Destaques, Repórter

Alice e a diversidade brasileira

A Kombi Alice em Canudos, no sertão nordestino

Conheça a história de um casal que decidiu se aventurar pelo interior do Brasil a bordo de “Alice”, uma Kombi home. Eles registraram o cotidiano e as memórias de pessoas simples, investigando seu modo de ser e de viver

Era uma vez “Alice”, que viajou por um país fantástico, encontrou criaturas especiais e viveu muitas aventuras. Ao contrário do que possa parecer, não estamos falando da personagem imortalizada por Lewis Carroll em suas obras. Contudo, assim como a garota que persegue o Coelho Branco e acaba caindo em sua toca – dando início a uma série de descobertas – a protagonista desta reportagem tem lá suas peculiaridades, que merecem ser ressaltadas.

Com muitas histórias para contar, ela possui quatro rodas e é, ao mesmo tempo, sala, cozinha, quarto e banheiro. A esta altura, o leitor mais atento já deve ter percebido que nossa Alice não é exatamente um ser humano, embora, não raras vezes, tenha sido tratada como um por seus “pais”. Tão pouco esteve no País das Maravilhas, mas nem por isso a nação pela qual ela passeou deixa de merecer o título de “maravilhosa” – ao contrário – apesar de seus inúmeros contrastes e desigualdades.

Responsável por transportar o fotojornalista e documentarista Franco Hoff e a educadora e também fotógrafa Inês Calixto, Alice, a Kombi home – assim batizada por seus antigos donos em homenagem a heroína infantil – percorreu 60 mil quilômetros em quase três anos: durante esse período 400 municípios, provenientes de 21 Estados brasileiros, foram visitados. “Por sermos apaixonados pelo Velho Chico, traçamos a rota inicial da nascente do rio – na Serra da Canastra,em Minas Gerais– até sua foz em Alagoas / Sergipe, cujo percurso foi cumprido em sete meses”, detalha Franco.

O objetivo era registrar o cotidiano e as memórias de pessoas simples, investigando seu modo de ser e de viver, para, em seguida, promover a inserção cultural de comunidades do interior – incluindo-se aí faxinalenses, quilombolas, indígenas e ribeirinhos, dentre outros – por meio da literatura, cinema e fotografia. Consequentemente, os destinos seguintes foram escolhidos com base em alguns critérios, destacando-se a ocorrência de fatos históricos, preservação de manifestações culturais, belezas naturais e o incentivo aos processos de produção artesanais.

Antes de realizar a última parada da viagem, na Fazenda do Chocolate, em Itu, o casal esteve nas cinco regiões do país. Do tradicional ponto turístico – onde atenderam a uma equipe da Rede Globo – a principal lembrança é “o sabor delicioso da acolhida, com gosto de café e chocolate. A fazenda é linda. Recomendamos que seja visitada”, declaram.

Lavadeira – Velho Chico – MG

Muito além da aventura

O projeto “Histórias de Alice”, cuja motivação vai muito além da aventura, teve início em 2009. Em primeiro de dezembro daquele ano, Franco e Inês – que já haviam se desligado de seus respectivos empregos – se viram obrigados a repensar o conceito de espaço. Ele viveu o desprendimento antes de todos: chorou, ao deixar para trás uma porção de coisas, que seriam guardadas na memória. Outras, o fotógrafo acondicionouem caixas. Sabiaque não poderia levá-las, mas teria tempo para pensar no que fazer com elas.

Para quem escolhe uma Kombi como seu novo lar, o espaço é, de fato, a primeira e também a principal dificuldade. “Cabe aos viajantes carregar na bagagem apenas o essencial, além de ter ‘bons olhos’ para otimizar todos os espaços internos do veículo. Por outro lado, viver num ambiente tão restrito tem lá suas vantagens: uma delas é a liberdade de estar onde se deseja, associada ao fato de que uma casa tão pequena acaba por ter um quintal gigante, ora feito de mar, montanhas, rios, dunas ou florestas”, pondera Inês.

Quem opta por esse estilo de vida precisa respeitar as diferenças, bem como o espaço do outro. A longa convivência a dois, em alguns momentos, pode beirar o insuportável, porém os parceiros buscaram conhecer um ao outro e garantem que o aprendizado foi positivo: mesmo nas situações-limite, o amor prevaleceu. O segredo para contornar as divergências, segundo nossos entrevistados, está na capacidade de ceder.

A educadora lembra que, em várias ocasiões, eles ficaram horas sem conversar. Nas discordâncias graves, cada um se retirava para dentro de si mesmo. Depois de algum tempo, vinha um gesto de paz. “Franco costumava soltar o volante e estender o braço em minha direção, com a mão aberta, esperando que eu o tocasse. Quando era eu quem o havia ferido, abaixado os ânimos, fazia a mesma coisa. Só então retomávamos o assunto, tendo o cuidado de não acusar o outro”.

Mas não somente os conflitos marcaram a viagem. Além do apuro quando ocorriam desarranjos intestinais, Inês diverte-se ao lembrar que o descuido com a aparência – como só havia um espelho pequeno na Kombi, “os cabelos ficavam mais tempo do que podiam ser ver cabeleireiros, a barba crescia” – provocou um episódio inusitado. Certa vez, depois de se apresentarem à Prefeitura, eles resolveram dar um passeio para fotografar uma tradicional cidade italiana, localizada na Serra Gaúcha. Devido ao cansaço, rapidamente abortaram a ideia de transportar equipamentos grandes. Uma policial os abordou, pouco tempo depois, alegando que a população havia denunciado a presença de “elementos estranhos”.  “Só então nós nos olhamos. E eu lhe disse: ‘Amor, você está muito feio’. Ele, imediatamente, respondeu: ‘E, você, simplesmente assustadora’! Demos muita risada da situação, guardamos as câmeras e saímos à procura de um salão de beleza. Os dois primeiros não nos aceitaram; no terceiro, a cabeleireira foi mais generosa e fez barba, cabelo e bigode. Ficamos lindos”, confessa, bem-humorada.

E, finalmente, é claro que também existiram situações mais críticas, nas quais surgiu a vontade de jogar tudo para o alto e voltar para casa. Foi o que aconteceu quando o fotógrafo contraiu dengue, a educadora foi atropelada por uma moto ou ambos ficaram isolados por causa da enchente que inundou a cidade de São Lourenço do Sul, em 2010. Alice foi amarrada em quatro árvores para não ser arrastada. Por outro lado, foram em momentos como estes que eles experimentaram a solidariedade: mãos quase desconhecidas se estenderam para ajudá-los.

Inês, Franco e Alice

Lembranças do País da Emília

Tantas experiências – algumas boas, outras nem tanto – serviram como pano de fundo para o contato com a população local. Em todos os locais pelos quais passaram, eles foram bem acolhidos e promoveram contação de histórias para crianças e oficinas de fotografia, cujo público-alvo, além dos pequenos, também era composto por jovens e adultos na melhor idade. “São pessoas que pegaram numa câmera pela primeira vez. O resultado é uma coletânea de imagens incríveis, que acendeu a luz do sonho no olhar e no coração de cada um. Ouvir os gritos e gargalhadas enquanto projetávamos as fotos no telão era algo inexplicável e bastante especial principalmente para nós, pois tínhamos a oportunidade de oferecer algo a eles”, assume Franco.

São várias as lembranças que eles guardam da viagem de Alice pelo “País da Emília” – trocadilho que reverencia a boneca de pano criada por Monteiro Lobato. Para ambos, o maior aprendizado foi a capacidade de conviver com o diferente, como quando Inês sentou-se a beira de um córrego barrento para lavar roupa, ou então, durante a passagem da dupla por uma comunidade Xavante. No outro extremo, eles acreditam terem ajudado as pessoas com as quais conviveu a descobrirem o quão valiosa é sua cultura, “que há beleza na casa que consideram sem beleza, na vida que julgam simples demais”.

Cada canto do Brasil guarda uma peculiaridade, um charme, embora alguns tenham marcado de maneira especial: um deles é Natividade, cidade histórica, tranquila e calorosa, localizadaem Tocantins.  Descendoum pouco no mapa, chega-seem Matias Cardoso, Minas Gerais, um lugar com pouca infraestrutura, mas feito de uma gente linda, onde o tempo parece ter parado. “A Igreja foi construída no tempo das bandeiras que exploraram o rio São Francisco. Nesta terra de luz avermelhada, em postes que iluminam quase nada, as lendas do Nego d’água e Saci Pererê permanecem vivas. Passam-se horas ouvindo causos. Outro lugar lindo de se conhecer é Serra Pelada, na vila do garimpo. Uma experiência fantástica”.

Como ambos são apreciadores da arte da fotografia, Revista Regional pediu para que, “metaforicamente”, eles construíssem um “retrato” do Brasil desbravado pela Alice. “Ao fundo, desfocado, o mais lindo pôr-do-sol, visto em todas as regiões do Brasil, mas eu optaria pelo entardecer de Canudos. Na frente, em primeiro plano, homens, mulheres e crianças; uns nos fornos de carvão, outros nas casas de farinha, nos curtumes de couro, na pescaria, no mangue, na extração de castanhas, pinhão, cuidando e lutando pela preservação da floresta de araucárias, dentro de áreas conhecidas como faxinais, quebrando coco babaçu, ralando coco da Bahia, lavando roupa e banhando-se em igarapés”, descreve Franco.

Inês prossegue com suas impressões. “Paralelo a este Brasil, outro, onde há grandes latifúndios, amplas áreas desmatadas, terras gigantes feitas de pasto para pouco gado, áreas imensas com só um tipo de produto agrícola, terra de um único proprietário. Em cor negra, querendo que fossem apagadas, as chaminés da corrupção política, que leva à morte o futuro de um povo. Nas cidades, o desenvolvimento, a tecnologia, um país com cara e jeito de primeiro mundo, mas correndo pelas ruas, nas estações de metrô, um povo apressado, acostumado a olhar e não enxergar, cuja sensibilidade adormeceu para não ver a dor”.

Vale do Jequitinhonha – em foto Franco Hoff

Não é o fim

É um grande equívoco acreditar que o encerramento da viagem é também o ponto final desta história. Ao contrário, ela está apenas começando.  De volta a São Paulo desde maio, Franco e Inês agora se dedicam a captar recursos, para que seus projetos – já aprovados pela Lei Rouanet – possam sair do papel. Embora com propostas diferentes, todos eles têm, em comum, o objetivo de retornar, de um modo ou de outro, para os lugares de onde o casal buscou imagens, histórias e encontros.

O primeiro deles é a “Caixa-Kombi”, composta por três obras – “Diários de uma Kombi”, “Um Brasil de causos, contos e encantos” e “Pelo Retrovisor” – destinadas ao público infanto-juvenil. Paralelamente, eles pretendem lançar “Brasil de dentro, a vida que poucos vêem”, um livro de fotografias voltado ao público adulto. Este também é o nome da exposição, aberta desde o último dia 26 de junho, na “Ímã Foto Galeria”, localizada na Vila Madalena, na capital paulista.

Assim que os livros estiverem finalizados, eles pensam em, mais uma vez, cair na estrada. “Gostaríamos de chegar aos lugares onde a Alice não nos pode levar, lugares que só são acessíveis a barcos e carros tracionados”, planejam. Isso significa que, no livro da vida, há páginas que permanecemem branco. Muitashistórias deliciosas, outras dramáticas, ainda serão contadas, pois finais felizes só existem nos contos de fadas. Na vida real, tudo sempre recomeça…

LINK:

site: www.historiasdealice.com.br

twitter: www.twitter.com/sigaalice

youtube: www.youtube.com/historiasdealice

 

texto Piero Vergílio

fotos Franco Hoff e Inês Calixto

 

VEJA ABAIXO GALERIA COM AS FOTOS DA AVENTURA.

 

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