cantero, o Botão; na foto, ao lado do irmão “Colchete”

Anderson conta que se sente feliz em por levar alegria para muitas pessoas, incluindo-se aí a sua família. O filho adora, a ex-mulher trabalhou com ele por algum tempo e os pais se orgulham. Durante algumas “crises existenciais”, o apoio daqueles que o cercam foi decisivo para que nosso entrevistado não desistisse. “Em uma festa onde minha mãe estava presente, vi seus olhos brilharem: o carinho e admiração de seus comentários me emocionaram. Então percebi que tenho uma gratidão enorme por essa arte e sempre recebi mais dela do que dei”, constata.

Picolé se lembra com carinho de uma apresentação feita na Apae de Itu. “Tive o prazer de fazer um show de palhaço com fantoche: a simplicidade e o amor daquela turma são especiais. Sai com o coração pleno e uma certeza: de ter recebido deles muito mais do que eu havia levado. Foi um momento abençoado”, recorda o palhaço, que também confessa ter chorado quando, depois de uma sintonia e envolvimento muito grandes, foi aplaudido de pé pelos convidados de outra festa.

O maior aprendizado foi sobre a expansão dos próprios limites: quando coloca o nariz vermelho, Anderson diz aumentar essas fronteiras, que, segundo ele, são criadas pela sociedade, ao mesmo tempo em que desfaz “laços imaginários” ao recorrer à simplicidade e comicidade do ridículo. Dessa forma, atos simples – que fazem bem tanto para quem recebe quanto para os que o praticam – podem tornar a vida mais alegre, pois as pessoas estão carentes e precisam sorrir.

Mesmo com o avanço da tecnologia e a consequente ampliação das opções de lazer, Picolé acredita que a magia do contato direto com o público ainda existe: a possibilidade de poder se tocar, interagir, trocar experiências e vivenciar a realidade é algo imbatível. “O grande palhaço faz de um grande palco uma grande armadilha para conquistar sorrisos e gargalhadas. Ele tem tentáculos e faz de um simples gesto algo hilário. Aí esta o segredo para se encantar sempre”, sentencia.

Por último, Anderson – que assim como Picolé é alegre e carinhoso, embora se considere mais tímido e cauteloso – também faz questão de deixar uma mensagem aos leitores de Regional. “Aconselho a todos que tem este sonho a vivenciá-lo, pois uma nova janela será aberta, com outra perspectiva de ser e de ver a vida. A simplicidade, a pureza e a inocência estão em nossos corações: observe o exemplo das crianças, o modo como elas se relacionam. Vamos fazer deste mundo uma grande festa. Seja feliz sempre”.

Inspiração na telona

Em alguns casos, a inspiração pode vir do cinema. Foi o que aconteceu com Elisangela Budart Teochi, a palhaça Tutty. Depois de assistir ao filme “Patch Adams: O Amor é Contagioso” – protagonizado por Robin Willians – ela e a palhaça Frutty (interpretada por Helena Nunes), começaram a se apresentar em hospitais, para ajudar na recuperação de pacientes. Além dos shows semanais no Hospital São Camilo, a dupla também anima asilos, creches, escolas e ONGs.

Elisangela Budart Teochi, a Tutty, e Helena Nunes, a palhaça Frutty, se apresentam em hospitais, para ajudar na recuperação de pacientes

Nossa entrevistada conta que frequentou cursos de teatro para superar a timidez e, quando está se apresentando, procura esquecer-se de todos os seus problemas para atingir seu objetivo: proporcionar momentos de alegria à plateia, afinal de contas, um palhaço nunca se entristece. Elisangela agradece a Deus por ter lhe dado a personagem de presente. “Eu e a palhaça somos uma só: diferentes e iguais ao mesmo tempo. A Tutty é minha alma gêmea”, conclui.

Quem também nutre um carinho muito grande por essa arte é Irineu Guerreiro Jr., que há cerca de oito anos dá vida ao palhaço Bang (www.palhacobang.com.br). A exemplo do que aconteceu com alguns de nossos outros entrevistados, o começo foi meio sem querer. “Estava desempregado e conversei com um primo, que já trabalhava na área. Numa manhã de domingo, resolvi pintar a cara e saíem público. Foi uma experiência mágica, pois, naquele momento, senti algo diferente dentro de mim. Descobri que tinha um dom: sem nenhuma experiência e apostando somente no improviso, eu levei várias pessoas ao riso”.

Aquilo que no início era somente uma distração acabou ganhando contornos duradouros. Se antes ele tinha que trabalhar de segunda a segunda, com um jeans cortado, uma camiseta emprestada e o nariz, com o passar dos anos Irineu abriu uma empresa na área de eventos. Mas, até chegar aqui, ele enfrentou algumas dificuldades. “Acredito que tudo tem a hora exata. Em maio de 2010, em um acidente caseiro perdi a visão esquerda, e junto o entusiasmo e a motivação de continuar. Parei por um ano para tratamento: pensei em desistir, mas tive muito apoio. E não deixei de acreditar no meu sonho”, ressalta.

Irineu se mostra muito grato à família e reconhece que “sem eles, o Bang não existiria”. Sua filha o acompanha nas apresentações e é responsável pela parte técnica – sonorização, iluminação e efeitos – desde quando tinha nove anos. Embora o uso de técnicas teatrais ajude a melhorar a performance, ajudando, por exemplo, a se posicionar no palco e controlar a respiração, Bang acredita que tirar o sorriso de uma criança é uma coisa divina.

Para não deixar que o fascínio sobre a figura do palhaço se acabe, nosso entrevistado procura explorar um diferencial em seus shows: além de entreter, procura educar, também de maneira lúdica. Ele se lembra com carinho de uma apresentação realizada em um sítio de menores carentes, onde uma das crianças ficou grudada nele o tempo inteiro e, ao final, perguntou se o palhaço iria realmente embora. A menina, então, convidou-lhe para dormir na sua casa. Naquele simples gesto, Bang diz ter descoberto o significado do amor verdadeiro.

Assim como Fábio e Botão, Irineu e Bang também são diferentes. O intérprete faz questão de frisar que gostaria de ter a paciência, alegria e disposição do palhaço, que mora num lugar onde os problemas do cotidiano não existem. “Ao pintar o rosto e colocar o meu nariz vermelho, entro realmente no personagem e me esqueço de tudo. Tenho um amigo que me fala que quando estou caracterizado, parece que recebo uma entidade”, confessa, bem-humorado. Mas ele se despede falando sério: não desistam dos seus sonhos. Neste mês especial, que cada adulto redescubra a criança que tem dentro de si.

Depois de ouvir esses depoimentos, este repórter chega à conclusão de que os palhaços dificilmente perderão o seu encanto: eles nos transportam de volta a um mundo do faz-de-conta, onde tudo é alegre e colorido, que todos nós fatalmente abandonamos quando as responsabilidades da vida adulta começam a aparecer. Mas é possível voltar para este lugar, a qualquer momento. Basta que alguém nos lembre que ele sempre existirá, dentro dos nossos corações.

E viva a alegria, viva a palhaçada, viva o bom-humor, viva a gargalhada…

reportagem de Piero Vergílio

fotos: Arquivos pessoais e Vanessa Marchini (fotos do palhaço Picolé)

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